2

Fátima Oliveira: O que faremos com nossas crianças com microcefalia?

Publicado em: 1 de dezembro de 2015

Claudio Maierovitch

Até 28 de novembro foram notificados 1.248 casos de microcefalia no país, identificados em 311 municípios de 13 Estados e Distrito Federal, segundo Claudio Maierovitch, do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis

O que faremos com nossas crianças com microcefalia?

Fátima Oliveira, em O TEMPO

[email protected] @oliveirafatima_

A minha experiência como médica em relação à doença neurológica microcefalia é nula. Quando estudei medicina na Universidade Federal do Maranhão, (1973 a 1978) não vi nenhum caso. A microcefalia é doença neurológica rara, incurável, que incide em um em cada 40 mil recém-nascidos, e o comprometimento vai de brando a severo, dependendo de como e quanto o cérebro foi lesado – o que é visto por tomografia!

O “tamanho” normal da cabeça de recém-nascido a termo é o Perímetro Cefálico (PC) entre 34 cm e 37 cm. A microcefalia é uma cabeça pequena com cérebro reduzido em bebê nascido a termo (“de tempo”), com PC igual ou menor que 33 cm – quanto menor o PC, mais lesões!

A microcefalia resulta de “insuficiência no desenvolvimento do crânio e do encéfalo”, gerando dois tipos de doença: microcefalia primária (anomalia genética) e a secundária – decorrente de várias causas: defeito no desenvolvimento embrionário causado por infecções maternas durante a gravidez (rubéola, toxoplasmose); exposição a radiações ionizantes nos primeiros meses de gestação; e “por uma fusão prematura dos ossos do crânio (craniossinostose), de causa desconhecida, relacionada com outros defeitos congênitos ou doenças ósseas como o raquitismo”.

Vi a primeira criança com microcefalia no pronto-socorro do Hospital das Clínicas da UFMG, onde trabalhei de 1996 a junho de 2014. Depois de ver várias crianças com microcefalia, a gente vai “endurecendo o couro”: não fica mais impactada, apenas compartilha o calvário da mãe que entrega sua vida aos cuidados específicos e especiais que a criança exige, depois de perder emprego e marido – que, em geral, não aguenta o tranco e some! O maior tributo da microcefalia é pago pelas mães.

Estou assustada, incomodada e preocupada com os números de bebês com microcefalia divulgados pelo Ministério da Saúde (MS), a maioria nascida em lugares onde o habitual é morrer à míngua, pois tenho quase certeza de que não receberão atenção digna, tanto médica quanto social, a não ser que o governo federal assuma a total responsabilidade deles, pois as famílias não darão conta, e as prefeituras lavarão as mãos!

Casos de microcefalia notificados no Brasil em 2010: 153; em 2011: 139; em 2012: 175; em 2013: 167; em 2014: 147; e, em 2015, até 21 de novembro, 739 casos “suspeitos” em 160 municípios de oito Estados do Nordeste e um do Centro-Oeste (Goiás)! Ocorreu um óbito no Rio Grande do Norte. Pernambuco tem o maior número: 487 casos, conforme notificou ao MS, em 27 de outubro, a infectologista pediátrica Maria Angela Rocha, do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, de Recife.

O Maranhão não aparece nas duas notas do MS (17 e 24 de novembro). Em 16.11, o secretário de Estado da Saúde, o médico sanitarista Marcos Pacheco, descartou um surto da doença, porém, dez dias depois, comunicou notificação de dez casos (27.11.2015).

O MS acionou o Grupo Estratégico Interministerial de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional e Internacional e está investigando os casos. Suspeita-se que a causa seja o zika vírus, transmitido pelo Aedes aegypti, que também causa dengue e chikungunya. A confirmar.

Há uma epidemia de zika em curso no Brasil desde o início de 2015, que havia atingido só a Polinésia Francesa e a Micronésia (Oceania). No dia 26 passado, a Polinésia Francesa declarou que, após a epidemia, ocorreram “casos de malformação cerebral e lesões cerebrais em fetos; e cinco crianças tiveram outros problemas, como dificuldade de engolir”.

O Brasil deve assumir integralmente as crianças com microcefalia e suas mães.

 

2

Gerson Salvador e Pedro Carneiro: Brasil nunca investiu no SUS o suficiente para garantir plenamente o acesso à saúde

Publicado em: 29 de novembro de 2015

susSUS: “Brasil nunca investiu para viabilizar plenamente o acesso à saúde”. Entrevista especial com Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro

“O Brasil, até o ano passado, era a sétima economia do mundo e o 72º em investimento em saúde. Não há gestão eficiente que seja capaz de entregar serviços de excelência sem o financiamento adequado”, afirmam os médicos.

por Patricia Fachin, no  IHU On-Line

“O setor privado conta com quase 60% do que é gasto anualmente em saúde para dar conta da assistência de cerca de 25% da população, enquanto o pouco mais de 40% de recursos restantes devem dar conta da assistência dos demais 3/4 em situações ordinárias, além de atender os que têm planos de saúde em tratamentos que os planos se isentam de cobrir”, dizem Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Segundo os médicos, o estímulo do Estado brasileiro ao setor privado de saúde ocorre desde meados da década de 1960, via incentivos fiscais. “Até hoje incentiva, através de desconto no imposto de renda de despesas com saúde e isenção de impostos de serviços classificados como filantrópicos, entre eles os muitos dos principais hospitais particulares do país. Parte deste incentivo se deu com objetivo de utilizar os serviços de uma rede já instalada, mas sua intensificação tem a ver com o financiamento de campanhas para os legislativos e executivos”, afirmam.

Na avaliação dos médicos, atualmente várias propostas políticas tentam desmantelar o Sistema Único de Saúde, como a Proposta de Emenda Constitucional – PEC 451, de autoria do deputado Eduardo Cunha, que “inclui, como garantia fundamental, plano de assistência à saúde, oferecido pelo empregador em decorrência de vínculo empregatício, na utilização dos serviços de assistência médica” e a PEC 358/13, conhecida como PEC do ‘Impositivo’, “que garante aos parlamentares disporem de 15% do orçamento da saúde, a ser destinado a partir de emendas (…). São diversas evidências de que existem iniciativas institucionais de favorecimento do setor privado ao custo do desmantelamento do SUS”, pontuam.

Segundo eles, “há um campo político, em torno da liderança de Eduardo Cunha, com uma agenda que pode ter sérios efeitos no SUS, por exemplo, pela limitação do atendimento de mulheres vítimas de estupro, que inclui a possibilidade de aborto legal. A proposta de Cunha é que se exija o boletim de ocorrência e exame de corpo de delito, retrocedendo numa garantia que data da década de 1940”.

Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro reforçam que atualmente o “sistema público possível para o Brasil é o SUS, não há possibilidade de uma inflexão, de um novo sistema que garanta que seus avanços que tivemos sejam preservados. É necessário haver maiores recursos e parâmetros de gestão que orientem o funcionamento dos serviços. Apesar de suas dificuldades, por sua orientação humanista, é o SUS (funcionando nos termos do que está garantido na nossa Constituição) que pode garantir que o Brasil ofereça saúde com dignidade para todos”.

