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Maria Maeno: “É preciso pensar no desenvolvimento do trabalhador enquanto cidadão”

Publicado em: 22 de janeiro de 2013

Luciano Máximo, no Valor
De São Paulo

Nos últimos três anos, a média de  gastos   da  Previdência  Social com problemas de saúde  gerados no próprio ambiente de trabalho cresceu acima das despesas com os afastamentos previdenciários gerais. O elevado  número de registros  de doenças mentais que  podem ser associadas a um cotidiano profissional insalubre, como estresse, depressão, transtornos de ansiedade, síndrome do pânico  e até dependência de drogas  e álcool, é um indicativo para a expansão mais firme das despesas com os chamados benefícios acidentários — quando um trabalhador é afastado por causa de doença comprovadamente adquirida em  função do  emprego ou  acidente sofrido durante a jornada de trabalho.

Segundo o Ministério da  Previdência Social, o pagamento de benefícios de afastamentos previdenciários (por  causa de doença adquirida ou acidente sofrido sem relação direta com o emprego) registrou elevação anual média  de  7,5% entre 2008  e 2011, para R$ 13,47  bilhões —  de  janeiro a novembro de 2012,  o Instituto Nacional de  Segurida- de Social (INSS) desembolsou R$
13,69  bilhões com  essas obrigações.  Já os gastos com  auxílios-doença  acidentários  passaram de R$ 1,51 bilhão em 2008  para R$ 2,11  bilhões em 2011,  apon- tando crescimento médio anual de   12%  —   no   acumulado  de
2012,  até novembro, o valor pago chega a R$ 2,02 bilhões.

Os casos de aposentadoria por invalidez  (por motivações diversas) também têm crescido dois dígitos. Entre janeiro e novembro de 2012, o INSS bancou R$ 30,86 bilhões   para   apoiar  profissionais que  nunca mais  poderão exercer suas atividades normalmente.

De acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a jornada semanal média dos trabalhadores brasileiros não aumentou ao longo desses quatro anos, mantendo-se em 39,9 horas semanais. Para o pesquisador Eric Calderoni,  doutor em  psicologia social pela Pontifícia Universidade Católica  de São Paulo  (PUC-SP) e Columbia University,  de  Nova York, a rotina do trabalhador é que se tornou mais estressante.

“Sofrimento no  ambiente profissional  não  é só ritmo e tempo, mas sobretudo organização do trabalho: ordens contraditórias, assédio, metas, questões éticas, autonomia, senso de dever bem cumprido,  estabilidade no emprego, clima”, pondera Calderoni.

Os auxílios-doença, previdenciários  e acidentários, concedidos a trabalhadores por causa de depressão ou transtornos depressivos recorrentes cresceram a uma  média de  5% nos  últimos cinco  anos,  superando 82 mil ocorrências anuais. Esse quadro preocupa o governo e tem mobilizado sindicatos e empresas a criar novas práticas laborais com o objetivo de evitar  as chamadas doenças da modernidade.

Em resposta a questionamentos da reportagem, a área  técnica do  Ministério da  Previdência Social  reconhece que  o problema “chama atenção de formuladores de políticas públicas” e informa que  tem  feito estudos e avaliações sobre a evolução desses números a fim de investir em processos preventivos. Para o ministério, os últimos anos  desfavoráveis para a economia global e de baixo crescimento interno impactaram negativamente a saúde do trabalhador.

A médica  do trabalho Maria Maeno, diretora da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), entidade ligada ao Ministério do Trabalho, concorda com a visão governamental, mas avalia que respostas de empresas e governos para  enfrentar a situação são ineficazes.

“Não há política  bem definida de reabilitação profissional que  coloque pessoas  de volta no mercado, o que explica maiores gastos  com  benefícios.   Também não há espaços dentro das empresas para analisar a condição do trabalhador e eventualmente encaminhar o tratamento do problema ou mudá-lo de área”, diz Maeno.

Ela acrescenta ainda que há um grupo  de  acidentados  que   não consegue o  benefício do  INSS e acaba perdendo o emprego. O Ministério da Previdência informou que em 2013 vai reformular o Programa de Reabilitação Profissional (PRP),  com   a   implantação  de ações-piloto em diferentes setores.

Maria Maeno  também pondera que o Sistema  Único de Saúde (SUS), para onde vai a maior parte dos trabalhadores acidentados, e a perícia médica do INSS, responsável   pelo    diagnóstico que determinará o benefício previdenciário, sofrem de falta de empenho na resolução de casos. “O ideal é o SUS trabalhar de forma preventiva, cumprindo o papel de vigilante das condições de saúde no ambiente de trabalho”, sugere a  médica, para quem o problema central é estrutural.

“Principalmente para minimizar transtornos mentais, Estado e capital privado não  incorporaram  o ser humano dentro da equação de sustentabilidade. Diante da  competitividade exacerbada, falta de solidariedade — uma vez que cada um quer salvar seu emprego — e ameaças de enxugamento e demissão, é preciso pensar no desenvolvimento do trabalhador enquanto cidadão, deixar de lado  a visão economicista excessiva”, opina Maria.

Ela cita o exemplo das “práticas” recentemente acordadas por  empresas,  sindicatos e governo  para melhorar a qualidade de vida do cortador de  cana:  “Determinam que o trabalhador precisa se hidratar  e fazer  ginástica laboral. Alguém precisa me falar que eu preciso tomar água? Que fundamento científico atesta que a ginástica laboral  vai diminuir a penosidade do trabalho do cortador. Não me parece algo sério”, critica a médica.

Outro  setor  onde  as discussões sobre  saúde  no trabalho são bastante acaloradas é o bancário. Sindicalistas   reclamam,   principalmente,  das  cobranças por  metas exageradas, constrangimentos  e atitudes autoritárias de superiores e associam esses problemas ao desenvolvimento  de   mazelas   por parte  dos trabalhadores, com ênfase aos transtornos mentais, como estresse e depressão.

Walcir  Previtale,  secretário nacional de saúde do trabalhador da Confederação Nacional dos Trabalhadores do  Ramo Financeiro  da Central Única dos Trabalhadores (Contraf-CUT), conta que questões ligadas à saúde e às pressões psicológicas  no  ambiente de trabalho têm  ganho cada  vez mais espaço na pauta de reivindicações sindicais no setor financeiro.

Em 2012, bancários e banqueiros entraram em acordo para incluir três itens sobre saúde e segurança do trabalho no dissídio coletivo da categoria. Um deles garante antecipação salarial se o trabalhador precisar se afastar.  Os outros dois  sistematizam procedimentos para dar mais agilidade no encaminhamento de acidentes de trabalho.

“Leva tempo para o profissio nal receber o benefício do INSS, tem que agendar a perícia e esperar o resultado. Nesse ínterim ele continuará recebendo do banco e quando os benefícios começarem a entrar, ele devolve o valor à empresa”, explica Previtale.

Magnus  Ribas, diretor de relações do trabalho da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), pondera que é “cientificamente” difícil estabelecer correlação entre doenças mentais e trabalho e que o setor bancário é o único que fornece plano de saúde  para seus mais de 500 mil trabalhadores e familiares.

