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Brasileiras com câncer de mama terão mais chance de cura com remédio disponível no SUS a partir de janeiro

Publicado em: 10 de agosto de 2012

Remédio que aumenta chance de cura estará disponível no SUS a partir de janeiro

Dr. Munir Murad: “O trastuzumabe reduz em aproximadamente 50% a possibilidade de recaída da doença”

por Conceição Lemes

O câncer de mama é o segundo mais freqüente no mundo e o primeiro entre as mulheres. Este ano devem ocorrer mais de 1,15 milhão de casos novos e 400 mil óbitos.  No Brasil, são esperados 53 mil casos novos e 12 mil mortes em 2012.Indubitavelmente, uma questão importante de saúde pública.

A boa notícia: a partir de janeiro de 2013, o trastuzumabe — um dos remédios mais importantes para tratamento da doença inicial e avançada –, estará disponível a todas as pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS).

Até agora, só tinham acesso as mulheres tratadas em clínicas privadas ou de convênios (parte dos planos de saúde cobre a medicação) e as que o conseguiam via judicial.

A medida foi aprovada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), do Ministério da Saúde. Os oncologistas comemoram a decisão.

“Nos casos diagnosticados em estágios iniciais, o trastuzumabe aumenta significativamente a chance de cura, reduzindo o risco de recaída”, afirma o oncologista Munir Murad Júnior, coordenador do Programa de Residência Médica em Cancerologia Clínica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Já entre as pacientes com doença avançada, metastática, sem possibilidade de cura, o trastuzumabe melhora a qualidade de vida e, principalmente, aumenta o tempo de  sobrevida. Em um estudo clássico, mulheres que não receberam a medicação tiveram sobrevida média de 20 meses em contraste com os 26 meses das mulheres tratatas com o medicamento em questão.”

DROGA PARALISA ATIVIDADE DAS CÉLULAS NEOPLÁSICAS

Em geral, as mulheres com câncer de mama têm 60% de possibilidade de estarem vivas cinco anos após o diagnóstico. Isso, é claro, depende muito da fase em que é detectado.

Nos tumores iniciais, quando a cirurgia é totalmente factível, essa chance é superior a 90%. Mas é possível aumentá-la, indo para 93%, 95% com alguma terapia adjuvante, que colabore com o tratamento principal. Pode ser quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia ou qualquer outra terapêutica feita para aumentar a probabilidade de cura. É nesse contexto que entra o trastuzumabe.

“O tratamento primário do câncer de mama é o cirúrgico”, explica Murad. “O trastuzumabe é adjuvante. É usado junto com a quimioterapia.”

Detalhe: o trastuzumabe não é um quimioterápico padrão. É o que os médicos chamam de medicação de terapia alvo.

Explico. Hoje em dia, graças a técnicas moleculares, é possível descobrir as moléculas das células que sofreram mutações. Algumas estão mais frequentemente alteradas nas células do câncer do que nas sadias. Usa-se, então, uma medicação que vai atuar nessas moléculas modificadas.

O trastuzumabe atua numa molécula chamada HER2. O HER 2 é um receptor que fica na membrana das células com câncer e estimula a sua replicação. Esse receptor está com expressão aumentada em aproximadamente 20% das pacientes com câncer e lhes confere pior resposta ao tratamento com quimioterapia clássica. O trastuzumabe inova por interagir com o HER 2, travando a sua atividade. Resultado: o medicamento paralisa a divisão das células neoplásicas.

“O tempo de uso vai depender da doença em cada paciente”, afirma Murad. “Mas frequentemente nos estágios iniciais, após a cirurgia, o trastuzumabe é usado junto com quimioterapia geralmente durante seis meses; depois, sozinho por mais seis meses para completar um total de 52 semanas . Reduz-se, assim, em aproximadamente 50% a possibilidade de recaída da doença.”

O próprio Murad faz questão de alertar sobre três pontos.

Primeiro, o trastuzumabe é tóxico para o coração. Então, é preciso ter boa função cardíaca para recebê-lo.

Segundo, algumas drogas usadas em quimioterapia não combinam bem com ele, devido aos efeitos colaterais. Por isso, tem de se evitar certas combinações.

Terceiro, não é uma panacéia, que resolveu totalmente o problema do câncer de mama.