Gerson Salvador de Oliveira é graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – USP, especialista em Infectologia pela mesma universidade. Médico assistente da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo e infectologista do Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Pedro Carneiro é graduado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto pela Universidade de São Paulo e mestrado em Saúde na Comunidade pela Universidade de São Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Evidencia no Brasil um movimento em que o Estado está privilegiando planos de saúde em detrimento do SUS? Se sim, desde quando isso vem acontecendo e por quais razões?

Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro – Desde meados da década de 1960 o Estado brasileiro estimula o setor privado em saúde, via incentivos fiscais. Até hoje incentiva, através de desconto no imposto de renda de despesas com saúde e isenção de impostos de serviços classificados como filantrópicos, entre eles os muitos dos principais hospitais particulares do país. Parte deste incentivo se deu com objetivo de utilizar os serviços de uma rede já instalada, mas sua intensificação tem a ver com o financiamento de campanhas para os legislativos e executivos. O poder de lobby das empresas de saúde tem se intensificado e a representação no parlamento de defensores do Sistema Único de Saúde tem diminuído.

IHU On-Line – Identifica uma tentativa de desmantelar o SUS? Quais são as evidências de que isso está acontecendo?

Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro – Garantir atenção integral à saúde de toda nossa população custaria muito, e o Brasil nunca investiu num patamar que pudesse viabilizar plenamente esse direito.

Em tempos de crise há algumas iniciativas claras de desmantelamento do que existe, como por exemplo, por parte do Governo Federal:

*PEC 86, que estabelece que os percentuais mínimos para investimento em saúde devem ser calculados não mais sobre a receita bruta do Estado, mas sobre a receita corrente líquida;

* Lei de Diretrizes Orçamentárias em que os recursos previstos para custear a saúde pública não chegam ao mês de outubro de 2016;

*“Agenda Brasil”, proposta pelo Senador Renan Calheiros que em seu texto original orientava “avaliar possibilidade de cobrança diferenciada de procedimentos do SUS por faixa de renda”;

*  A proposta do deputado Eduardo Cunha: PEC 451 que “inclui como garantia fundamental, plano de assistência à saúde, oferecido pelo empregador em decorrência de vínculo empregatício, na utilização dos serviços de assistência médica”;

* PEC “do Impositivo” que garante aos parlamentares disporem de 15% do orçamento da saúde, a ser destinado a partir de emendas;

*Aprovação pela Câmara dos Deputados de Medida Provisória, que visava anistiar dívidas bilionárias de multas das empresas de medicina de grupo, vetada pela presidente Dilma.

São diversas evidências de que existem iniciativas institucionais de favorecimento do setor privado ao custo do desmantelamento do SUS.

IHU On-Line – Que avaliação faz dos SUS ao longo desses 25 anos? Quais foram os avanços e quais ainda são as principais dificuldades do Sistema Único de Saúde brasileiro?

Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro – A saúde a ser garantida como direito de todos e dever do Estado em nossa Constituição, através de um sistema único, provavelmente é a maior conquista cidadã da história de nossa República.

Houve grandes avanços: o Plano Nacional de Imunizações; a oferta de atenção primária à saúde, principalmente através da estratégia saúde da família; o programa nacional de HIV/AIDS; os serviços de transplantes e captação de órgãos; a atenção pré-hospitalar a partir do SAMU; entre outros.

Os principais obstáculos: financiamento insuficiente, serviços com qualidade muito heterogênea, dificuldade de acesso à atenção especializada na maioria dos municípios, leitos de internação insuficientes, emergências lotadas, recursos humanos com formação muito heterogênea e com vínculos dos mais variados devido à “salada” que existe na gestão da saúde pública: há servidores federais, estaduais e municipais admitidos por concursos, outros contratados por autarquias, outros através de terceirizações, organizações quer seja para formação quer seja para a carreira dos profissionais de saúde.

IHU On-Line – A que atribui as dificuldades do SUS, como a oferta insuficiente de serviços e os déficits de leitos de internação, por exemplo? O problema é orçamentário, de gestão ou outras razões? Quando se trata de funcionamento do SUS, que pontos fundamentais devem ser considerados?

Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro – Em resumo há problema de gestão, há problema de recursos humanos, mas o financiamento é muito insuficiente. O Brasil, até o ano passado, era a sétima economia do mundo e o 72º em investimento em saúde. Não há gestão eficiente que seja capaz de entregar serviços de excelência sem o financiamento adequado.

IHU On-Line – Quais são as principais contradições que percebe entre o financiamento do Estado ao setor privado e ao setor do SUS?

Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro – O setor privado conta com quase 60% do que é gasto anualmente em saúde para dar conta da assistência de cerca de 25% da população, enquanto o pouco mais de 40% de recursos restantes deve dar conta da assistência dos demais 3/4 em situações ordinárias, além de atender os que têm planos de saúde em tratamentos que os planos se isentam de cobrir: atenção pré-hospitalar, emergências, tratamentos para câncer, transplantes, medicamentos para HIV e hepatites virais por exemplo, além de ações de vigilância e imunizações para toda a população.

Ao SUS cabe, como diz o professor Ricardo Teixeira, fazer muito mais com muito menos. Além do orçamento insuficiente, a União continua oferecendo descontos no imposto de renda para serviços privados e isentando de impostos grandes serviços privados classificados como filantrópicos.

IHU On-Line – Que comparações faz entre o SUS e o sistema de saúde público de outros países da América Latina?

Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro – O Brasil é o único país da América Latina que oferece sistema universal de atenção à saúde não só a seus cidadãos, mas também a estrangeiros. Mas o financiamento per capita é menor do que a média de países da América Latina.

IHU On-Line – De que modo, além da questão do financiamento, a crise política pode impactar no SUS?

Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro – Há um campo político, em torno da liderança de Eduardo Cunha, com uma agenda que pode ter sérios efeitos no SUS, por exemplo, pela limitação do atendimento de mulheres vítimas de estupro, que inclui a possibilidade de aborto legal.

A proposta de Cunha é que se exija o boletim de ocorrência e exame de corpo de delito, retrocedendo numa garantia que data da década de 1940. Há disposição de tentar proibir a pílula do dia seguinte também. O estatuto da família, a redução da maioridade penal, a iniciativa de cancelar o estatuto do desarmamento, caso essas propostas sejam aprovadas, caberá ao SUS atender às pessoas afetadas.

IHU On-Line – O que seria um sistema de saúde público possível para o Brasil neste atual momento?

Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro – O sistema público possível para o Brasil agora é o SUS, não há possibilidade de uma inflexão, de um novo sistema que garanta que os avanços que tivemos sejam preservados. É necessário haver maiores recursos e parâmetros de gestão que orientem o funcionamento dos serviços. Apesar de suas dificuldades, por sua orientação humanista, é o SUS (funcionando nos termos do que está garantido na nossa Constituição) que pode garantir que o Brasil ofereça saúde com dignidade para todos.

