
Atualizado em 04 de junho de 2009 às 11:24 | Publicado em 24 de maio de 2009 às 15:19
por Conceição Lemes
1983. Notificação do primeiro caso de aids em criança no Brasil. Inicialmente, a transmissão é apenas sangüínea: crianças infectadas por transfusão ou produtos derivados de sangue contaminado pelo HIV, o vírus da aids.
1985. É notificado o primeiro caso transmissão vertical, ou materno-infantil, no País. O HIV passa da gestante infectada para o bebê. No final da década de 1980, torna-se a causa mais freqüente de aids em crianças.
“Sabíamos que adultos viviam poucos meses, mas não tínhamos a menor idéia do comportamento da doença em crianças”, relembra a infectologista Marinella Della Negra, médica do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo. “Não sabíamos quanto tempo iam durar nem que problemas teriam. A única coisa a fazer era tratar as infecções oportunistas [aparecem à medida que o HIV destrói as defesas do organismo, e a imunidade cai], já que não existiam ainda os remédios antirretrovirais.”
1996. Brasil incorpora o resultado do memorável estudo ACTG 076, feito em 1994, nos Estados Unidos. Ele comprovou que o uso do AZT pela gestante (antes e durante o parto) e pelo recém-nascido (em xarope, nas primeiras seis semanas de vida) reduzia drasticamente a transmissão vertical. Desde lá, o Ministério da Saúde passou a garantir o acesso aos antirretrovirais, na época o AZT, às gestantes HIV-positivas e aos seus bebês.
“Só isso já produziu grande impacto na transmissão vertical”, observa o médico sanitarista Marcelo Araújo de Freitas, da Unidade de Tratamento e Assistência do Programa Nacional de DST e Aids (PN-DST/Aids, do Ministério da Saúde. “Depois, o esquema triplo [utilização de três antirretrovirais durante a gestação], a cesariana programada e a substituição do aleitamento materno pelo leite em pó reduziram ainda mais a transmissão vertical.”
De 1985 a 2008, foram notificados ao Ministério da Saúde 11.796 casos de aids por transmissão vertical. Em 1996, somaram 893. Em 2007, caíram para 323. E esse número tende a cair cada vez mais com as medidas de prevenção.
“É uma alegria imensa não ver mais tantas crianças infectadas”, comemora Marinella Della Negra. “É fundamental toda gestante fazer o teste de HIV no pré-natal”, frisa Marcelo Freitas. “Quanto mais precoce o tratamento da mãe, maior a probabilidade de o bebê nascer sem a infecção.”
Por isso, transmissão vertical é o tema da terceira reportagem da série Prevenção de HIV/Aids. Como nas anteriores, parte das perguntas foi formulada pelos próprios leitores do Viomundo. Participam desta: o médico sanitarista Marcelo Freitas; e o médico infectologista Marco Antônio de Ávila Vitória, do corpo técnico do Departamento de HIV da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, Suíça.
Viomundo – Qual o risco de uma gestante infectada pelo HIV transmitir o vírus ao seu bebê?
Marcelo Freitas – A transmissão vertical do HIV pode chegar a 25%. Ou seja, de 100 crianças nascidas de mães infectadas, 25 podem se tornar HIV-positivas. Porém, com medidas de prevenção a transmissão pode cair para menos de 1%.
Viomundo -- Em que momentos essa transmissão pode ocorrer?
Marcelo Freitas – O bebê pode infectar-se pelo HIV em três ocasiões: no decorrer da gestação; na hora do parto devido ao contato com o sangue da mãe; e durante a amamentação, por meio do leite materno.
Viomundo – Qual o momento de maior risco de transmissão?
Marcelo Freitas – No parto; 65% dos casos de transmissão vertical acontece nessa hora.
Viomundo – Que tipo de parto se recomenda para prevenir a transmissão do HIV?
Marcelo Freitas -- Os estudos mostram que a transmissão depende, entre outras coisas, de quantidade de vírus no sangue da mãe no momento do parto. Por isso, o Consenso de Profilaxia da Transmissão Vertical do HIV, do Ministério da Saúde, preconiza: quando a carga viral for inferior a 1.000 cópias a partir da 34ª semana de gestação, o parto vaginal pode ser indicado. Acima de 1.000 cópias de HIV, só cesariana. É importante lembrar, porém, que, além da carga viral, fatores obstétricos devem ser considerados na indicação do tipo de parto.
Viomundo – Qual o risco do aleitamento materno?
Marcelo Freitas – O risco de transmissão é de 7% a 22% por cada mamada. Por isso, mães HIV-positivas não devem amamentar os seus bebês. O leite materno deve ser substituído pela fórmula infantil – o leite em pó.