“Mas ajudou, sim. É uma droga que há 10 anos mudou a história do câncer de mama, especialmente para pacientes incuráveis”, frisa Murad. “Do ponto de vista científico, hoje não é mais uma novidade. A novidade é estar disponível para toda a população que precisar.”

MAMOGRAFIA PERIÓDICA AUMENTA CHANCES DE CURA

— E a prevenção, como fica agora com o trastuzumabe? – muitos devem estar se perguntando.

Atenção. Uma coisa não tem a ver com a outra. O fato de se ter hoje uma droga potente que melhorou a possibilidade de cura de alguns casos e de maior sobrevida para outros, não quer dizer que se deva ficar tranquila e deixar para lá os exames de triagem.

Estamos falando da mamografia (radiografia de mama), que possibilita o diagnóstico precoce da doença. Ela ajuda a identificar tumores de mama numa fase em que a mulher ainda não percebeu que existe algo errado. Resultado alterado não significa ter câncer. É necessário biópsia do nódulo para saber exatamente o que é. No local, injeta-se uma agulha, que retira um pedacinho de tecido mamário. Na maioria das vezes, não é câncer, mas tumor benigno.

Há apenas certa divergência na literatura em relação à idade em que deve ser feita e a periodicidade.

O Instituto Nacional do Câncer, o Inca, do Ministério da Saúde, recomenda a cada dois anos para mulheres entre 50 e 69 anos, ou segundo recomendação médica.

Já o Centro de Promoção da Saúde do Hospital das Clínicas de São Paulo recomenda a toda mulher acima de 40 anos a cada um ou dois anos. Já para as mulheres com história familiar de câncer de mama, a orientação é caso a caso.

“Mas o que indubitavelmente está definido é que para mulheres acima de 50 anos uma mamografia anual aumenta as chances de cura, diminuindo o risco de você morrer de câncer de mama”, recomenda o oncologista Munir Murad. “Faça a mamografia periodicamente. Converse com o seu médico a respeito.”

PS do Blog da Saúde:  Consultei o Ministério da Saúde para saber por que não disponibilizar o trastuzumabe imediatamente, como já havia dito nos comentários.  Segue a resposta da sua assessoria de imprensa:

De acordo com a o decreto 7.646, que dispõe sobre o processo administrativo para incorporação de tecnologias no SUS, foi estabelecido um período de 180 dias para que o sistema efetive a oferta à população. Esse tempo é o prazo limite, usado para organizar e preparar as unidades de saúde pública de todo o país, capacitar os profissionais, criar protocolo clínico de uso e efetuar a compra e distribuição do medicamento. Inclusive, a expectativa do ministro da saúde, Alexandre Padilha, é de que o medicamento trastuzumabe esteja disponível no SUS antes mesmo do prazo legal.

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Por que as mulheres brasileiras estão indo às ruas pelo direito ao bom parto

Publicado em: 9 de agosto de 2012

Marcha pelo parto humanizado realizada no Rio de Janeiro, em 5 de agosto

por Simone G. Diniz, no Blog do Cebes, sugestão de doutora Ana Maria Costa

Uma articulação de organizações não-governamentais, movimentos sociais, e mulheres e homens a favor do parto humanizado decidiu organizar a “Marcha do parto Humanizado” neste domingo (5), no Rio de Janeiro, e em 30 outras cidades brasileiras, contra duas resoluções divulgadas pelo Conselho de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj), publicadas em 19 de julho.

As resoluções já foram suspensas pela justiça do Rio, porém o Cremerj promete recorrer da decisão judicial.  Nas últimas semanas, episódios de proibição da presença de doulas e parteiras em hospitais em outros estados, e a intimidação de médicos que apoiam as escolhas das mulheres, levam a crer que trata-se de uma ameaça muito concreta e articulada de limitar ainda mais os já escassos direitos das mulheres no parto.

A primeira resolução do Cremerj proíbe mulheres admitidas em hospitais ou maternidades de ter qualquer tipo de assistência por parteiras de formação universitárias (obstetrizes) ou de doulas (profissionais de apoio físico e emocional no parto). O não cumprimento da resolução por diretores de hospitais será considerado uma violação ética e será punido.