Leia também:

Fátima Oliveira: Sem o SUS o Brasil retrocederá ao tempo dos indigentes 

1

Ligia Bahia alerta: O “modelo coitadinho” do SUS o tornaria apenas programa de inclusão social e não uma política universal

Publicado em: 24 de novembro de 2015

fiocruz 1Eduardo Fagnani, José Maurício Domingues e Ligia Bahia debatem as políticas sociais (Foto: Peter Iliciev/CCS/Fiocruz)

Futuros do Brasil: políticas sociais contra o discurso da ‘ingovernabilidade’ e da ‘crise terminal’

Novembro 09, 2015 – 21:48

por Eliane Bardanachvili/CEE-Fiocruz

A construção do discurso de uma “crise terminal” e da ingovernabilidade no país, para justificar medidas que afetam diretamente a área social, e uma mudança na configuração da esquerda e da direita foram pontos levantados nas contundentes análises dos professores Lígia Bahia, da UFRJ, e Eduardo Fagnani, da Unicamp e da Plataforma Política Social, no segundo debate online da série Futuros do Brasil, do CEE-Fiocruz, em 5/11/2015.

Sob o tema As políticas sociais em uma encruzilhada, os professores falaram para os internautas conectados, que puderam fazer perguntas em tempo real, e para uma plateia de convidados, entre eles, Lucia Souto, da diretoria executiva do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes), o professor e sanitarista José Noronha, e os jornalistas Miguel do Rosário,  do blog O Cafezinho, e Luana Bonone, secretária regional adjunta da SBPC no Rio de Janeiro, representando o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

Ligia Bahia abriu o debate apresentando o que chamou de “modelos interpretativos da atual conjuntura”, no que diz respeito às políticas sociais e, em especial, à política de saúde.

O primeiro modelo seria o do poder heroico, segundo o qual “somos Davi contra Golias, acertamos na política, o SUS é bom, deu certo, conseguimos convencer os constituintes de como seria importante uma política social de saúde no país”, conforme definiu.

Esse modelo, acrescentou Ligia, tem uma “versão otimista”, de exaltação do sistema como um dos maiores do mundo, e uma “versão pessimista”, segundo a qual a onda neoliberal impediu que se avançasse e se superasse a desigualdade econômica e uma onda conservadora. Outro modelo descrito por ela é o que chamou de modelo coitadinho, que tomaria o SUS como programa de inclusão social, não como política universal.  Para ela, o Sistema Único de Saúde (SUS) é um consenso, mas um consenso vazio.

Existe o ‘modelo coitadinho’ que toma o SUS

como programa social, não como política universal (Ligia Bahia)

Ligia lembrou que o sistema resultou de uma aliança de centro-esquerda, durante o processo constituinte, na década de 1980.  “Será que não houve um deslocamento da esquerda para o centro?”, indagou. “Somos militantes aguerridos, que se apresentam nas conferências e outros fóruns, como defensores do SUS, mas do SUS para pobres”, considerou.

Ela observou que hoje petistas estão à frente de grandes grupos econômicos. “Dois dos três empresários das maiores empresas de planos de saúde brasileiras, são petistas declarados, contribuintes de campanha para Dilma Rousseff. Não é o mesmo cenário que tivemos, com empresários claramente de direita, que se aliaram ao Centrão”, comparou, acrescentando que mesmo entre os que a princípio pertencem a um mesmo grupo, hoje, têm pensamentos antagônicos. “Nem a esquerda é a mesma, nem existe mais aquela direita que nós derrotamos no processo de debates e aprovação da Constituição”.

Nem a esquerda é a mesma, nem existe mais aquela direita que nós

derrotamos no processo de debates e aprovação da Constituição (Ligia Bahia)

A privatização da saúde também foi alvo da análise de Ligia, que alertou para o papel que a medicina privada vem exercendo no contexto da Saúde, citando, em especial a concepção do Livro Branco – Brasil Saúde 2015: A Sustentabilidade do Sistema de Saúde Brasileiro, publicação produzida pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) e entregue em 2014 aos pré-candidatos à Presidência da República. “A medicina privada paulista contrata uma consultoria, escreve um livro e diz que está falando em nome do bem comum. E isso acaba sendo absorvido pelas duas candidaturas!”.  Ela criticou ainda o protagonismo do médico Drauzio Varella no cenário da Saúde. “O problema é que ele é o ministro da Saúde, fala sobre a saúde pública, câncer, é a autoridade sanitária do Brasil”.

Apresentando em slides dados relacionados à formação profissional, Ligia, descreveu um cenário no qual as novas escolas médicas, entre elas a da Universidade Estácio de Sá, “vão alavancar grandes grupos econômicos”. Ela apontou também para a “filantropização das organizações sociais (OSs), que querem abrir hospitais privados para atendimento exclusivamente por meio de planos de saúde e para o fato de a concessão concessão de bolsas ao programa Mais Médicos se dar pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH). “E isso está acontecendo debaixo do nosso nariz”.

Ligia conclamou os que consideram que o SUS é uma política universal, não uma política para pobres, a “retomar o fio da meada” e se organizar. “Temos que ser realistas, interrogar sobre quais são as alianças que vamos fazer hoje. Com empresário petista, não petista, com todos os eleitores, ou alianças pontuais”. Para ela, as eleições municipais de 2016 representam momento importante.

“É importante que nos organizemos e nos apresentemos para esse debate eleitoral. Os programas eleitorais têm sido formulados sem nossa presença. Uma certa falta de vontade de interferir. Temos que conversar com a Rede, com o partido do Ciro Gomes, com o PMDB, com o PT, com o PSOL, e nos tornar de novo interlocutores nesse debate sobre saúde”.

As novas escolas médicas, entre elas a da  Universidade

Estácio de Sá, “vão alavancar grandes grupos econômicos (Ligia Bahia)

Para o professor Eduardo Fagnani, está em curso uma tentativa de se “implantar um projeto super ultra liberal no país”.

Ele fez um resgate histórico das conquistas obtidas com a Constituição de 1988 e as contramarchas que dificultaram sua plena concretização. Ele citou versos de Cazuza, na música O tempo não para: “Eu vejo o futuro repetir o passado eu vejo um museu de grandes novidades”.

Fagnani avaliou que a cidadania social conquistada em 1988 é “um ponto fora da curva do capitalismo brasileiro”. Para ele, se 90% das propostas da Constituinte integram a Constituição, esta acabou mostrando-se um obstáculo à agenda neoliberal que se configurava. “Até 88, não havia espaço para as teses liberais no Brasil, porque estávamos fazendo uma acerto de contas com a ditatura. Mas depois isso muda. A força social dos anos 80 se esgotou”.

O professor lembrou, ainda, que estava prevista uma revisão constitucional em 1993, que não se realizou devido ao impeachment do presidente Fernando Collor, e que se orientava pela privatização.

“Passamos a ter, de 1993 a 2002, a conta-gotas, as reformas [privatizantes] que não foram feitas de chofre, na educação superior, na saúde, com a criação das organizações sociais, em 1997, a DRU [desvinculação de receitas da União, de 1994, que, na prática, permite que o governo aplique os recursos destinados a áreas como educação, saúde e previdência social em qualquer despesa considerada prioritária]”, enumerou.