Segundo ele, recentemente os dez maiores bancos  brasileiros criaram uma comissão  para  tratar da saúde laboral. O objetivo é criar 20 diretrizes para  melhorar a qualidade de vida no trabalho.

Sobre o problema relacionado a pressões  e constrangimentos nas agências, o executivo conta que os maiores bancos  do país criaram uma espécie de “disque-denúncia”, um canal de comunicação do bancário com uma área neutra do departamento de recursos  humanos ou da ouvidoria para o registro anonimamente ocorrências. De acordo  com levantamento da Febraban, no primeiro semestre de 2012 foram  registradas 132 denúncias de bancários.

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Fátima Oliveira: Alguém tem de dar um basta em tamanha desgraça

Publicado em: 16 de janeiro de 2013

Fátima Oliveira: O que mais dá a dimensão de completo abandono de idosos é terem “bicheira”

Fátima Oliveira, no Jornal OTEMPO
Médica [email protected] @oliveirafatima_

O “Fantástico” de domingo último, dia 13, exibiu diversas modalidades de violência contra pessoas idosas envolvendo cuidadores remunerados e familiares. A matéria afirmou que as “denúncias de crimes contra idosos crescem quase 200% em um ano”; que elas triplicaram entre 2011 e 2012; e que os “crimes mais denunciados são negligência e violência psicológica. Depois, vêm abuso financeiro e econômico, violência física e abandono”.

Há anos tenho a percepção de que os pronto-socorros se esvaziam no Natal, período em que, desde a antevéspera, há uma pressão familiar exagerada para que idosos e acamados em geral recebam alta. Simples. Natal é festa em casa, e nenhum familiar quer ficar em hospital com doente. Daí a insistência pela alta. Algo bem diferente do restante do ano.

Via de regra, a tendência é se insurgir contra a alta hospitalar, exigindo que seu familiar idoso ou fisicamente dependente permaneça no hospital ad aeternum, sob diferentes argumentos, mas, na base, em geral, está o desejo de não levá-lo para casa.

No Ano Novo, uma festa de rua, dá-se o inverso. A partir do dia 30, começa a romaria do retorno de idosos e acamados para o pronto-socorro, exigindo que fiquem internados. Até uma troca de sonda nasoentérica é motivo para uma esculhambação para que aquele doente fique no hospital. Um disparate total. Dá náuseas.

Há famílias, e são várias, que dão até endereço errado! Pelo rodízio familiar, era a vez de uma fulana cuidar do pai por uma semana. Simples. Ela chamou o Samu, sob o argumento de crises convulsivas (descobrimos que era mentira!), e levou o velho, que não tinha nada, apenas era acamado há anos. Ao fazer a ficha de atendimento, ela deu endereço e telefone de outra irmã e sumiu! A cuidadora viajou para o réveillon na praia! Foi um bafafá, porque a filha cujo endereço estava na ficha de atendimento se recusava a buscar o pai no hospital e só compareceu sob ameaça de um BO por abandono de incapaz! Chegou, cinco horas depois, esbravejando e ameaçou todo mundo de negligência, omissão de socorro…

Há casos em que a pessoa doente está de alta, sobretudo pós Acidente Vascular Cerebral (AVC), com sequelas incapacitantes para a vida autônoma, em que a família fica enrolando por semanas, alegando que precisa se preparar para recebê-la em casa… Se são muitos filhos, o hospital vira um ringue… Cada um tirando o corpo fora mais que o outro… Mas todos querem ser o “procurador” junto do INSS.

Houve um caso em que cada um dos quatro filhos solicitou declaração de que a mãe, com sequelas graves pós-AVC, estava impossibilitada de receber a pensão pessoalmente. Como a declaração havia sido dada à filha que a internou e que, perante o hospital, era a responsável por ela, inclusive em dois atendimentos anteriores, o mundo quase veio abaixo. Disse-lhes que fossem resolver o caso deles na polícia.

Todavia, o que mais dá a dimensão de completo abandono é de idosos, acamados e crianças com miíase (mye=moscas; ase=doença), o que se chama na roça de “bicheira”, coisa não rara em Belo Horizonte. Fico possessa, pois acho que gente não é para ser comida viva por bichos!

Puxando pela memória, expus, sucintamente, alguns casos, apenas para demonstrar diferentes graus de violação dos direitos humanos que as famílias perpetram contra seus familiares com dependência física de cuidados, com o intuito de demonstrar a banalização e a naturalização da violência a que estão submetidos no cotidiano. Alguém tem de dar um basta em tamanha desgraça.

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Leonardo Sakamoto: Meninos deveriam brincar de boneca e de casinha

Publicado em: 13 de janeiro de 2013

Leonardo Sakamoto, no seu blog

Tenho dado bonecas de pano de presente para filhos de alguns amigos. Há algumas lojas que vendem brancas, negras, indígenas, asiáticas.

Diante do estranhamento dos pais (“Ah, mas ele é menino!”), tento explicar que brincar de boneca e de casinha deveria ser algo incentivado a ambos os sexos.

Formaríamos homens mais conscientes e menos violentos se eles entendessem, desde cedo, que cuidar de bebês, cozinhar, limpar a casa não são tarefas atreladas a um gênero, mas algo de responsabilidade do casal. Não há nada mais anacrônico do que tomar como natural que o homem deve sair para caçar e a mulher ficar cuidando da tenda no clã. Em alguns países, após um período inicial de licença maternidade básica, o casal escolhe quem continua fora do trabalho para cuidar do pimpolho. Podem decidir, por exemplo, que ele ficará em casa e ela irá para a labuta.

Enquanto isso, damos armas e espadas de brinquedo para os meninos. Dia desses, vi um par de pequeninas luvas de boxe expostas em uma loja – para lutadores de seis anos. Evoluímos como sociedade, mas continuamos fomentando a agressividade entre eles como se fosse algo bom. A indústria de brinquedos, com raras exceções, trabalha com essa dualidade “meninas precisam aprender a cuidar da casa e ficar bonitas para os meninos” e “meninos precisam aprender a governar o mundo”. Quem quer romper com isso encara certa dificuldade para encontrar produtos.

O filho de um amiga ganhou de presente um kit de panelinhas, prato e talheres de brinquedo. Ele adora. Mas foi duro encontrar um modelo que não tivesse estampas com desenhos de meninas. Isso sem contar as caixas, que trazem garotas brincando de cozinha, como se o produto não pudesse ser utilizado por garotos também. Isso sem falar dessa imbecilidade de que rosa é cor de menina e azul de menino. Quando alguém começa a defender esse maniqueísmo pobre, dá uma preguiça…

Brinquedos não deveriam trazer distinção de gênero. Ou como diz uma imagem que estava correndo o Facebook: “Como saber que um brinquedo é para menino ou para menina?” E faz uma pergunta: “Vibra?” Se a resposta for sim, não é para crianças. Se a resposta for não, vale para ambos os sexos.

O homem é programado, desde pequeno, para que seja agressivo. Raramente a ele é dado o direito que considere normal oferecer carinho e afeto para outro ser em público. Ou cuidar de bebês e da casa. Manifestar sentimentos é coisa de mina. Ou, pior, é coisa de “bicha”. De quem está fora do seu papel. Papel que é reafirmado diariamente: dos comerciais de produtos de limpeza em que só aparecem mulheres sorrindo diante do novo desentupidor de privadas até a escolha de determinados entrevistados por nós jornalistas, que também dividimos o mundo entre coisas de homem e de mulher. “Ah, mas o mundo é assim, japa.” Não, não é assim. Nós que não deixamos ele ser diferente.