A segunda resolução proíbe qualquer médico de participar de partos fora do hospital, seja na assistência direta, seja como parte de equipes que recebam as mulheres que deseja ou precisam ser transferidas para um hospital, de partos domiciliares, ou de casas de parto. A punição pode incluir a cassação do registro profissional do médico. Também estabelece uma notificação obrigatória ao conselho de qualquer nascimento fora do hospital, e a não-declaração também poderá ser punida.

A taxa de cesárea nos hospitais privados no Rio está perto de 90%. Dada a pressão extrema que enfrentam nos hospitais para se submeter a esta cirurgia, ou frente à forma agressiva, obsoleta e dolorosa com que o parto vaginal é tratado, muitas mulheres estão optando pelos cuidados das parteiras — em casas de parto ou em casa —  com o apoio de uma variedade recursos on-line organizados pelas próprias mulheres a favor da escolha informada.

Apesar do fato de que, sob supervisão de um médico, a presença de enfermeiras obstétricas nos hospitais seria tolerada com as novas resoluções, o Conselho de Enfermagem Rio de Janeiro (COREN-RJ) divulgou uma nota oficial repudiando as resoluções do Cremerj, e defendendo a inclusão da parteiras e doulas na assistência tanto ao parto hospitalar quanto fora dele. Também entrou com uma ação na justiça, que já analisou e derrubou as resoluções.

O parto fora do hospital é seguro?

Não existem, nunca existiram, quaisquer evidências científicas convincentes  mostrando que o parto em hospital, ou atendido por médico, seja mais seguro para gestantes de baixo risco, que o parto atendido por uma parteira qualificada ou fora do hospital. Por esta razão, os países que têm bons sistemas de informação sobre a saúde materna e neonatal e monitoram estes desfechos cuidadosamente, sempre apoiaram a profissão e o treinamento de parteiras.

O Reino Unido, por exemplo, com base nestes dados tem incentivado para gestantes saudáveis o parto extra-hospitalar, em casas de parto e no domicílio, como parte de um sistema hierarquizado de assistência.

Um grande coorte de nascimentos recente naquele país, comparando partos em hospitais, casa de parto e no domicílio para mulheres de baixo risco, mostrou os excelentes resultados do parto extra-hospitalar.  Mostrou ainda que os resultados das casas de parto são superiores às outras modalidades, embora as diferenças sejam tão pequenas que não justifiquem qualquer comprometimento do direito à escolha.

Ressalte-se que tais resultados derivam de um sistema que apoia a escolha das mulheres, a formação de profissionais para a atenção ao parto espontâneo e, principalmente, oferece um sistema hierarquizado e regionalizado de referência onde as transferências entre os locais de parto são um evento previsto, sem o perigo de ser hostilizado, retaliado ou processado. A chamada “hostilidade entre profissões” pode certamente comprometer a segurança das mulheres e bebês (e dos profissionais), mas deve ser tratada como um problema político que é, de decisão sobre políticas públicas de saúde, não como se fosse um problema “do parto”.

O Cremerj é contra as evidências científicas e os direitos das mulheres?

O parto fora do hospital ou atendido por profissionais não-médicos no Brasil é em geral fortemente combatido por alguns conselhos de medicina, mas nunca ao ponto da sua proibição, como nas novas resoluções. Os argumentos sobre a segurança superior dos hospitais e dos médicos são tratados como dogmas inquestionáveis e repetidos como se fossem uma verdade científica, como parte da defesa de uma reserva de mercado que não admite ser questionada  democraticamente, com base em uma exame cuidadoso das evidências, inclusive das evidências locais.

Em junho passado, as mulheres no Brasil tomaram as ruas para protestar contra o mesmo Cremerj, daquela vez por causa da tentativa do conselho de punir Jorge Kuhn, um obstetra e professor da Unifesp, que declarou ao Fantástico que, em casos selecionados, o parto domiciliar pode ser uma opção aceitável para as mulheres. Sua opinião foi considerado uma falta ética pelo Cremerj, que o denunciou ao conselho de São Paulo.

A “Marcha do Parto em Casa” foi organizada através de redes sociais, com manifestações em 31 cidades diferentes em todo o país e uma no exterior, para afirmar os direitos das mulheres a escolhas informadas, à sua integridade física e a uma experiência saudável de parto.