Ele alertou para a repetição hoje, “como um mantra” da “tese da ingovernabilidade”, da década 1980. Nesse sentido, lembrou uma frase dita na época pelo então presidente José Sarney – “Se vocês aprovarem essa Constituição, o país será ingovernável” – e uma declaração do senador constituinte Roberto Campos, de que a Carta de 88 “era ao mesmo tempo um hino à preguiça e um estímulo à ociosidade, um anacronismo moderno”.

Para Fagnani, o país vive, hoje, “o segundo retorno da Agenda Perdida”, referindo-se ao documento produzido em 2002 por 17 economistas liberais, como Marcos Lisboa, Ricardo Paes de Barros e Samuel Pessoa.

“Quando o Palocci [Antonio Palocci, ministro da Fazenda do governo Lula, até 2006], entrou, trouxe esses economistas para dentro do governo”, observou Fagnani, para quem essa política está sendo retomada, “com os mesmos personagens”, hoje. “As elites brasileiras nunca aceitaram que o movimento social capturou, em 1988, 10% do PIB do orçamento federal para a questão social. Esse é o ponto. Temos contramarchas o tempo todo, nos anos 90, 2003, 2004, 2005, 2006. E agora isso volta com tudo”, analisou.

As elites brasileiras nunca aceitaram que o movimento social capturou, em 1988,

 10% do PIB do orçamento federal para a questão social (Eduardo Fagnani)

Para Fagnani, construiu-se um discurso segundo o qual o Brasil está em uma crise terminal, que os dados não comprovam.

“O dado apresentado é de um déficit primário, referente a despesas não financeiras, de saúde, educação, de 0,6%, quando teríamos que ter superávit de 1%. Mas, a partir da crise de 2008, nenhum país faz superávit. A Índia tem déficit primário de 2%; a média dos países desenvolvidos europeus é de menos 5%.; no Japão, o déficit primário foi de menos 8%, menos 10%, menos 6%. Pedi a uma aluna minha para ligar para o Japão, para ver se o país ainda está lá. Se o Brasil está terminal com 0,6%, o Japão só pode ter acabado”, ironizou, observando que essa narrativa passou a ser dominante, sem que o governo travasse qualquer embate. “Não sei por que, o governo aceita esse diagnóstico”.

O professor criticou a proposta de fazer a inflação chegar ao centro da meta a qualquer custo, aumentando o índice de desemprego, como único caminho a se tomar. “Aumentando o desemprego, as pessoas deixam de ter renda e, assim, deixam de comprar e cai a demanda agregada. Os economias liberais escreveram isso! Artigos publicados em 2013 dizem que é impossível levar a inflação ao centro da meta com uma taxa de desemprego tão baixa”.

Fagnani explicou que a saída para a crise é não fazer recessão e que a taxa de desemprego já pulou de 4% para 8%, e vai chegar no começo do ano que vem a dois dígitos. “É evidente que em 2017 a inflação vai estar no centro da meta, mas a que custo?”

O neoliberalismo é muito mais esperto do que já foi,

porque utiliza o aparelho do Estado intensamente (José Maurício Domingues)

Mediador do debate, o sociólogo José Maurício Domingues, do Iesp/Uerj, pesquisador associado do CEE-Fiocruz, apontou que o neoliberalismo que orienta o país hoje é “muito mais esperto do que já foi, porque utiliza o aparelho do Estado intensamente e, ao mesmo tempo, está muito atento à questão do pauperismo”. Trata-se, segundo ele, de um social neoliberalismo. “As coisas ocorreram de forma dramática, e não há um discurso que se oponha a isso”. (Por Eliane Bardanachvili/CEE-Fiocruz)

Vale a pena assistir ao debate, na íntegra.

 

14

Fátima Oliveira: Vivemos em uma época em que médicos não gostam de gente e enfermeiros que não gostam de cuidar

Publicado em: 1 de novembro de 2015

médico

Cuidados” como balizadores da atenção em saúde

por Fátima Oliveira, em O TEMPO

[email protected] @oliveirafatima_

Compartilho trechos do capítulo “Política médica”, que escrevi no livro “Médico – Profissional Diferente” (Folium Editorial, 2012), organizado pelo professor emérito da UFMG Alcino Lázaro da Silva, cirurgião, um ser humano de muitos dons, sobretudo o de gostar de cuidar de gente!

“No mundo contemporâneo há um entendimento generalizado de que as profissões não podem se furtar aos contratos sociais e éticos do tempo em que são exercidas. Aqui temos um ponto crucial da revalorização do profissional médico, pois, a meu ver, a medicina jamais perdeu prestígio, ao contrário, acumula cada dia mais e mais prestígio perante a sociedade, já que as pessoas confiam e têm esperança na ciência médica. No entanto, avalio que o médico teve perda de prestígio social e de poder também, ressaltando que poder e prestígio não são palavras sinônimas, logo, são de natureza incomparáveis.

“Destaco que circula em meio à categoria médica uma saudade de um tempo idílico em que o médico gozava de um prestígio social quase divino. Evidentemente, é impossível um retorno a tal estado de ser, por vários motivos.

Em primeiro lugar, porque isso ocorreu no Brasil até há mais de três décadas, em um tempo em que os médicos eram em número reduzido; considerando-se o tamanho continental do Brasil, então, constituíam uma raridade. Registro que só em 5 de novembro de 1808, por decreto de d. João VI, foi criada a Escola Anatômico-Cirúrgica e Médica, em Salvador, na Bahia; e em 1832, foi instalada a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

“Em segundo, porque os procedimentos diagnósticos, digo: exames complementares, além de poucos, eram quase rudimentares, logo o desempenho médico era baseado muito mais no tino clínico e na experiência cotidiana, sem que houvesse meios que fizessem face a tal estado de coisas. Outro elemento importante quando se analisa esse tempo idílico é o poder descomunal de médicos como ‘deuses da medicina’, pois estavam envoltos numa aura de senhores da vida e da morte diante de pessoas e famílias fragilizadas em meio às doenças.

“Hoje o contexto é outro, não apenas pelos avanços exponenciais da medicina, como também pelo perfil da clientela – massivamente de serviços públicos de saúde, mais esclarecida, em particular, mais consciente dos seus direitos; e a crescente judicialização das demandas por tratamentos da medicina de alta tecnologia, ou mesmo acesso a UTIs, fatos que, forçosamente, alteram o espectro do contrato social e ético que deve ser firmado entre as partes, ou seja, médicos versus clientela e, por tabela, com a sociedade de modo geral e o governo.

“Uma política de atenção integral à saúde pressupõe que ‘cuidados’, enquanto cuidar bem das pessoas, balizam toda a ação. Evidentemente, falo do ideal, daquilo a que as pessoas têm direito. Sabemos que na vida real não é bem assim.

“E nos preocupamos que não seja assim, sobretudo porque, para que cuidados sejam balizadores das ações em saúde, precisamos, minimamente, que duas categorias profissionais da área de saúde repensem seus parâmetros culturais, cujos valores se perderam, paulatinamente, no tempo. Eu sou partidária da hipótese de que vivemos em uma época que sedimenta uma cultura em que formamos profissionais da medicina que não gostam de gente e de profissionais da enfermagem que não gostam de cuidar.

