HIV passa de mulher para homem, sim, Dourado!

 por Conceição Lemes

Não acompanho o BBB10, tampouco conheço os candidatos .  Mas, felizmente, o Ministério Público Federal em São Paulo está de olho e flagrou o participante Marcelo Dourado, falando um absurdo total sobre como “se pega” aids.  A conversa com outros moradores da casa ocorreu em 2 de fevereiro. No dia 9, editada, foi ao ar para o grande público. A Globo limitou-se a sugerir que o público consultasse o site do Ministério da Saúde para se informar melhor.

Dourado declarou: um homem portador do vírus da aids em algum momento teve relação com outro homem. Disse ainda que hétero não pega aids, que obteve a informação com médicos. E concluiu: Um homem transmite para outro homem, mas uma mulher não passa para o homem.

“A Globo não alertou que a fala do Dourado era completamente equivocada”, lamenta Jefferson Aparecido Dias, Procurador Regional dos Direitos do Cidadão do MPF em São Paulo. “Ao permitir a veiculação dessa informação num programa com tanta audiência, a TV Globo prestou um grande desserviço à prevenção da aids no país.”

Dias questionou a Globo sobre o episódio e a emissora respondeu que o BBB não conta com um roteiro, sendo espontâneas as manifestações de seus participantes e que, “qualquer manifestação preconceituosa ou equivocada (…) não reflete o posicionamento da TV Globo sobre o tema”. Na resposta, a emissora disse ainda que “o esclarecimento feito pelo apresentador do programa foi a providência tomada pela TV Globo, por liberalidade”.

O procurador julgou insuficiente a resposta. Ontem, instaurou uma ação contra a emissora, exigindo que explique no BBB 10 como se contrai o HIV, o vírus causador da aids, segundo critérios definidos pelo Ministério da Saúde.    

“A lesão social causada pela declaração de Dourado no programa é evidente, ante o poder de persuasão e de formação de opinião da TV no Brasil”, justifica Dias. “Num país em que a aids cresce entre mulheres casadas e idosos, a declaração de Dourado, exibida pela Globo, é ainda mais perigosa e é preciso a intervenção do MPF.”

A TRANSMISSÃO DO HIV É BIDIRECIONAL
O procurador Jefferson Aparecido Dias está coberto de razão.

No Brasil, 70% das mulheres portadoras do HIV foram infectadas pelo esposo ou namorado; 26% tiveram um ou dois parceiros em toda a vida.

A cada ano, mais de 35 mil brasileiros recebem o diagnóstico de aids. De 1980 a junho de 2007, foram identificados 474.273; em 1985, havia 15 casos em homens para 1 em mulher. Atualmente, a relação é de 1,5 para 1. Em ambos os sexos, a maior parte se concentra na faixa etária de 25 a 49 anos. Porém, tem-se verificado aumento da doença na população acima dos 50, tanto em homens quanto em mulheres.

A principal forma de transmissão é a sexual, ou seja, sexo sem camisinha. Infelizmente, como Dourado, há brasileiros que ainda acreditam que o HIV não passa de mulher para homem e estão se infectando.

“Está cientificamente comprovado que não é verdade que o HIV não passa de mulher para o homem”, alerta o médico infectologista Marco Antônio de Ávila Vitória, do corpo técnico do Departamento de HIV da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, Suíça. 

Teoricamente a mulher tem um risco maior de infectar-se devido a fatores anatômicos e maior vulnerabilidade social em muitas culturas. Porém, o homem também tem risco importante de se contaminar se tiver relações sexuais sem uso de preservativo com mulher  infectada pelo HIV. O vírus da aids pode passar de homem para mulher e de mulher para homem, desde que um dos parceiros seja portador  do HIV.

Marco Vitória insiste: “A transmissão do HIV é bidirecional”.

Ou seja, sempre que houver contato sexual com troca de fluidos contaminados – leia-se esperma, secreção vaginal e sangue – existe risco tanto para homens quanto para mulheres. Alguns fatores podem aumentar esse risco. Por exemplo, lesões na pele ou na mucosa dos genitais causadas por machucados ou doenças sexualmente transmissíveis.
Mas atenção. Mesmo na ausência de ferimentos genitais, a transmissão do HIV pode ocorrer.

“As DST [doenças sexualmente transmissíveis] são o principal facilitador da transmissão sexual do vírus da aids”, afirma o sociólogo Ivo Brito, coordenador da Unidade de Prevenção do programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde. “Feridas nos órgãos genitais favorecem a entrada do HIV.” Gonorréia, sífilis, herpes, HPV (papilomavírus humano), corrimento vaginal e doença inflamatória pélvica são algumas das DST. A infecção pelo HIV também é uma DST.

“Portanto, se pode pegar o HIV, fazendo sexo vaginal, anal e oral – sem camisinha”, previne Ivo Brito. “Mas não se pega nem se transmite HIV, praticando masturbação a dois.”

“Ah, mas o Dourado disse que foram médicos que lhe disseram que o vírus da aids não passa de mulher para homem…”, talvez alguém retruque.

Se realmente disseram, são desinformados. O fato de ser médico não significa obrigatoriamente que disponha de informação qualificada na área de saúde. Ponham isso na cabeça.

A propósito, a camisinha é uma “vacina” tripla. Protege contra o HIV, demais DST e gravidez indesejada. É o verdadeiro método três em um. Inserida no jogo erótico, é excitante, bom demais.

Homens, não joguem toda a responsabilidade pela segurança das relações sexuais nas costas de suas parceiras.  É responsabilidade de vocês também.

O amor, mulheres,  não protege ninguém do HIV.

Lembrem-se de que ao transar sem camisinha, você faz sexo não só com o (a)parceiro (a) atual. Você “transa” também com os ex de ambos. Use camisinha e proteja vocês dois.