Essas duas resoluções são consideradas por ativistas como uma reação do Conselho à marcha das mulheres, em junho. As mulheres afirmam que as duas novas resoluções do CREMERJ são ilegais, vão contra as melhores evidências científicas acerca do cuidado durante o parto, e violam os direitos humanos das mulheres.

As resoluções também são contrárias às recomendações do sobre assistência segura e humanizada do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde. As parteiras e doulas, bem como as casas de parto, integram o programa do Ministério da Saúde para um modelo de atenção mais seguro e humanizado (Rede Cegonha) e seus benefícios são baseados em evidências científicas sólidas.

De acordo com a Biblioteca Cochrane, as mulheres atendidas por obsterizes têm maiores chances de partos vaginais espontâneos, menos demanda para analgesia, maior senso de controle durante o parto, e melhores chances de iniciar a amamentação. Uma revisão sistemática com vinte e um de ensaios clínicos e mais de 15 mil mulheres mostrou que aquelas que receberam apoio contínuo no trabalho de parto, como o oferecido por doulas, relataram maior satisfação com a experiência do parto, menor duração do trabalho de parto, e menor risco de cesariana, entre outras vantagens.

Segundo os médicos que apoiam os grupos de mulheres, as resoluções são contrárias ao Código de Ética Médica, que promove o respeito à autonomia do paciente, além de ameaçarem a saúde das mulheres e bebês que seriam  privados da referência para complicações, um aspecto essencial do parto extra-hospitalar.

O Brasil tem ocupado uma posição de liderança no ranking mundial das taxas de cesarianas por vários anos. As cesáreas representaram mais de 52% de todos os nascimentos em 2010, e acima de 84% dentro do sistema de saúde privado, com várias cidades alcançando uma taxa incrível de 100% (quando o máximo recomendado pela OMS é de 10-15%). As altas taxas de cesárea eletivas antes do trabalho de parto e de antes de 39 semanas completas está associada a resultados piores para mães e bebês, como o aumento da prematuridade, baixo peso ao nascer e a maior mortalidade e morbidade materna.

Mas não é apenas quanto a cesáreas eletivas e acompanhantes que entidades médicas  desconhecem as evidências, sejam elas as científicas sobre a segurança das intervenções, seja o tsunami de denúncias e estudos sobre violência no parto. Na recente audiência pública sobre violência no parto em Minas Gerais, o presidente da Associação de Ginecologistas e Obstetras afirmou jamais ter presenciado xingamentos ou humilhações no parto, e o presidente do CRM afirmou sobre a episiotomia que “o corte na vagina é consagrado mundialmente”, quando há vinte anos as recomendações de boas práticas indicam a abolição do seu uso de rotina, e muitos autores propõem sua abolição completa.  Tal alienação da realidade compromete as possibilidades de diálogo e de aliança com as entidades médicas, exigindo que os setores progressistas dessas entidades se pronunciem claramente neste debate.

Quais as implicações para o cuidado à saúde dos conflitos de interesse e reservas de mercado no caso brasileiro?

As organizadoras das marchas destacam o conflito de interesse do Cremerj na perpetuação de um modelo violento de parto, tentando impedir o direito de escolher das mulheres, violando assim seus direitos reprodutivos. Um dos slogans do protesto é “Chega de parto violento para vender cesáreas”. Vários estudos mostraram que as taxas alarmantes de cesárea nos hospitais brasileiros não pode ser justificada pela demanda das mulheres, pois a maioria deles declaram no início da gravidez uma preferência para o parto normal.

De acordo com os grupos de mulheres e seus aliados, incluindo os muitos médicos, o Cremerj é, por outro lado, seletivamente tolerante com violações éticas graves: superestimação dos riscos para os bebês para obrigar as mulheres a cesarianas eletivas, o abuso de intervenções dolorosas, potencialmente prejudiciais, tais como o uso liberal da episiotomia, induções e fórceps (para oferecer cesariana como “melhor”, comparativamente); a humilhação sexual das mulheres  no parto quando pedem ajuda ou manifestam sua dor, infelizmente tão comum (usando frases como “quando você faz que você gostou do bebê, agora não se queixe”) e outras formas violência de gênero.

As ativistas também denunciam que os médicos frequentemente violam a lei federal que garante o direito de ter alguém de sua própria escolha durante o parto, tornando a experiência de parto ainda mais estressante para as mulheres.