“Se isso é verdade, o estabelecimento de uma política nacional de cuidados em saúde necessita atacar tais males em suas raízes. Urge um processo de revolucionarização do aparelho formador da área de saúde”.

 

0

As políticas sociais em uma encruzilhada: Participe deste debate na Fiocruz na próxima quinta

Publicado em: 30 de outubro de 2015

1 - image

Percurso das políticas sociais no país é tema do segundo debate online da série Futuros do Brasil, promovido pelo CEE-Fiocruz

do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz

O Brasil corre o risco de viver um longo ciclo conservador e liberal, capaz de colocar por terra a cidadania social conquistada com a Constituição de 1988? As demandas sociais da democracia não cabem no orçamento? A sociedade brasileira apoia as forças que defendem um projeto de nação mais justa e democrática? O quanto caminhamos e onde chegamos, no que diz respeito a conquistas sociais para os brasileiros? Quanto falta ainda caminhar?

Essas indagações vão nortear o segundo debate online da série Futuros do Brasil, realizada pelo Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz) e que aborda a conjuntura brasileira em suas diversas dimensões.

O tema da segunda edição, As políticas sociais em uma encruzilhada, será debatido pelos professores Ligia Bahia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Eduardo Fagnani, da Unicamp e da Plataforma Política Social, dia 5/11, das 14h às 16h. Qualquer pessoa pode acompanhar via internet em tempo real e enviar perguntas aos palestrantes.

“O título do debate é provocativo e, de certo modo, embute uma metáfora espacial:  caminhamos, saímos de algum lugar, e estamos diante de alternativas de rota, à esquerda ou à direita”, analisa Ligia Bahia. “Esse ponto de partida, adequado e abrangente, deve ser problematizado, quando se trata do exame de políticas de saúde. Saímos de um sistema restritivo, iníquo e segmentado, e onde chegamos? Saímos de uma coalizão de interesses hegemonizada pelos empresários setoriais, e onde chegamos? Quais são as tendências de curto, médio e longo prazos?”, pontua Ligia, ressaltando que são indagações que não admitem respostas unívocas. “Vamos ao debate!”, convoca.

A essas questões, Fagnani acrescenta outras. “O campo progressista tem forças para resistir ao processo em curso de construção de um projeto ultraliberal no Brasil? A gestão macroeconômica ortodoxa cumpre o roteiro traçado pelas forças do mercado e setores hegemônicos da imprensa, para criminalizar a esquerda e pavimentar o caminho para a vitória nas eleições de 2016 e 2018?”, destaca. Fagnani indaga, ainda, se Estado brasileiro que emerge a partir de 1988 não é “um ponto fora da curva” do capitalismo.“Quais seriam as estratégias defensivas a serem adotadas? Temos espaço para ir além e construir um novo projeto de transformação nacional? Como avançar nesta perspectiva?”, busca saber.

Coordenado pelo sociólogo José Maurício Domingues, o evento volta-se prioritariamente a uma audiência virtual. Acessando o link fiocruz.tvq.com.br, qualquer pessoa poderá acompanhar e enviar perguntas em tempo real.  Os debates da série Futuros do Brasil ocorrerão periodicamente, sempre via internet, e deverão dar origem a cadernos que buscarão sintetizar essas seções, a serem veiculados também em meio eletrônico.

1

Flávia Oliveira: Sistema de saúde falha no atendimento a mães do silêncio

Publicado em: 28 de outubro de 2015

12072647_436838499859456_3405564056205175022_nMães do silêncio

Sistema de saúde falha no atendimento a mulheres que sofrem aborto espontâneo ou óbito fetal. Rio tem mais de 20 mil casos por ano

por Flávia Oliveira, em O Globo

Foi da tragédia pessoal à luta coletiva a trajetória da advogada Maíra Fernandes. Três meses atrás, enfrentou a perda do primeiro filho — no parto. A equipe médica, num hospital particular carioca, tentou por 40 minutos ressuscitar o pequeno Antônio, três quilos. Não conseguiu. A mãe mergulhou no breu que é se preparar para a vida e se deparar com a morte. Pensou estar só. Não estava. Somente em 2014, o Estado do Rio registrou 20.242 casos de perda gestacional, a soma de abortos espontâneos e óbitos fetais. É quase um décimo do total de bebês nascidos vivos no mesmo ano em maternidades fluminenses.

Tão numeroso quanto invisível, por pouco comentado, o drama das famílias que perdem seus bebês (antes ou ao nascer) ganha contorno criminoso no tratamento que, muitas vezes, recebem de hospitais (públicos e privados), médicos, enfermeiros. Há relatos de mulheres que saíram da sala de parto para enfermarias compartilhadas com mães e recém-nascidos. Algumas são chamadas festivamente de mamãe, horas depois de descobrirem que não mais serão. Outras recebem de presente bolsas com fraldas, roupinhas, itens de higiene, o chamado kit maternidade.

Há mulheres que têm negado o direito de olhar e segurar nos braços os filhos sem vida. Sedadas, têm amputada a vivência do luto, essencial à recuperação. Ficam sem apoio psicológico, afetivo, religioso. Não tomam conhecimento da necropsia de seus bebês. E terminam entristecidas, solitárias, povoadas de (infundado) sentimento de culpa, devastadas.

Foram esses relatos que Maíra Fernandes encontrou ao buscar ajuda para superar o luto pela curta e definitiva passagem de Antônio por sua vida. Encontrou apoio no grupo Do Luto à Luta, comunidade no Facebook que reúne quase 5.500 pessoas pelo tratamento humanizado para quem sofre perda gestacional. Leu os depoimentos da página Mães de Anjos, com mais de 54 mil fãs. Assistiu ao trailer do documentário “O segundo sol”, a ser lançado por Rafaella Biasi e Fabricio Gimenes, pais de Miguel, nascido em silêncio.

“Achei que era a única pessoa no mundo a passar por essa dor. E me impressionei com a quantidade de mulheres que viveram a mesma tragédia. E muitas sem o atendimento que recebi. Elas enfrentam o luto oculto, vivem esse momento na mais absoluta solidão”, conta.

Tantas histórias tristes levaram Maíra, ex-presidente do Conselho Penitenciário do Rio de Janeiro, de volta a território já desbravado, o da militância sociopolítica. Procurou o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) e pediu a realização de uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio. A reunião aconteceu na última quinta-feira, 15 de outubro, Dia Nacional de Sensibilização para a Perda Gestacional. O tema é tão pouco debatido que até a data é desconhecida.

Do encontro, participaram deputados, mães de natimortos, representantes das secretarias estadual e municipal de Saúde, de ONGs, maternidades públicas, hospitais privados, feministas. Um compromisso é aprovar projeto de lei para ampliar a licença maternidade das mães e concedê-la aos pais de natimortos. Um grupo de trabalho foi criado para implementar no Estado do Rio o protocolo da Organização Mundial de Saúde (OMS).