Homens que trabalham no Brasil gastam 9,5 horas semanais com afazeres domésticos, enquanto que as mulheres que trabalham dedicam 22 horas semanais para o mesmo fim. Os dados são da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Com isso, apesar da jornada semanal média das mulheres no mercado ser inferior a dos homens (36 contra 43,4 horas, em termos apenas da produção econômica), a jornada média semanal das mulheres alcança 58 horas e ultrapassa em mais de cinco horas a dos homens – 52,9 horas – somando com a jornada doméstica. Ou 20 horas a mais por mês. Ou dez dias por ano.

A análise mostra também que 90,7% das mulheres que estão no mercado de trabalho realizam atividades domésticas. Enquanto isso, entre nós homens, esse número cai para 49,7%. Porque brincar de casinha é coisa de menina.

Trabalho doméstico não é considerado trabalho por nossa sociedade, mas sim obrigação, muitas vezes relacionado a um gênero, que tem o dever de cuidar da casa. Às vezes, o casal trabalha fora e, nesse caso, terceiriza-se o serviço doméstico para outra mulher, seja ela babá, faxineira ou cozinheira. Sem, é claro, garantir a elas todos os direitos trabalhistas porque, até o Congresso Nacional aprovar nova lei, são cidadãs de segunda classe. E, diante da possibilidade de pagar direitos trabalhistas a quem faz o trabalho doméstico, a classe média pira.

A disputa é no campo do simbólico e, portanto, fundamental. Todos nós, homens, somos inimigos até que sejamos devidamente educados para o contrário. E os brinquedos que escolhemos para nossos filhos fazem parte dessa longa caminhada a fim de garantir um mínimo de decência para com o sexo oposto.

Abaixo, vídeo de uma sensacional campanha do governo do Equador contra o machismo que traduz em imagens o que quero dizer:

Leia também:

Você sabe escolher brinquedos? Veja as dicas da terapeuta ocupacional Aide Mitie Kudo, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP.

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Pedro Tourinho: A internação compulsória de usuários de drogas é altamente ineficaz

Publicado em: 11 de janeiro de 2013

Pedro Tourinho: “A medida tem por objetivo ‘limpar’ as ruas, sem preocupação de fato com o usuário de crack”

por Pedro Tourinho, no Correio Popular, via Saúde do Brasil, sugestão de Paulo Navarro

Nos últimos dias vem sendo anunciada com alarde, como uma grande novidade, a internação compulsória de usuários de crack, que será adotada pelo governo do Estado de São Paulo na Capital paulista. O debate a respeito da internação compulsória é antigo e recentemente vem ganhando força junto a outros elementos de uma agenda social conservadora e excludente.

Vários estudos mostram que a internação compulsória, enquanto instrumento para a abordagem dos problemas decorrentes do abuso de substâncias, é altamente ineficaz, além de desrespeitar diversos direitos de cidadãos que, na maioria da vezes, já são vitimas de longa data do desrespeito a direitos sociais básicos, como moradia, emprego, educação e saúde. Segundo o professor Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp, 98% dos pacientes que são internados compulsoriamente sofrem recaídas pouco tempo depois do fim da internação.

Trata-se, portanto, muito mais de uma medida policialesca e simplista, que busca principalmente dar a impressão de que o problema do crack foi resolvido, supostamente eliminando as cracolândias.

É a volta da política manicomial como política pública, o que vêm sendo combatido ha décadas pela Reforma Psiquiátrica Brasileira. Quem conhece o histórico e as condições das internações psiquiátricas no Brasil sabe que se trata de um retrocesso, com a marca da truculência, do autoritarismo e da exclusão. Recomendo ao leitor assistir o filme “Bicho de Sete Cabeças”, protagonizado por Rodrigo Santoro, que retrata fielmente o mundo dos manicômios e das internações compulsórias no país.

Nossa luta é por uma política dsaúde que respeite o sujeito, seus direitos e sua saúde. A decisão pela internação ou não de um usuário é uma decisão que deve ser feita por equipes de saúde, com profissionais bem treinados para tal e nunca com base em uma decisão judicial. O uso abusivo de crack é uma problemática multicausal, extremamente complexa. O estado só conseguirá abrir um diálogo com os usuários, dar respostas efetivas para a sociedade a partir da adoção de políticas intersetoriais de fato, capazes de respeitar as pessoas e oferecer a elas condições de vida e de tratamento.

Já existem hoje vários dispositivos para um tratamento mais humano e eficaz do problema do uso abusivo de substâncias. Infelizmente, o anúncio de medidas com esse caráter higienista muitas vezes passa a falsa impressão de um governo “de pulso firme” e pode inclusive ganhar votos, além de atender a grupos de interesse que certamente lucram com as internações compulsórias.

Se houvesse preocupação real com uma abordagem mais justa e solidária, ao invés de apresentar a internação compulsória como a boa nova, o governo do estado e a Secretaria Estadual de Saúde deveriam anunciar pesados investimentos na implementação e ampliação por todo estado da rede de Centros de Atenção Psicossocial especializadas em álcool e outras drogas, de Centros de Convivência, de leitos de internação psiquiátricas em hospitais gerais, consultórios de rua e casas de passagem. Deveria também apoiar os municípios no custeio das equipes multiprofissionais para todos estes equipamentos e, claro, deveria investir adequadamente em políticas de geração de renda, inclusão através da economia solidária e outras formas de reabilitação social.

Pedro Tourinho é médico sanitarista, professor da Faculdade de Medicina da PUC Campinas e vereador de Campinas pelo PT.

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Ana Costa: Parturientes pagam taxa extra por negligência da ANS e interesses corporativistas

Publicado em: 6 de janeiro de 2013

Doutora Ana Maria Costa: Parto medicalizado e mercantilizado

por Ana Maria Costa

O abuso das cesarianas no Brasil é um problema crônico e caracteriza-se como uma das mais importantes medicalizações do parto, mas, nem mesmo assim, até o presente momento foi enfrentado de forma adequada pelo SUS. Comitês de morte materna, limites e taxas de partos cirúrgicos toleráveis foram algumas das estratégias tentadas além de outras ideias como as que advogam pela retirada do parto do ambiente hospitalar.

O recente debate imposto pelos planos de saúde sobre o custo adicional do parto tem clara relação com o problema do excesso das cesarianas no país e, ao mesmo tempo, reflete a lógica mercantil que rege o abandono que as mulheres vivenciam na hora do parto.

O fato das parturientes vinculadas aos planos privados de saúde não contarem com a garantia do atendimento ao parto pelos profissionais que acompanharam o pré-natal é  resultado de negligência da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que não regulamentou sobre o tema, permitindo avançar o descompromisso dos profissionais que demandam receber “por fora” para garantir disponibilidade no momento do parto. Efetivamente, o parto é um procedimento e, como tal, tem um custo para o profissional. Não obstante deve ser  garantida a presença do médico assistente do pré-natal sem que isso tenha  custo adicional ao que os segurados já pagaram aos seus  respectivos planos.