Juntamente com as manifestações públicas, estão organizando ações legais contra o Conselho, buscando a cobertura da mídia, e exigindo uma reação formal e firme do Ministério da Saúde e outras instituições que tenham um papel neste debate. Há também um abaixo-assinado on-line.

 O que o SUS tem a ver com isso?

A ideia de “escolha das mulheres” no parto é praticamente alheia ao SUS. Há uma cultura e uma ética entre os profissionais, gestores e formadores de que as mulheres usuárias do setor privado, por serem mais escolarizadas, e por serem pagantes (“diferenciadas”) podem escolher como querem ter seus partos, e isso explicaria porque tanta cesárea: porque as mulheres assim “escolhem” –  trata-se do respeito ao seu direito, à sua autonomia como paciente.

No entanto, se no setor privado a mulher escolhe não ter uma cesárea eletiva, ou quer ter um parto fisiológico, ela terá que enfrentar dificuldades extraordinárias  para conseguir o parto que acredita que merece, terá que pagá-lo do próprio bolso, fora do sistema, e está ameaçada de fazê-lo sem retaguarda médica.

Atualmente, muitas mulheres que têm convênios são informadas de que ele só cobre cesáreas eletivas. Se ela quiser um parto vaginal – mesmo no hospital, com médico cheio de intervenções – não raro terá que pagar por fora, ou ser atendida pelo médico de plantão, quando ela pagou o convênio exatamente pelo privilégio da continuidade do cuidado – ser atendida por alguém que já a conhece, e não por um completo estranho. Onde está a ANS numa hora destas?

No SUS, onde são atendidas as mulheres mais pobres e  menos escolarizadas, a cultura e a ética são diferentes: as mulheres devem se submeter à decisão exclusiva do médico, à “indicação obstétrica”, sem qualquer direito à negociação. Quem tem acompanhado o debate sobre violência no parto tem visto os relatos de situações horrendas de mulheres suplicando em vão para que não seja feita episiotomia, ocitocina ou kristeller, ou tendo que enfrentar o médico para garantir a presença de qualquer acompanhante – com sucesso duvidoso – não raro durante o período expulsivo.  Ou, ainda, tendo que se calar e engolir as lágrimas pela negação do seu direito para evitar retaliação dos profissionais.

O SUS não oferece senão em raros serviços o direito à autonomia, ou à continuidade do cuidado, e em geral não oferece privacidade apropriada para o parto, com enfermarias de pré-parto coletivas, sem qualquer divisão, onde os genitais são expostos pela posição de litotomia, obrigatória, em salas de parto onde desconhecidos entram e saem. O direito a acompanhantes é ainda menos respeitado nos SUS que no setor privado, e os casos de violência são ainda mais frequentes.

Já é hora do SUS mostrar a que veio e ousar: oferecer uma assistência ao parto que seja segura e humanizada, baseada em evidências e em direitos. A Rede Cegonha propõe a criação de Centros de Parto Normal, anexo a hospitais, onde se pode ter o melhor dos dois mundos – o conforto de uma ambiente acolhedor, mais calmo, mais privativo, com condições de receber acompanhantes, com profissionais treinados para o acompanhamento de partos fisiológicos e com arquitetura e ambiência compatíveis.

Tais serviços ainda são uma completa raridade no Brasil, mas existem alguns, como o Sofia Feldman, que tem merecidamente servido de inspiração para muitas mudanças em outros locais.

É fundamental incluir como parte da  rotina no pré-natal os “planos de parto”, nos quais as mulheres podem conhecer e escolher os locais e procedimentos que preferem, a exemplo do que ocorre em outros sistemas públicos de saúde, como na Inglaterra, Canadá, etc.

Isso não é incompatível com a indicação baseada em evidências de intervenções no parto, mas sim reconhece a mulher como sujeito autônomo, que tem direito a ser informada e a consentir com o que é feito sobre seu corpo. Seria a melhor maneira de baixar as taxas inexplicáveis de episiotomia, aceleração ocitocina e kristeller que temos.