As mães do silêncio têm direito de ver, tocar, se despedir dos filhos, pelo tempo que desejarem; receber apoio psicológico e religioso; guardar lembranças dos bebês, como pulseirinhas de identificação e mechas de cabelos; nomeá-los; ficar internada longe de mulheres que tiveram filhos saudáveis; saber o resultado da necropsia. E, a partir daí, seguir em frente.

7

Fátima Oliveira: Sem o SUS, o Brasil retrocederá ao tempo dos indigentes

Publicado em: 21 de outubro de 2015

FatimaOliveira

Fátima Oliveira, em O TEMPO
[email protected] @oliveirafatima_

Não é catastrofismo, mas, na toada em que vamos, ou o povo se levanta em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), ou o Brasil retrocederá ao tempo dos indigentes. O processo está em curso. As ameaças são reais.

Para Marcelo Pellegrini, o “maior sistema público de saúde do planeta, o SUS, é uma obra em demolição”. E relembra que a Agenda Brasil, proposta do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), previa “a possibilidade de cobrança diferenciada de procedimentos do SUS por faixa de renda” (“Projetos em tramitação no Congresso ameaçam a sobrevivência do sistema único”, 15.8.2015). Dilma não caiu na vigarice, mas parou por aí.

O jornalista João Paulo Cunha avalia: “Na recente reforma ministerial, a Saúde entrou como moeda de troca. Saiu um ministro identificado com o SUS e com os valores da reforma sanitária, e entrou um político profissional do mais fisiológico dos partidos, o PMDB. Pode-se argumentar que, como política de Estado, o SUS esteja preservado em sua esfera de atuação. Sabemos que não será assim” (“O SUS é maior que o governo”, 13.10.2015). No Congresso Nacional, tramitam várias propostas que visam minar o SUS, sem esquecer que a presidente sancionou a MP 656, de dezembro de 2014, que permite o capital estrangeiro na saúde!

Dá para imaginar viver num Brasil sem SUS? Sabe o que é morrer à míngua, como um cão sem dono? É um cenário de terror, “como dizia o meu avô, nos moldes do vale o que possui: ‘Quem tem um barraco, um cavalo, um jegue ou um cabrito, quando adoece, vale um barraco, um cavalo, um jegue ou um cabrito!’”. Antes do SUS, eram nossos bichos quem nos salvava na doença, então eu não troco um dia de SUS de hoje, por pior que ele seja, por um da era pré-SUS.

“Na era pré-SUS no Brasil, quem não possuía barraco ou bicho pra vender pra ‘se tratar’ era tipificado como indigente, foco da caridade das antigas Santas Casas, ou morria à míngua. O SUS acabou com a figura do indigente da saúde, mudando radicalmente 500 anos de história do Brasil, quando o doente valia o que possuía” (“O maior mérito do SUS é a extinção do indigente da saúde”, O TEMPO, 24.11.2009).

O SUS, além de ser o maior sistema público de saúde do mundo, é a maior conquista democrática do povo brasileiro! Repito: “O SUS é uma conquista que precisa ser concretizada cotidianamente. Temos problemas de gerenciamento, de incompreensão política dos governos e até de usuários que usam o pronto-socorro até para espirro.

“Outro problema: às 17h, todo lugar que faz consulta na rede pública neste país está fechado! Sou defensora intransigente do terceiro turno no setor de saúde, tanto em postos como em ambulatórios. Se eles funcionassem à noite, as pessoas não precisariam faltar ao trabalho para fazer uma consulta. Ampliaria o número de consultas e geraria mais empregos”.

E mais, a mídia sataniza o SUS. “O falar mal do SUS é muito patente. A mídia está sempre do lado do contra quando tem uma votação que prevê mais dinheiro para o SUS. Ela não quer que o SUS tenha mais dinheiro. Foi assim com a CPMF, ou com qualquer projeto, e teve também um papel decisivo na ampliação dos planos de saúde no Brasil, dourando a pílula. Os planos de saúde venderam uma coisa que não tinham. Venderam tanto que agora deu ‘crap’” (entrevista à “Gazeta do Povo”, 18.12.2011).

Como disse uma mulher numa UPA em São Luís abarrotada de gente, com apenas duas cadeiras reclináveis na sala de medicação: “Se eu visse Dilma, diria: mulher, torne o SUS aquilo que a gente precisa na hora da doença e da morte, que eu quero ver quem vai mexer contigo!”.

2

Você sabe o que é narguilé? O Ministério da Saúde alerta: Seu uso faz mal à saúde, sim!

Publicado em: 4 de setembro de 2015
Apresentação de dados da Pesquisa Nacional de Saúde sobre o uso do narguilé, malefícios do consumo e perfil de uso dos brasileiros (Valter Campanato/Agência Brasil)

Apresentação de dados da Pesquisa Nacional de Saúde sobre o uso do narguilé, malefícios do consumo e perfil de uso dos brasileiros (Valter Campanato/Agência Brasil)

por Conceição Lemes

Você já deve ter visto gente usando o narguilé em bares ou restaurantes. Um mesmo cachimbo pode ser compartilhado por várias pessoas. A fumaça passa por um filtro de água antes de ser inalada pelo fumante. Justamente por essa característica o seu consumo é visto como inofensivo ou, no mínimo, menos prejudicial à saúde do que cigarro.

Mas não é. Uma sessão de narguilé, que dura em média 20 a 80 minutos, corresponde à fumaça de aproximadamente 100 cigarros.

“A ideia de que a água filtra a fumaça produzida é equivocada. A água não ameniza os efeitos do tabaco. O narguilé possui os mesmos componentes nocivos do cigarro, seja da nicotina ou cancerígenos”, alerta o doutor Luiz Felipe Ribeiro Neto, coordenador de ensino do Instituto Nacional do Câncer (Inca), do Ministério da Saúde. “É importante entender que no narguilé ou no cigarro, os níveis dos compostos não são seguros de nenhuma forma”.

Originário do Oriente Médio, o narguilé foi introduzido no Brasil  há poucos anos. Nos últimos nove, o seu consumo aumentou no País, principalmente entre os jovens, que são os mais seduzidos pela falsa impressão de que o produto não faz mal à saúde.

Mais de 212 mil brasileiros admitem usar o cachimbo, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde.  De acordo com dados dessa pesquisa e de outra especial de tabagismo, o número de usuários mais que dobrou nos últimos cinco anos entre os jovens homens fumantes (entre 18 e 24 anos). Passou de 2,3% em 2008 para 5,5% em 2013.

Dos 212 mil que admitem usar o narguilé,  (53%) fumam esporadicamente, 27,5 mil (13%) fazem uso uma vez por mês, 57,2 mil (27%) semanalmente e 14,8 mil (7%) afirmam realizar o consumo diariamente.

O Ministério da Saúde faz mais estes alertas:

* O consumo de narguilé pode contribuir para o surgimento de doenças respiratórias, coronarianas e tipos de câncer como de pulmão, boca, bexiga e leucemia. Pode, ainda, gerar dependência devido às altas doses de nicotina.

*Estudos também apontam que 45 minutos de sessão acarreta a elevação das concentrações plasmáticas de nicotina, de monóxido de carbono expirado e dos batimentos cardíacos.

*O compartilhamento do bucal do cachimbo tem levado aparecimento de  doenças infectocontagiosas entre os usuários.