No contexto atual, a assistência prestada ao parto pelos planos de saúde ocorre por meio do plantonista da maternidade e, somente quando as mulheres gestantes pagam a taxa de chamada, elas podem ser assistidas por outro médico. Essa situação gera vulnerabilidade e risco para as parturientes que não contam no momento do parto com o profissional que realizou o seu atendimento pré-natal. O médico que a atende, além da inexistência do vínculo de confiança essencial nesse momento da vida, desconhece detalhes acerca do curso da gravidez ou mesmo da sua situação de saúde, o que comprovadamente contribui para elevar taxas de cesáreas, morbidade e mortalidade materna.

A lógica que hoje prevalece deixa a cargo das mulheres buscar uma solução cuja alternativa única é aquela que ocorre por meio do pagamento adicional de taxas ao médico assistente. É o ônus que é pago pela segurada de um plano de saúde, para fazer valer uma condição que reduz o seu risco obstétrico pelos comprovados benefícios da presença do médico assistente do pré-natal no parto.

No abandono do Estado e das suas instituições reguladoras, as mulheres sobrevivem, sofrem, angustiam-se, adoecem  e até morrem sem que outra ética de cuidado se sobreponha àquela da mercantilização da saúde.

Foi nessa perspectiva que o Conselho Regional de Medicina do DF se adiantou e tomou posição favorável à criação e ao pagamento de mais uma taxa que chamou de “taxa de disponibilidade”, a qual seria cobrada das parturientes pela decisão de serem atendidas pelos obstetras que acompanharam o pré-natal. O Conselho Federal  apoiou a iniciativa.

Os Conselhos de Ética e Fiscalização do exercício profissional são autarquias criadas com a atribuição de fiscalizar o exercício profissional. Esta delegação do Estado, entretanto, não retira do Estado seu poder-dever de preservar a saúde e o interesse público. Ou, ao menos, não deveria.

Tudo o que as mulheres demandam, em casos como este, é o que a boa prática da assistência obstétrica e o conhecimento científico sempre preconizou: que o médico que realizou o pré-natal acompanhe o momento do parto. Essa condição tem impacto positivo na saúde da mulher e do recém-nascido e, por isso, seria a decisão governamental esperada  em tempos de prioridade presidencial à política da Rede Cegonha .

A ANS ainda não regulamentou o tema que, por suas repercussões sobre a saúde das mulheres, requer urgência. Mas qual  regulamentação seria necessária para preservar a saúde e os direitos das mulheres? Um caminho eticamente defensável seria sustentar o direito ao produto adquirido dos Planos de Saúde ou seja, a “saúde”. Nessa perspectiva, não se podem admitir novas taxas e cobranças adicionais apenas para garantir, no parto, a óbvia presença dos profissionais que atenderam a paciente durante o pré-natal. Se houver pagamento a tais profissionais, que sejam feitos pelos planos, sem qualquer cobrança, direta ou indireta, às usuárias dos planos de saúde.

É injusto penalizar mais uma vez as famílias e as mulheres, cujo ônus com a saúde tem sido, no seu conjunto, bem maior que o gasto público. E a ANS e o governo não podem permitir que a mercantilização do parto implique em um risco a mais para a saúde e a vida das mulheres e recém-nascidos brasileiros.

Ana Maria Costa é médica, doutora em Ciências da Saúde e presidente do Cebes — Centro Brasileiro de Estudos em Saúde.

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Quer se bronzear de forma saudável? A doutora Soraia Aracele dá todas as dicas

Publicado em: 25 de dezembro de 2012

Doutora Soraia Lozano: Mesmo usando filtro solar com fator 60, não se deve permanecer longos períodos ao sol

 

por Conceição Lemes

A luz solar é indispensável ao ser humano. Ajuda a prevenir osteoporose. Auxilia o tratamento de doenças, como psoríase, eczema e raquitismo. É também excelente “ferramenta” para enfrentar o estresse, pois leva o cérebro a produzir substâncias que melhoram o humor.

Em compensação, o sol em excesso, todos sabem, traz prejuízos à saúde. Pode causar queimaduras, envelhecimento precoce da cútis, com a formação de manchas, linhas de expressão e rugas, facilita a catarata, a  eclosão de crises de herpes e a instalação ou agravamento de lúpus eritematoso. A exposição exagerada e repetida ao sol é responsável pelo câncer mais frequente no Brasil – o de pele.

“Os prejuízos se devem à associação dos efeitos nocivos dos raios ultravioleta A e B (UVA e UVB) e dos infravermelhos”, explica a dermatologista Soraia Aracele Lozano,  médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Os malefícios de um potencializam os do outro. É possível, porém, ficar apenas com benefícios, expondo-se de forma saudável ao sol.”

É simples. A doutora Soraia Lozano ensina como.

Blog da Saúde – Quem precisa se proteger dos raios solares?

Soraia Lozano – Todos nós, independentemente de idade, sexo, etnia.

Blog da Saúde – Inclusive os afrodescendentes, certo?

Soraia Lozano  –  Com certeza. Muita gente acredita que os afrodescendentes podem tomar sol à vontade, pois não teriam risco de câncer de pele. É uma ideia falsa.  Os afrodescendentes têm, isto é verdade, menos risco devido à farta produção de melanina. É o pigmento fabricado pelos melanócitos [ células da pele] e que dá cor à pele e atua como filtro solar, prevenindo os danos causados pela radiação solar.

Blog da Saúde – Quem é mais suscetível ao câncer de pele?

Soraia Lozano – Seguramente as pessoas de pele e olhos claros, com cabelos loiros ou ruivos,  são mais suscetíveis; têm menor produção de melanina.

Blog da Saúde – Na prática, o que significa exposição saudável?

Soraia Lozano – Evite a exposição direta e prolongada ao sol entre 10h e 16h, quando os raios solares são mais intensos. É por volta de meio dia (13h, no horário de verão) que a radiação atinge seu pico. Use protetor solar na praia, na piscina, assim como ao praticar esporte ou trabalhar sob o sol. Procure lugares com sombra, sempre que possível. Ela protege você dos raios diretos do sol.

Blog da Saúde – Tendas e guarda-sóis funcionam? 

Soraia Lozano  –  As de nylon deixam passar 95% da radiação solar. Logo, não protegem quase nada. Já os feitos de algodão ou lona são mais efetivos: retêm 50% da radiação ultravioleta. Portanto ajudam, mas não dispensam as demais medidas preventivas, inclusive o uso de protetor solar. A luz solar, ao “bater” na areia, calçada, piso, água, reflete em você, provocando danos à sua pele.

Blog da Saúde – Quanto às roupas, o que recomenda?

Soraia Lozano – Vista roupas claras e leves. As cores claras refletem a luz solar, diminuindo a absorção dela pela sua pele. As feitas de algodão filtram melhor a radiação do que as de tecidos sintéticos. Nos dias com muito sol, proteja-se ainda com boné ou chapéu de abas largas, óculos escuros e camisa de manga longa.

Blog da Saúde – Agora, o filtro solar. Fala-se em fator de proteção solar (FPS) cada vez maior. Qual é o indicado?