O SUS também deve estudar como melhorar a completa descontinuidade do cuidado na assistência à saúde materna, podendo se inspirar nas soluções encontradas por outros sistemas públicos, como o de case-load (cada profissional tem um número de casos que atende no pré-natal, parto e pós-parto, em uma assistência integrada e regionalizada). Estas formas de assistência são especialmente compatíveis com os Centros de Parto Normal, mas não apenas.

É hora do Ministério da Saúde e da Rede Cegonha assumirem o debate sobre o direito à escolha informada no parto (como, com quem e onde ter o parto), como parte da agenda de promoção de um cuidado mais humano, seguro e baseado em evidências, assumindo sua defesa da cidadania das mulheres. Se isso se tornar realidade, competirá seriamente com o setor privado, que tem sido inchado pelas mulheres que terminam “escolhendo” uma cirurgia agendada e riscos aumentados, como forma de escapar – nem sempre com sucesso – de uma assistência que não reconhece seu direito a um parto seguro, tornando-se o martírio que muitas enfrentam.

(Achou que “martírio” é um termo forte? Leiam os depoimentos da recente audiência pública sobre violência no parto ocorrida em Minas Gerais)

Simone G. Diniz, docente do Departamento de Saúde Materno-infantil na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. [Editado de nota assinada por Simone G. Diniz, Deborah Delage, Melania Amorim e Maira Libertad].

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A criança comeu planta de vaso ou jardim? Está passando mal? Não dê leite! A toxicologista Eliane Castro ensina o que fazer

Publicado em: 7 de agosto de 2012

por Conceição Lemes

Eliane Castro: Intoxicações por plantas acontecem em qualquer faixa etária, mas são mais frequentes em crianças de 1 a 5 anos

Quantas vezes você já ouviu alguém dizer se é natural, mal não faz?

Pois os atendimentos nos serviços de assistência toxicológica  desmentem diariamente esse ditado popular. Certas plantas, se ingeridas, podem ser tóxicas e fazer mal à saúde.

Comigo-ninguém-pode, por exemplo, causa desconforto, dor e inchaço da mucosa oral.  Mamona dá náusea, vômito e diarréia. Saia-branca leva a alterações no sistema nervoso central (cérebro). Azaleia provoca desde náusea e cólica abdominal intensa, até confusão mental, tontura, hipotensão e arritmia cardíaca.

“Embora as intoxicações por plantas possam ocorrer em qualquer fase da vida, elas são mais freqüentes em crianças, principalmente entre 1 e 5 anos de idade”, alerta a farmacêutica Eliane Gil Rodrigues de Castro, assistente do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox), do Instituto da Criança da Faculdade de Medicina da USP. “Porém, as circunstâncias das crianças diferem das dos adultos.”

Na infância, as intoxicações por plantas costumam ser acidentais. Decorrem da curiosidade própria da idade ou da brincadeira de imitar hábitos dos adultos, como o de cozinhar. Acontecem com maior freqüência em horários próximos aos das refeições, o que faz pensar que a fome também é um elemento facilitador.

— Como saber que houve intoxicação por planta?

Em geral, na população infantil, essas intoxicações são diagnosticadas com base nos relatos de familiares ou cuidadores, que presenciam a criança engolindo a planta ou tendo contato com ela. Resíduos nos dentinhos algumas vezes denunciam. Outras, a criança é surpreendida com a plantinha na boca.

“Os problemas mais comuns são os distúrbios gastrointestinais”, observa Eliane Castro. “Irritação bucal, salivação intensa; às vezes, náusea e vômito.”

Já nos adultos, as intoxicações por plantas decorrem de: incapacidade de distinguir a comestível da tóxica, uso abusivo de determinadas plantas medicinais, finalidades recreacionais (plantas alucinógenas) e exposição profissional (jardineiros, por exemplo).

EFEITOS TÓXICOS DAS PLANTAS MAIS POPULARES

Por isso, o Ceatox fez uma lista dos principais efeitos tóxicos das plantas mais populares. Atente aos riscos:

Distúrbios gastrintestinais – Náusea, vômito, diarréia, dor abdominal e fezes sanguinolentas podem surgir isoladamente ou combinados com outras manifestações clínicas. Exemplos: mamona, pinhão-paraguaio, pinhão-roxo, jequiriti, joá, senécio

Alterações no sistema nervoso central (cérebro) — As principais são pele e mucosas secas, faces avermelhadas, irritação da conjuntiva, aumento da temperatura, taquicardia, dilatação da pupila, retenção urinária, excitação, agitação psicomotora, distúrbios de comportamento e alucinações visuais. Exemplos: saia-branca (também conhecida por zabumba, trombeteira, manto-de-Cristo, aguadeira), estramônio (figueira-do-inferno), dama-da-noite, doce-amarga, flor-das-almas, senécio, tasneirinha, peloteira, ou tomatinho.