Daí a campanha sobre o uso de narguilé que acaba de ser lançada pelo Ministério da Saúde. “O uso do tabaco continua sendo responsável por 90% dos casos de câncer no país”, reforça o ministro da Saúde, Arthur Chioro.

Leia também:

Ladrões’ podem estar ‘roubando’ os seus ossos, previne o professor Gilberto Vieira. Aprenda a combatê-los

 

1

Fátima Oliveira: Transplante de medula óssea para anemia falciforme é incluído no SUS; trata e até cura em 80%

Publicado em: 30 de agosto de 2015
Predominante em negros, a anemia falciforme pode ser detectada no teste do pezinho

Predominante em negros, a anemia falciforme pode ser detectada no teste do pezinho

O transplante de medula óssea para anemia falciforme

Fátima Oliveira, em OTEMPO

[email protected] @oliveirafatima_

Sob emoção indescritível li que o Brasil incluiu no Sistema Único de Saúde o Transplante de Medula Óssea (TMO) do tipo Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas Alogênico (TCTHA), que trata e até cura em 80% a anemia falciforme.

A decisão de grande impacto na saúde pública consta na Portaria 30 (“Diário Oficial da União” de 1º.7.2015), que define o uso em anemia falciforme do transplante de células-tronco hematopoéticas entre parentes a partir da medula óssea, de sangue periférico ou de sangue de cordão umbilical.

É uma vitória duramente conquistada: o TCTHA deixa o caráter experimental e vira tratamento disponível no SUS! A estimativa é que haja no Brasil entre 25 mil e 50 mil falcêmicos, que apresentam altas taxas de morbidade e mortalidade precoce.

A anemia falciforme é um exemplo clássico da seleção natural de Darwin/Wallace: pessoas com anemia falciforme não contraem malária, pois o Plasmodium não se desenvolve em células em forma de foice! Surgiu na África, em zonas endêmicas de malária, e chegou às Américas via tráfico de escravos.

A doença resulta de uma mutação na molécula de hemoglobina, que adquiriu a forma de meia-lua ou foice, por meio de uma alteração na estrutura da hemoglobina: substituição do aminoácido (unidade das proteínas) ácido glutâmico pela valina, que confere à hemoglobina S, quando desoxigenada, a capacidade de se agregar, formando fibras de hemoglobina S, que deformam a hemácia, dando-lhe aspecto de foice.

A anemia falciforme é uma descoberta da “velha genética”, ou genética clássica. Foi a primeira doença molecular humana a ser descoberta (pelo médico James Herrick, em 1910, em Chicago, no sangue de um estudante de medicina negro nascido nas Antilhas). No Brasil, distribui-se heterogeneamente, sendo mais frequente onde a proporção de antepassados negros da população é maior (Nordeste). Depois de mais de um século, brasileiros poderão acessar o único tratamento de cura!

O TCTHA está indicado, conforme os critérios da portaria, “para pacientes com doença falciforme em uso de hidroxiureia que apresentem, pelo menos, uma das seguintes condições: alteração neurológica devido a acidente vascular encefálico, alteração neurológica que persista por mais de 24 horas ou alteração de exame de imagem; doença cerebrovascular associada à doença falciforme; mais de duas crises vasoclusivas (inclusive síndrome torácica aguda) graves no último ano; mais de um episódio de priapismo (ereção involuntária e dolorosa); presença de mais de dois anticorpos em pacientes sob hipertransfusão; ou osteonecrose em mais de uma articulação”.

O transplante de medula óssea é procedimento de alta complexidade e exige estrutura hospitalar e equipe multidisciplinar de alta qualificação, bem como a expansão dos centros de transplantes, que em 2003 eram apenas quatro e hoje são 27, insuficientes para atender a nova demanda.

Há pedras no caminho, e o Ministério da Saúde está ciente e tomando as medidas cabíveis, conforme a Portaria 2.758, que prevê medidas como a triplicação dos leitos existentes, passando de 88 para 250, até 2016, “investindo R$ 240 mil para abertura de cada novo leito ou ampliação dos já existentes”.

Não temos de esperar pra ver. Precisamos lutar muito para que o sonho vire realidade como um dos pontos da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (2009), que está à deriva e só sairá do papel com muita luta ideológica e política pela sua concretização.

Leia também:

Hepatite C: Nova terapia chega ao SUS até outubro. “Sucesso é superior a 90%”, comemora Evaldo Stanislau 

8

Hepatite C: Nova terapia chega ao SUS até outubro. “Sucesso é superior a 90%”, comemora Evaldo Stanislau

Publicado em: 22 de agosto de 2015

Estanislau

por Conceição Lemes

Como repórter especializada em saúde, acompanho a epidemia de aids, desde 1980, quando o diagnóstico de infecção pelo HIV era sentença de morte.

De lá até dezembro de 2013, ela ceifou a vida no Brasil de 278.306 homens e mulheres, de crianças a idosos, anônimos e famosos, pobres e ricos.

A partir de 1996, com o advento dos “coquetéis antirretrovirais” e sua incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), vi, felizmente, essa história mudar pouco a pouco e a aids se tornar o que é hoje:  uma doença crônica, tratável, como diabetes e hipertensão.

Em 30 de junho deste ano, todos nós testemunhamos algo impensável há 35 anos: a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou:  Cuba havia se tornado, oficialmente, naquele dia, o primeiro país do mundo livre da transmissão de mãe para filho do HIV e da sífilis.

Pois bem, preparem-se, outra virada importantíssima está a caminho. A OMS pretende eliminar a hepatite C como problema de saúde pública até 2030.

O vírus da hepatite C (HCV) foi  isolado em 1989. Até então a sua hepatite era  chamada de  Não A-Não B.  Em 1990, surgiu o teste para a detectá-lo no sangue. Em 1993, o teste passou a ser obrigatório em todos os doadores de sangue.

Atualmente, o HCV causa no Brasil cerca de 3 mil óbitos por ano – no mundo, entre 350 mil e 700 mil.  Estima-se no País 1,4 milhão de infectados.

“A primeira tarefa para atingir a meta da OMS é diagnosticar mais. Menos de 10% dos infectados sabem da sua condição sorológica. São apenas a  ponta do iceberg”, alerta o médico infectologista e pesquisador Evaldo Stanislau Affonso de Araújo, do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. “A segunda tarefa é tornar a nova terapia, comprovadamente muito mais eficaz, mais acessível aos pacientes.”

O primeiro passo foi dado com a introdução no SUS dos testes rápidos para diagnóstico da hepatite C. Em 2011, foram distribuídos 15 mil. Em 2014, 1,4 milhão.

O segundo passo foi anunciado no final de julho pelo ministro da Saúde, Arthur Chioro: o SUS disponibilizará três novas drogas para tratar a hepatite C. São daclatasvir, simeprevir e sofosbuvir. Além de muito mais eficaz do que o até recentemente disponível, o novo tratamento tem menor duração, aumentando a possibilidade de o paciente segui-lo à risca, o que eleva a chance de cura.