Soraia Lozano – Varia de acordo com o tipo de pele e o nível de exposição. Normalmente, o fator 15 é suficiente para a maioria das pessoas, pois se sabe que filtra 94% da radiação ultravioleta. Já pessoas de pele e pele e olhos claros, cabelos loiros ou ruivos,devem utilizar fatores mais elevados. O ideal é um fator de proteção de 20 a 60. Aplique o protetor 30 minutos antes da exposição ao sol em todas as áreas do corpo descobertas, incluindo rosto, orelhas, pescoço, colo, dorso das mãos e braços.

Blog da Saúde – Tem gente que usa FPS 60, por exemplo, achando que pode ficar muito sol.

Soraia Lozano – É outra ideia falsa.  Mesmo usando filtro solar com fator 60, não se deve permanecer longos períodos ao sol.

Blog da Saúde  – Quanto tempo dura a proteção do filtro solar?

Soraia Lozano — O tempo é limitado. Há uma fórmula para calculá-lo, mas não é funcional. Na prática, reaplique a cada três ou quatro horas, durante a exposição solar. Também após entrar na água, praticar esportes ou suar muito. Já existem produtos “à prova de água”, que também devem ser reaplicados.

Blog da Saúde — Protetores solares com fator 30, 60 exigem reaplicação?

Soraia Lozano – Sim. Portanto, se usá-los, reaplique a cada três ou quatro horas. Igualmente após entrar na água, se exercitar ou transpirar muito.

Blog da Saúde – Em dia de mormaço é preciso usar protetor solar?

Soraia Lozano – Sim. Embora a “ausência” de sol atenue a radiação ultravioleta, a neblina quente e úmida, resultante de forte calor, é suficiente para produzir queimaduras. Ou seja, o mormaço apenas mascara a falta de sol aparente. Portanto, para se proteger realmente, use, sim, protetor solar, mesmo que só tenha mormaço.

Blog da Saúde – Quando usar filtro solar? 

Soraia Lozano  – Sempre que frequentar piscina, praia, rio ou cachoeira. Também se trabalhar ao ar livre – como carteiros, garis, salva-vidas e vendedores; sair para caminhar ou resolver assuntos em dias ensolarados. É importante levar consigo o filtro para reaplicação, se necessário.

Blog da Saúde – O filtro solar previne todos os tipos de câncer de pele?

Soraia Lozano – Previne a imensa maioria. Vou explicar. A pele é dividida em camadas. O tipo de câncer depende da camada afetada. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), do Ministério da Saúde, os mais frequentes são o carcinoma basocelular, responsável por 70% dos diagnósticos de câncer de pele, e o carcinoma epidermoide (ou espinocelular), com 25% dos casos. Felizmente, o filtro solar previne ambos…

Blog da Saúde – E o melanoma?

Soraia Lozano – O melanoma, não. Ele corresponde a 4% dos casos de câncer de pele no Brasil. É o mais agressivo, com alto risco de se espalhar para outros órgãos, através dos gânglios linfáticos, provocar metástase e ser fatal. Quanto mais cedo forem o diagnóstico e o tratamento do câncer de pele, menor o risco de mutilações e maior a probabilidade de cura.

Blog da Saúde – O melanoma é mais freqüente em quem?

Soraia Lozano  – Nas pessoas de pele clara, mas podem se formar também em negros, mulatos, indígenas.  Na maioria das vezes manifesta-se por lesão pigmentada que surge do nada ou da transformação de uma pinta que o indivíduo tem desde o nascimento. Atenção, portanto, às pintas, perebas, manchas. Mudou de cor, tamanho e sensibilidade, corra para remover.

Blog da Saúde — A exposição excessiva ao sol faz realmente mal em todas as idades?

Soraia Lozano – Seguramente , do bebê ao idoso. Embora os efeitos nocivos dos raios solares sobre a pele se manifestem principalmente a partir dos 40 anos, eles se acumulam ao longo da vida.

Blog da Saúde – A partir de quantos meses, os bebês podem se expor diretamente ao sol?

Soraia Lozano – Só depois dos 6 meses. Antes, não devem – de modo algum!  Seus melanócitos ainda não funcionam.

Blog da Saúde – Algumas leitoras talvez murmurando:  “Ah, mas eu adoro me bronzear. Bem queimada fico linda…

Soraia Lozano – Realmente, você fica mais bonita agora, mas, no futuro, a sua pele envelhecerá mais depressa, as rugas e as manchas serão mais precoces. Pense nisso. Proteja sua pele dos raios solares. Evite torrar-se ao sol.

Blog da Saúde — Doutora, para finalizar, alguns leitores — principalmente mulheres —  certamente gostariam de fazer mais esta pergunta à senhora: as câmaras de bronzeamento artificial, proibidas desde o final de 2011,  causam mesmo danos à saúde?

Soraia Lozano — A resposta é sim! Há anos se sabe que os raios emitidos pelas câmaras de bronzeamento artificial podem causar queimaduras, envelhecimento precoce da cútis, com a formação de manchas, linhas de expressão e rugas, e câncer de pele.

Aliás, em julho de 2011, a IARC, Agência Internacional para a Pesquisa sobre o Câncer, órgão vinculado à Organização Mundial de Saúde (OMS) elevou o risco das cabines de bronzeamento artificial: de causa provável para causa concreta de tumores de pele. A IARC concluiu que o uso delas antes dos 35 anos de idade aumenta em 75% o risco de melanoma, o tipo mais perigoso de câncer de pele.

Mesmo assim, muitas clínicas de estética do país anunciavam que suas máquinas lançavam apenas raios ultravioleta A – a radiação UVA – e não causavam danos. Uma propaganda enganosa, pois não existem cabines que emitam apenas UVA. Todas lançam os UVB também. Os UVB, aliás, são os que dão a cor dourada à pele. Fique longe delas

 

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Túlio Franco: “Sou contra a internação compulsória a usuários de crack”

Publicado em: 18 de dezembro de 2012

por Túlio Batista Franco, no blog do Cebes

“Se eu tivesse elevado a minha voz desde o começo em vez de me calar em todas as línguas do mundo…” (Van Gogh)

O título na primeira pessoa é para atribuir o caráter de um texto-manifesto, é meu grito. As cenas de barbárie cometidas contra usuários de crack veiculadas na mídia quase diariamente nos invade com sua prepotência de uma moral hipócrita, associada a uma política equivocada de combate às drogas. É na propositura do resgate de uma humanidade perdida em algum lugar, em uma sociedade que banaliza o sofrimento alheio que pretendo fazer esta discussão.

O consumo do crack tem sido apresentado como um problema social, mas não é o único, convivemos ainda com altos índices de violência, exclusão e abandono. E estas questões estão associadas ao alto consumo de crack, que aparece no cenário das existências humanas como a possibilidade de se obter um rápido momento de prazer proporcionado pelo seu consumo. Frente a uma realidade cruel como a sociedade atual se apresenta, busca-se um instante de não-realidade, a desruptura do meio violento, carente, habitado por afetos negativos.

Geralmente quando alguém se vê diante de um outro que consome o crack não pergunta pra ele e pra si mesmo:

— Q!ual e a sua história de vida?