Lesões de mucosas — Quando ingeridas, salivação, dor em queimação na mucosa oral, língua e lábios, edema da cavidade oral, faringe e glote e irritação da pele. Exemplos: comigo-ninguém-pode, tinhorão, banana-de-macaco, jibóia, espada-de-são Jorge, cheflera, costela-de-adão, inhame-bravo, antúrio, lírio-da-paz, copo-de-leite, azedinha, trevo, coroa-de-cristo, pinhão-paraguaio, espirradeira, bico-de-papagaio, avelós, urtiga, chapéu-de-napoleão, cansanção.

Irritação e lesão de pele — São plantas com espinhos, farpas, espículas, pelos, folhas com bordas cortantes e serrilhadas, podendo causar prurido, eritema, bolhas, vesículas, exsudação e crostas. Exemplos: coroa-de-cristo; urtiga (pêlos urticantes), comigo-ninguém-pode (agulhas de oxalato de cálcio).

Plantas alergênicas — Podem causar alergias, distúrbios respiratórios e dermatites. Exemplos: aroeira, ipê, crisântemo, mamona.

Distúrbios cardíacos – São geralmente plantas ornamentais, de jardins públicos, e podem causar desde náusea, cólica abdominal intensa, diarréia mucossanguinolenta até confusão mental, tontura, dilatação da pupila, torpor, redução dos batimentos do coração, hipotensão, arritmias cardíacas. Exemplos: espirradeira, chapéu-de-napoleão, oficial-de-sala, azaléia, alamanda, dedaleira, luva-de-nossa-senhora, café-bravo, cogumelos etc.

Distúrbios respiratórios — Os sintomas são convulsões e coma. Exemplos: mandioca brava, bambu, feijão-trepador, pessegueiro-bravo, sorgo, sabugueiro.

NÂO DÊ NEM TOME LEITE; OS SINTOMAS PODEM PIORAR

Portanto, desde cedo, é importante ensinar a criança o que ela pode e o que ela não comer. Oriente-a: “O verdinho que vai para a mesa, pode comer e faz bem. O verdinho do vaso ou do jardim, não; pode deixá-la doente.”

Apesar de toda a cautela, um acidente pode acontecer.

— O que fazer quando se flagra a criança nessa situação?

Ligue para o Ceatox — 08000-148110 – ou procure um serviço médico.

Caso a criança apresente sintomas, convém levá-la ao médico. Se possível, leve junto parte da planta ingerida. A identificação da planta é um dado importante no tratamento das intoxicações. Deve ser feita por profissionais com conhecimento botânico, embora, na prática, nem sempre estejam disponíveis. Por isso, é muito comum as condutas tomadas com base nos sintomas apresentados pelos pacientes.

— E se eu não tiver certeza absoluta de que a criança comeu a plantinha?

Na dúvida ou suspeita de ingestão da planta, ou se a criança apresentar sintomas, leve-a  ao médico.

Por outro lado, se você não tem certeza de que a criança engoliu a planta, ela está bem, ativa, sem sintomas, recomendamos que a deixe sem comer nenhum alimento  durante duas horas.

Importante: não dê leite, pois os sintomas podem piorar, provocando náuseas. Também não tome leite se a intoxicação por planta aconteceu com você.

CUIDADOS PREVENTIVOS ÚTEIS PARA TODA A FAMÍLIA

Por isso, a farmacêutica Eliane Castro recomenda mais algumas dicas para toda a família:

* Redobre a atenção em relação às crianças, principalmente nos períodos de férias e nos horários do retorno da escola. Em geral, os pequenos chegam com fome e, ao menor descuido, levam à boca o que mais fácil têm ao seu alcance.

* Ensine as crianças a não colocar plantas na boca nem utilizá-las como brinquedo.