Durante a ntrevista coletiva, o ministro previu que elas estariam disponíveis no SUS em dezembro. Mas isso deve acontecer antes, até o outubro. O daclatasvir já está no almoxarifado do Ministério da Saúde.  O simeprevir e sofosbuvir devem chegar na segunda quinzena de setembro.

“As taxas de sucesso serão superiores a 90%, em média”, comemora desde já Evaldo Stanislau, que integra os comitês Técnico-Assessor  em Hepatites do Ministério da Saúde e  Científico e Estratégico para Hepatites Virais da OMS.

Foi pela comparação entre o novo tratamento e o antigo que começamos a nossa entrevista. 

Blog da Saúde – A taxa de cura com o tratamento existente até pouco tempo atrás é baixa. Qual é e por quê?

Evaldo StanislauA terapia antiga é baseada no interferon.  A combinação dele com ribavirina (antiviral) tem eficácia de 30%. Além disso, o tratamento com interferon tem limitações devido à sua complexidade e aos efeitos colaterais. A baixa efetividade não resulta apenas dessas variáveis, mas também da interação com características genéticas do pacientes.

Já o tratamento com boceprevir e telaprevir tem uma eficácia ao redor de 60%. Esses medicamentos são a primeira geração de antivirais que atuam diretamente numa das proteínas do vírus HCV, mas foram abandonados devido à complexidade de utilização e inúmeros efeitos colaterais.

Blog da Saúde – Interação genética?! Explique melhor.

Evaldo Stanislau — Os brasileiros são  fadados a responder mal ao interferon devido a características genéticas próprias ao latinos e diretamente ligadas ao mecanismo de ação do interferon.  Por isso, o seu uso associado à ribavirina não é altamente efetivo.

Outros complicadores do tratamento com interferon: é injetável, exige internação e apoio de especialista para a sua aplicação e tem várias contraindicações. Ele não pode ser usado, por exemplo, em pacientes com coinfecção pelo HIV, cirrose descompensada, pré e pós-transplante. Também é contraindicado a pacientes com má resposta à terapia com interferon, ou que não se curaram com tratamento boceprevir e telaprevir.

Consequentemente, pacientes gravíssimos, que precisavam muito da terapia, não podiam ser tratados. A cura espontânea é fenômeno raro. Ocorre em menos de 15% dos expostos.

Blog da Saúde – O novo  tratamento prevê o uso de daclatasvir, simeprevir e sofosbuvir. Qual a diferença entre a terapia com essas novas drogas e a antiga?

Evaldo Stanislau — A nova terapia objetiva o não uso do interferon, que é injetável e bastante limitado, como você já percebeu.

O daclatasvir, simeprevir e sofosbuvir atuam diretamente no vírus da hepatite C, bloqueando diferentes etapas da sua replicação. Eles são mais eficazes, seguros e permitem terapias de menor duração — 12 a 24 semanas versus 24-48/72 semanas, no caso do interferon.

Blog da Saúde – Como eles vão ser usados?

Evaldo Stanislau  — Associados. O sofosbuvir inibe a polimerase viral e deve estar presente como droga base. Ele será usado em combinação com daclatasvir ou simeprevir.

Portanto, usaremos: sofosbuvir + daclatasvir; ou, sofosbivir+ simeprevir. Em situações excepcionais, sofosbuvir será usado apenas com ribavirina (um remédio já em uso e barato).  A ribavirina poderá ser associada também ao daclatasvir/simeprevir + sofosbuvir.

Blog da Saúde  –  E a eficácia?

Evaldo Stanislau — As taxas de sucesso serão superiores a 90%, em média. Além disso, poderão ser usados em quem já foi tratado antes e, praticamente, não têm contraindicações. Serão dois comprimidos uma vez ao dia

Blog da Saúde – Como se transmite o vírus da hepatite C?

Evaldo Stanislau – Contato com sangue contaminado, por meio direto — transfusões no passado — ou indireto — objetos com resíduos de sangue. A transmissão sexual e a vertical (mãe para filho) são infrequentes. Podem, porém, excepcionalmente ocorrer, em especial em homens que fazem sexo com homens. No ambiente e em procedimentos terapêuticos, diagnósticos e mesmo estéticos, apenas se houver quebra de protocolos básicos de biossegurança.

Blog da Saúde – Segundo as estimativas, há no Brasil 1,4 milhão de infectados. Quando e como essas pessoas se infectaram?

Evaldo Stanislau – Majoritariamente nas décadas de 1980/1990, quando não se tinha isolado o vírus, logo não se fazia testagem dos doadores de sangue.

As pessoas se contaminaram de várias formas: drogas injetáveis, transfusões, hemodiálise, sexo sem camisinha, tatuagens, compartilhamento de objetos de uso pessoal (alicate de manicure e aparelho de barbear, por exemplo) e para utilização de drogas (seringas não descartáveis).

Blog da Saúde — Das várias formas de transmissão, quantos por cento foram por via sexual transfusão, alicate de manicure, seringas não descartáveis, etc? Na década de 1990, dizia-se que o vírus C não se transmitia por relações sexuais…

Evaldo Stanislau – A transmissão sexual ainda é um tema muito debatido por pesquisadores de todo o mundo. Ela é absolutamente irrelevante, exceto em homens que fazem sexo com homens onde temos observado microepidemias associadas a determinadas práticas sexuais, como fisting [inserção da mão ou antebraço no ânus].

Podemos grosseiramente dividir: 30% por transfusão — ocorreram antes de 1993, quando o sangue passou a ser testado; 30% por uso de drogas injetáveis ou remédios injetáveis, como o glucoenergan; e 40% por causas inaparentes — manicure, seringas não descartáveis, etc.

O contato com sangue é o meio de transmissão pelo qual as pessoas com mais de 40-45 anos de idade foram mais expostas ao longo da vida (ainda que de forma inaparente).

Sem diagnóstico até 1993, a hepatite C é uma doença silenciosa, com poucos sintomas, e importante causa de cirrose, câncer e transplante de fígado. A doença é responsável por  31% a 50% dos transplantes de fígado em adultos.

Blog da Saúde – Considerando-se que 90% dos infectados não sabem da sua condição sorológica, quem deveria fazer o teste da hepatite C?

Evaldo Stanislau — Pessoas que fizeram cirurgia ou receberam transfusão de sangue antes de 1993. É o primeiro passo para a cura. E todos com mais de 40 anos de idade.

Blog da Saúde – Considerando-se que, devido à testagem do sangue, atualmente menos gente se infecta e a eficácia do novo tratamento é superior a 90%, é possível dizer que estamos a caminho da eliminação da eliminação?

Evaldo Stanislau – Sim!!! É a meta. A OMS pretende eliminar a hepatite C como problema de saúde pública até 2030.

Mas, para tanto, a primeira tarefa é diagnosticar mais. Insisto. Menos de  10% dos infectados sabem da sua condição sorológica. São apenas ponta do iceberg. A segunda tarefa é tornar a nova terapia, comprovadamente muito mais eficaz, mais acessível aos pacientes. Isso nós teremos para todos os pacientes do SUS com indicação terapêutica ainda neste semestre.

Página 5 de 17« Primeira...34567...10...Última »