Fátima Oliveira: Sem o SUS, o Brasil retrocederá ao tempo dos indigentes

FatimaOliveira

Fátima Oliveira, em O TEMPO
[email protected] @oliveirafatima_

Não é catastrofismo, mas, na toada em que vamos, ou o povo se levanta em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), ou o Brasil retrocederá ao tempo dos indigentes. O processo está em curso. As ameaças são reais.

Para Marcelo Pellegrini, o “maior sistema público de saúde do planeta, o SUS, é uma obra em demolição”. E relembra que a Agenda Brasil, proposta do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), previa “a possibilidade de cobrança diferenciada de procedimentos do SUS por faixa de renda” (“Projetos em tramitação no Congresso ameaçam a sobrevivência do sistema único”, 15.8.2015). Dilma não caiu na vigarice, mas parou por aí.

O jornalista João Paulo Cunha avalia: “Na recente reforma ministerial, a Saúde entrou como moeda de troca. Saiu um ministro identificado com o SUS e com os valores da reforma sanitária, e entrou um político profissional do mais fisiológico dos partidos, o PMDB. Pode-se argumentar que, como política de Estado, o SUS esteja preservado em sua esfera de atuação. Sabemos que não será assim” (“O SUS é maior que o governo”, 13.10.2015). No Congresso Nacional, tramitam várias propostas que visam minar o SUS, sem esquecer que a presidente sancionou a MP 656, de dezembro de 2014, que permite o capital estrangeiro na saúde!

Dá para imaginar viver num Brasil sem SUS? Sabe o que é morrer à míngua, como um cão sem dono? É um cenário de terror, “como dizia o meu avô, nos moldes do vale o que possui: ‘Quem tem um barraco, um cavalo, um jegue ou um cabrito, quando adoece, vale um barraco, um cavalo, um jegue ou um cabrito!’”. Antes do SUS, eram nossos bichos quem nos salvava na doença, então eu não troco um dia de SUS de hoje, por pior que ele seja, por um da era pré-SUS.

“Na era pré-SUS no Brasil, quem não possuía barraco ou bicho pra vender pra ‘se tratar’ era tipificado como indigente, foco da caridade das antigas Santas Casas, ou morria à míngua. O SUS acabou com a figura do indigente da saúde, mudando radicalmente 500 anos de história do Brasil, quando o doente valia o que possuía” (“O maior mérito do SUS é a extinção do indigente da saúde”, O TEMPO, 24.11.2009).

O SUS, além de ser o maior sistema público de saúde do mundo, é a maior conquista democrática do povo brasileiro! Repito: “O SUS é uma conquista que precisa ser concretizada cotidianamente. Temos problemas de gerenciamento, de incompreensão política dos governos e até de usuários que usam o pronto-socorro até para espirro.

“Outro problema: às 17h, todo lugar que faz consulta na rede pública neste país está fechado! Sou defensora intransigente do terceiro turno no setor de saúde, tanto em postos como em ambulatórios. Se eles funcionassem à noite, as pessoas não precisariam faltar ao trabalho para fazer uma consulta. Ampliaria o número de consultas e geraria mais empregos”.

E mais, a mídia sataniza o SUS. “O falar mal do SUS é muito patente. A mídia está sempre do lado do contra quando tem uma votação que prevê mais dinheiro para o SUS. Ela não quer que o SUS tenha mais dinheiro. Foi assim com a CPMF, ou com qualquer projeto, e teve também um papel decisivo na ampliação dos planos de saúde no Brasil, dourando a pílula. Os planos de saúde venderam uma coisa que não tinham. Venderam tanto que agora deu ‘crap’” (entrevista à “Gazeta do Povo”, 18.12.2011).

Como disse uma mulher numa UPA em São Luís abarrotada de gente, com apenas duas cadeiras reclináveis na sala de medicação: “Se eu visse Dilma, diria: mulher, torne o SUS aquilo que a gente precisa na hora da doença e da morte, que eu quero ver quem vai mexer contigo!”.