Histórias de vida são coisa de humanos, e o usuário de crack está sendo despido de sua humanidade, algo parecido com o “homo sacer” mencionado porAgamben no seu livro “Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua” , aquele que só tinha a própria vida, e nada mais se inscrevia sobre ela, aparecendo como uma “vida nua”, desprovida de tudo, inclusive das representações do humano. O usuário de crack está sendo desumanizado pelo julgamento moral, pela intolerância social, pela generalizada criminalização.

Apesar do enunciado de que o crack é um problema de saúde pública, o tratamento da questão ainda tem um forte caráter repressivo, que opera sobre dois planos. O primeiro agenciado pela política de combate às drogas, que resulta em intolerância, repressão, demonstrada pelo aumento da população carcerária relacionada às drogas desde que a nova Lei de Drogas foi aprovada em agosto de 2006. De 2007 a 2010, essa população aumentou 62,5%, um acréscimo que se deu justamente sobre pessoas que eram rés primárias e não tinham envolvimento com o crime organizado . Os usuários sofrem com abordagens repressivas e violentas.

Descriminalizar é o passo fundamental para políticas mais efetivas de combate às drogas, por parâmetros humanitários e de cidadania.Experiências de controle de uso do crack e outras drogas, onde seu uso foi descriminalizado, os usuários perderam o medo de buscar ajuda, aumentando em muito aqueles que ingressavam nos programas de apoio, cuidado e redes de serviços de saúde. O segundo plano de intervenções se faz pelo recolhimento compulsório e a internação por período de tempo determinado, caracterizando assim uma intervenção e tutela sobre as pessoas, realizada de modo violento e ilegal.

A política de combate ao crack no Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro é atualmente uma das cidades de maior visibilidade no mundo, tendo à frente a realização de dois grandes eventos, a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Isto resulta em grandes intervenções urbanas que preparam a cidade para os eventos. Os efeitos desta intervenção na população mais vulnerável socialmente em geral, e especificamente nos usuários de crack, caracteriza uma política violenta, autoritária, militarizada e anti-cidadã.

O recolhimento compulsório usado como dispositivo para impor o tratamento aos usuários tem por base o argumento de que essas pessoas “perderam o governo da sua própria vida”, fazendo com que o estado intervenha sobre elas. Com esse discurso, o governo do Rio de Janeiro legitima junto à população o “arrastão oficial”, que rouba os corpos da sua vida por meio violento, os tira da rua encarcerando-os para um suposto projeto terapêutico que comprovadamente é precário e ineficaz.

A prática de internação compulsória é ilegal porque restringe o direito constitucional de ir e vir, ineficaz socialmente, porque o isolamento reforça a descriminação, e, tecnicamente, pois se sabe que o índice de recaídas para os que passaram por tratamento compulsório é em torno de 96 a 97% , o que faz com que a internação compulsória seja condenada de modo geral, inclusive por programas de combate às drogas de comprovado sucesso, como o de Portugal.

A estratégia usada no Rio de Janeiro parte de uma análise simplista da realidade, visa apenas o curtíssimo prazo, e tem um forte agenciamento moral. A política atual no Rio de Janeiro trata o usuário de drogas como algo que deve ser simplesmente removido da paisagem urbana.

A boa notícia no cenário é a perspectiva de criação da Rede de Atenção Psicossocial proposta pelo Ministério da Saúde, que propõe dispositivos de cuidado à população de rua, usuários de crack e outras drogas. Mas a iniciativa encontra-se em estágio inicial, ainda com dificuldades de responder à extensão e urgência do problema. Associa-se no Rio de Janeiro à não-vontade política de construção de uma rede ampla, com capilaridade social e no território que permita intervenções em larga escala através de dispositivos de cuidado.

É possível cuidar sem reprimir

O cuidado aos usuários de crack deve eliminar qualquer hipótese repressiva e parte da diretriz da descriminalização do uso, reconhecimentodo usuário como cidadão pleno de direitos, merecedor de atenção, respeito, afeto. Vários dispositivos têm sido usados para o cuidado como os consultórios na rua, formados com equipes multiprofissionais e atividade diária junto à população;estratégias de redução de danos com vistas a gerar confiança e criar vínculos entre profissionais da saúde e usuários, tendo em vista projetos terapêuticos mais duradouros e eficazes. Ter uma variada oferta de ações assistenciais e apostar na criação da Rede de Atenção Psicossocial e qualificar o seu funcionamento.

É preciso “parar de perseguir o doente e perseguir a doença”, “trocar prisão por tratamento”, são alguns dos preceitos do programa de Portugal, que já está sendo replicado para Argentina, México, República Checa e mais recentemente a Noruega e é considerado um dos maiores sucessos do mundo . Próximo da nossa cultura, o modelo de Portugal nos serve bem como subsídio. A maior evidência de que o controle do uso de crack e outras drogas pode ser feito sob diretrizes de cidadania, respeito, cuidado, é este programa desenvolvido em Portugal. Abaixo um extrato do relatório “Descriminalização da droga em Portugal: lições para criar políticas justas e bem sucedidas sobre a droga”, elaborado pelo constitucionalista norte-americano Glenn Greenwald e publicado no jornal português Econômico, em 26/07/2010.

“Desde 1 de Julho de 2001, altura em que a aquisição, posse e consumo de qualquer droga estão fora da moldura criminal e passaram a ser violações administrativas, o consumo de droga em Portugal fixou-se ‘entre os mais baixos da Europa, sobretudo quando comparado com estados com regimes de criminalização apertados’. A explicação, segundo Greenwald, reside nas oportunidades de tratamento. ‘As pessoas deixaram de ter medo do sistema judicial e perderam o receio de procurar ajuda. Por outro lado, mesmo as que continuam a consumir são merecedoras da ajuda do Estado’, diz o presidente do IDT. Em 2009, 45 mil pessoas integravam uma das fases de tratamento, incluindo pessoas com problemas de alcoolismo, um número ‘recorde’, segundo João Goulão. E destas 45 mil pessoas, 40% trabalham ou estudam, acrescenta o presidente do IDT”.

Dados de 2006 mostram que a prevalência do consumo de drogas em Portugal desceu de 14,1% para 10,6% face a 2001 nas idades entre os 13 e os 15 anos, e de 27,6% para 21,6% na faixa etária entre os 16 e os 18 anos.

Propostas de cuidado ao crack

Para elaborar um plano de controle ao uso do crack é necessário eliminar qualquer julgamento moral sobre o uso de drogas, considerar como diretrizes gerais a descriminalização do uso, programas de redução de danos, equipes multiprofissionais organizadas em consultórios na rua, estabelecimento de vínculo entre profissionais e usuários, programas de apoio e ajuda para estabelecimento de vínculos sociais, construção de projetos de futuro, sonhos e tudo o que alimenta a existência humana.

Há uma mobilização nacional contra a internação compulsória e medidas repressivas em geral, entre outras, a Frente Nacional de Drogas e Direitos Humanos (FNDDH), tem orientado para várias propostas de cuidado como por exemplo:

• A ampliação e o fortalecimento da rede de atenção psicossocial;

•  O incremento das equipes da Estratégia de Saúde da Família e dos Consultórios na Rua, bem como dos NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família), como estratégia prioritária no trabalho com os usuários de drogas, diretamente nos seus territórios;

•  A ampliação da rede de serviços da assistência social, em cumprimento à Tipificação Nacional dos Serviços Socioassistenciais instituída na Resolução 109 do Conselho Nacional de Assistência Social.