Viomundo – Aqui, algum leitor do Viomundo talvez questione o senhor: o leite em pó é “mais pobre” que o leite materno, custa caro e parte das gestantes HIV-positivas é pobre. E aí, doutor?
Marcelo Freitas – Realmente, o leite materno é superior à fórmula infantil. Por isso, recomenda-se o aleitamento materno exclusivo durante seis meses. Só que isso não se aplica aos bebês de mães soropositivas, pois o leite delas pode transmitir o HIV. Daí a determinação do leite em pó, que não transmite o HIV. Quanto ao custo, existe um fundo do Ministério da Saúde destinado às ações em DST e aids nos estados. A aquisição de fórmula infantil insere-se nele. O objetivo é que estados e municípios possam disponibilizar a fórmula infantil do nascimento aos seis meses de vida às crianças expostas ao HIV. Alguns estados já estendem o fornecimento para um ano.
Viomundo – É comum, principalmente no interior, o bebê ser amamentado por outra mulher, caso a mãe não possa. Isso é recomendável para o recém-nascido de HIV-positiva?
Marcelo Freitas – Não. Como ter certeza de que a outra mulher também não está infectada pelo HIV? É contra-indicada também a pasteurização domiciliar do leite materno. A pasteurização doméstica não destrói o HIV.
Viomundo -- Afinal, o que pode ser feito para prevenir a transmissão materno-infantil?
Marcelo Freitas – Independentemente de escolaridade e nível socioeconômico, toda gestante deve fazer o teste de aids no pré-natal. É gratuito e está disponível em toda a rede do Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, mais de 90% das 12 a 13 milhões de gestantes anuais no Brasil fazem o pré-natal. Porém, na hora do parto, pouco mais de 60% apresentam o cartão de gestante com resultado do exame de HIV. O desafio é atingir as que não estão sendo testadas. Quanto mais cedo o diagnóstico, maior a probabilidade de o bebê nascer saudável. O diagnóstico precoce permite a adoção de medidas de proteção antes, durante e depois do parto.
Viomundo – Quais são as medidas?
Marcelo Freitas – Durante o pré-natal, mesmo que a mãe seja apenas portadora do HIV e não tenha indicação de tratamento para aids, ela terá que receber um esquema antirretroviral triplo. Durante o parto, independente da via, ela deverá receber AZT injetável. O bebê nascendo, terá que receber também AZT em xarope e ser alimentado com leite em pó.
Viomundo – Estima-se que quase 40% das gestantes não são testadas para o HIV no pré-natal. Como mudar essa realidade?
Marcelo Freitas – Tem o teste rápido na maternidade. Mais de mil maternidades estão fazendo. Mas ele não evita a transmissão durante a gravidez, que pode chegar a 35%. Por isso, precisamos melhorar o diagnóstico das gestantes soropositivas durante o pré-natal. É um direito de toda gestante fazer o teste para HIV no pré-natal.
Viomundo – Suponhamos que a mulher seja positiva para HIV, o marido, negativo, e eles desejam ter um filho. Como é possível a gravidez sem que o homem se infecte?
Marco Antonio Vitória – Em toda relação sexual sem camisinha há troca de fluidos e contato de mucosas. Se a pessoa infectada usa o “coquetel” antirretroviral e a quantidade de HIV no sangue está em níveis muito baixos, o risco de transmissão é menor. Porém, não há risco zero. O uso de técnicas de inseminação artificial seria a forma mais segura de gravidez: evitaria o contato direto do indivíduo HIV-negativo com uma fonte HIV-positiva. Importante: caso engravide, a gestante deve adotar as medidas de prevenção recomendadas pelo Ministério da Saúde para evitar o contágio do(s) bebê(s) durante a gravidez, parto ou amamentação.
Viomundo – E para os casais em que o homem é HIV-positivo e a mulher HIV-negativa?
Marco Antonio Vitória – A inseminação artificial deve ser feita juntamente com a lavagem do esperma. Esse processo reduz o risco de transmissão do HIV para a mulher inseminada e, subsequentemente, para o feto.
Viomundo – No Brasil, 70% das mulheres portadoras do HIV foram infectadas pelo esposo ou namorado; 26% tiveram um ou dois parceiros em toda a vida. É preciso fazer o teste de aids a cada nova gestação?
Marcelo Freitas – Com certeza. Assim como a gestante faz novos exames de sangue a cada novo pré-natal, é indispensável repetir o teste de HIV. Afinal, o objetivo é garantir gravidez e bebê saudáveis.
em certos tipos de homens não se deve confiar, eles são safados não querem saber, basta ver uma barra de saia que o enterece para cair dentro,e não procuram nem saber da procedencia da pessoa , e nem se importam em usar preservativo querem é saber do momento praseroso. por tanto é importante sim fazer o exame, porque não você ja esta fazendo tantos , um a mais um a menos não vai fazer a diferenca não.