•  Garantia de financiamento de políticas públicas nas áreas de cultura, educação, esporte e lazer com a criação de projetos e programas que tratem a questão de forma transversal em parceria com escolas, universidades, Pontos de Cultura, Segundo Tempo, entre outros.

Este é o ponto de partida para o debate mais amplo em torno da construção de um plano de ação para o combate às drogas.

Niterói, 12 de dezembro de 2012.

Túlio Batista Franco é membro do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes) e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).

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Ex-ministro da Saúde de Lula alerta: Royalties do pré-sal só para a educação destruirá o SUS

Publicado em: 14 de dezembro de 2012

Temporão: “A insuficiência de recursos constrangerá um dos princípios do SUS, que é a integralidade, e ampliará a iniquidade do sistema”. Foto: Agência Brasil

em O Globo, via Cebes

Até o ano 2030, o Brasil terá mais velhos para cuidar e menos jovens para educar. É o que informa o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, diretor-executivo do Instituto Sul-Americano de Governo em Saúde (Isags) e consultor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ao prever a estagnação da saúde e a iniquidade do Sistema Único de Saúde (SUS) como consequências da concentração total dos recursos dos royalties do petróleo da camada do pré-sal na educação.

Temporão defende o retorno da proposta original ainda do governo Lula, que incluía não só saúde, mas, sobretudo, ciência e tecnologia, outra área estratégica para a independência do país nas pesquisas e na criação de laboratórios farmacêuticos.

O senhor concorda com a destinação dos recursos do pré-sal para a educação?

É importantíssima a decisão de vincular os royalties a setores específicos. Afinal, a experiência de muitos anos de aplicação dos royalties sem uma orientação estratégica demonstra que temos que definir prioridades. Mas o mais correto seria analisar quais são as orientações estratégicas mais adequadas. Defendo a ampliação do debate.

A educação não merece ser a área prioritária?

É indiscutível o desafio educacional que enfrenta o Brasil. Sem enfrentá-lo, não iremos muito longe. Mas a educação não é o único desafio. No mínimo, temos outros dois. As políticas de saúde e de ciência, tecnologia e inovação são igualmente importantes e também carentes de recursos estáveis.

Mas baseado em que o senhor defende essa ampliação?

Estamos falando de projeções do país para o futuro. É necessário levar em conta grandes transformações pelas quais o país passará nas próximas décadas. Que modelo de desenvolvimento queremos? Uma visão integrada de desenvolvimento articulando essas três áreas estratégicas pode fazer diferença.

Que outras justificativas o senhor apontaria?

Talvez a mais notável delas seja o aprofundamento da transição demográfica. O aumento da expectativa de vida, a queda da taxa geral de mortalidade, da mortalidade infantil, e a robusta redução da taxa de fertilidade vêm criando um vetor de rápido envelhecimento na população.

Qual a consequência disso?

Segundo a publicação da Fiocruz, “A saúde no Brasil em 2030”, naquele ano teremos mais pessoas acima de 60 anos (40 milhões) do que jovens até 14 anos (36 milhões)!

E o que acontecerá?

Nas próximas décadas, iremos nos transformar em um país maduro, com uma população estabilizada.

Significa muito mais idosos para cuidar e menos jovens para educar?

Sim, as implicações desse processo sobre o sistema educacional são evidentes. Nascerão menos crianças, a pressão para a criação de novas vagas vai diminuir. O grande esforço será a melhoria da qualidade do ensino e universalização das creches e pré-escolas.

Mas por que esse processo impactaria de modo diferente a saúde?

O rápido envelhecimento da população brasileira, a predominância das doenças crônicas (doenças cerebrovasculares e cardiovasculares, câncer, hipertensão, diabetes etc.), a necessidade de cuidados continuados multiprofissionais, o uso de medicamentos caros por longos períodos pressionarão fortemente o sistema de saúde do país, ameaçando sua sustentabilidade econômica e tecnológica.

Com mais idosos e menos jovens, os gastos com saúde aumentarão?

Exponencialmente! Além disso, o processo de envelhecimento é acompanhado pelo aumento de casos das demências senis, Alzheimer e distúrbios neuropsíquicos, cujo tratamento é complexo e muito dispendioso.

Não se trata de alarmismo?

Digo mais: a insuficiência de recursos constrangerá um dos princípios do SUS, que é a integralidade, e ampliará a iniquidade do sistema. O atual subfinanciamento será ainda mais agravado, e é evidente que, em uma perspectiva de médio e longo prazos, a saúde é a área que mais perde ao ser excluída dos benefícios dessa nova fonte de recursos.

E ciência e tecnologia? Por que a área não está sendo priorizada?

Hoje o país gasta cerca de 1,2% do Produto Interno Bruto com ciência, tecnologia e inovação. Entretanto, temos vários desafios. Um deles é o de duplicar o gasto nesse setor se pretendemos alcançar um novo patamar de presença no mundo. Mas, para chegar a esse novo padrão, serão necessários mais investimentos públicos. Mais investimentos, e investimentos mais estáveis.

Mas o Brasil não vem ampliando seus gastos em ciência, tecnologia e inovação?

Verdade! Mas a ferramenta que proporcionou esse avanço, o Fundo Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), está ameaçada de não poder continuar a cumprir o seu papel.

Por quê?

Desde 2000, sua principal fonte de receitas vem dos recursos dos fundos setoriais, em particular o fundo setorial do petróleo, que responde por cerca de 40% do montante transferido ao FNDCT.

“A insuficiência de recursos constrangerá um dos princípios do SUS, que é a integralidade, e ampliará a iniquidade do sistema. A saúde é que mais perde”.

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Mário Scheffer: “Sem o SUS, o ativismo e o esforço dos profissionais, não teríamos sucesso na luta contra a aids”

Publicado em: 9 de dezembro de 2012

Mário Scheffer: “Sem o ativismo, os avanços da ciência não estariam ao alcance de tantas pessoas que vivem com HIV no Brasil”. Foto: Divulgação

por Conceição Lemes

Será lançado nesta segunda-feira 10, em São Paulo, o livro Coquetel: a incrível história dos antirretrovirais e do tratamento da aids no Brasil, de Mário Scheffer. Uma parceria da editora Hucitec com a Sobravime – Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos.

O livro narra a evolução de uma tecnologia inovadora combinada a uma política de saúde pública universal implementada pelo Sistema Único de Saúde – atualmente 250.000 brasileiros recebem o coquetel no SUS.

“Os antirretrovirais passaram de meros paliativos a remédios salvadores, capazes de inibir a replicação do vírus da aids  e recuperar o sistema imunológico das pessoas infectadas”, explica Mário Scheffer. “Sabe-se hoje que, combinados a outras estratégias, podem controlar a epidemia, numa escala crescente de diminuição das infecções pelo HIV e do número de mortes, o que, num cenário otimista, levará a uma geração livre da aids.”

Ativista da luta contra a aids desde 1988, Mário preside o Grupo Pela Vidda-SP (Pela Valorização, Integração e Dignidade do Doente de Aids). É jornalista, especialista em Saúde Pública pela Unicamp, doutor em Ciências e professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

Blog da Saúde — Desde a descoberta do AZT, há 25 anos, até o “coquetel” dos dias de hoje , já foram lançados mais de 30 medicamentos que combatem o HIV — os chamados antirretrovirais. Sem a firme atuação dos ativistas no mundo inteiro, inclusive no Brasil, nós estaríamos vivendo este momento de esperança?

Mário Scheffer — Sem o ativismo, os avanços da ciência não estariam ao alcance de tantas pessoas que vivem com HIV no Brasil.  Mas os progressos no tratamento da aids no país também devem ser creditados aos esforços de técnicos, de profissionais de saúde, à decisão política de financiar o acesso e, é claro, à existência  do Sistema Único de Saúde. Sem o SUS, não teríamos chegado até aqui.

No livro, eu procuro resgatar justamente essa rara combinação de fatores que permitiu, em menos de três décadas, modificar a cara da aids: de sentença de morte a uma doença crônica e tratável. Mas pouco adiantaria ter a tecnologia sem uma política pública de caráter universal.

Blog da Saúde — A quem se destina o seu livro?

Mário Scheffer –– A todos envolvidos na luta contra a aids, mas também àqueles que desejam compreender esse extraordinário encontro entre política pública, mercado, medicina, ciência e mobilização comunitária.

Blog da Saúde — Um debate atualíssimo.

Mário Scheffer — De fato, pois, além do já conhecido benefício terapêutico individual, agora há evidências de que os  antirretrovirais têm um benefício preventivo global. É a convergência do tratamento e da prevenção. Temos agora, como nunca,  instrumentos para controlar a epidemia.

 Blog da Saúde — Então o que deve ser feito para garantir a sustentabilidade da política nacional de tratamento da aids?

Mário Scheffer — O programa brasileiro está paralisado. Há inclusive sinais de retrocessos num momento em deveria assumir metas ousadas. Pela nossa história de enfrentamento da aids, poderíamos dobrar o número de pessoas em tratamento com antirretrovirais, passando dos atuais 250 mil para meio milhão.

Você sabe muito bem que a maioria desses potenciais novos pacientes  nem sabe que tem o HIV. Para isso, precisamos de  uma nova política de oferta de teste para as populações mais vulneráveis, o que fará diminuir o alto índice de diagnósticos tardios.  É preciso rever a política de genéricos de aids no país, que está “empacada”, investindo pesadamente  na produção local e, se necessário, quebrando patentes. Hoje, os nossos genéricos na área de aids custam muito caro e há pouca transparência nessa política.

Mas a sustentabilidade da política nacional de tratamento da aids vai depender também de o Brasil resolver o  subfinanciamento crônico do SUS.

No livro, eu mostro que existem vários aspectos da incorporação dos antirretrovirais no SUS que, se melhor compreendidos e regulados, podem contribuir para a sustentabilidade do tratamento.  Aqui, entram os ensaios clínicos , a elaboração de diretrizes, as regras de registro, o marketing da indústria farmacêutica, o comportamento de médicos, do Poder Judiciário, a capacidade nacional de negociar preços e de produzir medicamentos baratos, de qualidade e acessível a todos que precisam.

Basicamente, temos de encontrar um melhor equilíbrio entre a mercantilização da oferta e a universalidade do acesso . A luta contra a aids no Brasil, emblemática sob vários aspectos, pode contribuir ainda mais para elevar o medicamento, hoje um bem do mercado, à  posição de bem público.

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Mães e pais, atenção: Pasta com flúor, só após os 5 anos de idade

Publicado em: 30 de novembro de 2012

por Conceição Lemes

Que imagens veem à sua cabeça quando o assunto é higiene bucal da criança?  Nós apostamos. Quase certamente uma delas é aquela do menininho ou menininha se esforçando para alcançar a pia do banheiro para escovar os dentes. Acertamos?

“Só que a higiene bucal deve ser feita desde o nascimento”, alerta o cirurgião-dentista Marcelo Fava, diretor do Departamento de Odontologia do Instituto da Criança da Faculdade de Medicina da USP. “Deve ser iniciada antes mesmo de aparecerem os dentinhos.”

Com a ponta da fralda ou gaze umedecida, higienize a boca do bebê após cada mamada ou refeição. É para tirar os resíduos de leite e alimentos que, em contato com as bactérias locais, causam cáries.  Limpe gengiva, língua, céu da boca, parte interna das bochechas e dentes, se houver.

Blog da Saúde — Por que fazer a higiene bucal desde o nascimento se os dentinhos só aparecem aos 6 meses de idade?

Marcelo Fava — É para a mãe já ir se acostumando, a fazer a limpeza. Também para evitar a replicação das bactérias que provocam cáries.

Blog da Saúde — Mas os dentinhos podem nascer com cárie caso a mãe não faça a higiene?

Marcelo Fava –Não. As cáries só podem aparecer depois que os primeiros dentinhos (incisivos inferiores, os dois da frente, parte debaixo) despontarem. A higiene bucal é uma questão de hábito. É uma medida educativa. Ela é essencial à promoção da saúde desde o nascimento.

Blog da Saúde –Com que idade deve-se começar a escovar os dentinhos da criança, usando creme dental? 

 Marcelo Fava – A partir de 1 ano de idade. Antes, a higiene bucal é feita com ponta da fralda ou gaze umedecida após cada mamada ou refeição.

Blog da Saúde —  Tem de ser com escova e pasta especiais?

Marcelo Fava – Escova de cerdas macias, pequena, em tamanho adequado à boca da criança. De 1 a 4 anos de idade, a pasta não deve conter flúor.

Blog da Saúde – Por quê?

 Marcelo Fava — A água de muitas cidades – São Paulo, por exemplo, — já contêm flúor.  Mesmo a água mineral, tem certa quantidade. Assim, se juntarmos o flúor da água com o da pasta de dente, já que a criança acaba engolindo sempre um pouco, ela estará exposta duas fontes.  Em conseqüência, pode ter fluorose, ou seja, mancha nos dentes.  Daí a contraindicação de creme dental com flúor onde a água distribuída à população já é fluoretada.

Blog da Saúde – Há pastas infantis sem flúor?

 Marcelo Fava – Sim, mas poucas. Descobrimos duas nacionais (Welleda e Malvatrikids Baby) e uma importada (First Teeth).

Blog da Saúde – Uma criança de 2, 3 anos já pode escovar os seus próprios dentes?

 Marcelo Fava – Como brincadeira, sim. Na frente do espelho, ela imita os pais, aprende os movimentos.  Mas a escovação de verdade, para higienizar mesmo, deve ser feita pelos próprios pais enquanto ela tiver de  1 a 4 anos de idade. A escovação é indispensável após cada refeição.

Blog da Saúde – Com quantos anos a criança pode usar pasta com flúor?

Marcelo Fava – Acima de 5 anos de idade, quando ela já consegue bochechar e cuspir a pasta.

Blog da Saúde – E com quantos anos a criança já pode escovar os seus próprios dentes?

Marcelo Fava – A partir dos 4. Mas sob supervisão dos pais.

Blog da Saúde – Nas propagandas, normalmente a escova fica cheia de pasta. A quantidade mostrada dos anúncios é a recomendada?

Marcelo Fava – Não. Está errada. A quantidade é equivalente a um grão de ervilha. Isso vale todo tipo de creme dental.

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