* Cuidado ao podar as plantas que liberam látex. Elas podem atingir os olhos ou a pele  e provocar ulcerações e irritações.

* Não prepare chás ou remédios caseiros com plantas sem o conhecimento das espécies.

* Não coma frutos, folhas e raízes desconhecidas.

 

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Paulo Saldiva, da USP: Poluição atmosférica mata 4 mil pessoas por ano na cidade de São Paulo

Publicado em: 5 de agosto de 2012

Foto:  Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP

por Isabel Harari e André Cristi, em Carta Maior, sugestão de Robson Moreno

São Paulo – Por ano, cerca de 1,3 milhão de mortes no mundo são causadas pela poluição urbana, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Só em São Paulo morrem 4 mil anualmente. Em 2004, quando o número de carros era um terço menor, estima-se que o número de mortes tenha sido 2,9 mil. Idosos, crianças, gestantes, portadores de doenças respiratórias e cardíacas crônicas e, principalmente, os mais pobres – que têm níveis maiores de exposição – são os principais atingidos.

Segundo Paulo Saldiva, médico especialista em poluição atmosférica e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), “não há impedimentos técnicos ou falta de conhecimento para que esse problema seja resolvido. No meu entendimento, temos todas as condições de resolver o problema da poluição do ar em nossas cidades em alguns anos”.

De acordo com a OMS, os elevados níveis de poluição na cidade de São Paulo são responsáveis pela redução da expectativa de vida em cerca de um ano e meio. Os três motivos que encabeçam a lista são: câncer de pulmão e vias aéreas superiores; infarto agudo do miocárdio e arritmias; e bronquite crônica e asma. Estima-se um aumento de oito meses na expectativa de vida a cada 10 microgramas de poluição retirados do ar.

Em entrevista à Carta Maior, o patologista apontou para as duas causas fundamentais do problema: o caráter segregador da ocupação do solo nas metrópoles e a falta de políticas públicas que privilegiem o transporte público. Segundo Saldiva, quem mais polui são os carros, e, nas grandes cidades do Brasil, a opção pelo transporte veicular sequer traz o benefício de uma mobilidade eficiente. “A existência de um transporte coletivo rápido, eficiente e barato daria a motivação para que a população migrasse para o transporte público”, afirma.

Carta Maior Segundo dados da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, ligada ao governo do estado de São Paulo) e do Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP, os índices de poluição em São Paulo são os piores dos últimos oito anos e as doenças cardiorrespiratórias matam 20 pessoas por dia na região metropolitana. Há relação entre esses dois fatores?

Paulo Saldiva – O aumento dos casos de doenças cardíacas e respiratórias em nossas cidades tem várias causas: envelhecimento da população, sedentarismo, obesidade e também a poluição atmosférica. Nas cidades onde há grandes séries históricas de medições de poluição, como São Paulo e Rio de Janeiro, houve uma melhora contínua até cerca de 2005 e 2006. A partir desse momento, a tendência de melhora se interrompe, com evidências de piora, notadamente para partículas finas e ozônio. O mais grave é que o patamar onde estamos é reconhecidamente causador de dano à saúde.

Carta Maior  – Por que a poluição piorou a partir de 2006? Foi por causa do aumento da frota de veículos?

Paulo Saldiva – A poluição deixou de melhorar a partir de 2006, estacionando em níveis inadequados para a saúde humana. Os poluentes que ficaram acima do padrão são o ozônio e o material particulado. As razões para isso são o aumento da frota e a lentificação do trânsito, que fazem com que os veículos emitam mais poluentes ao estarem presos em congestionamentos. A redução da velocidade do tráfego faz com que permaneçamos cada vez mais tempo em meio a corredores de tráfego, onde os níveis de poluição são substancialmente mais elevados do que a média da cidade. Em outras palavras, quanto mais tempo ficamos presos em congestionamentos intermináveis, maior será a nossa dose de poluição.

O tamanho do problema pode ser resumido da seguinte forma. Aproximadamente 12% das internações respiratórias em São Paulo são atribuíveis à poluição do ar. Um em cada dez infartos do miocárdio são o produto da associação entre tráfego e poluição. Os níveis atuais de poluição do ar respondem por 4 mil mortes prematuras ao ano na cidade de São Paulo. Trata-se, portanto, de um tema de saúde pública.

Carta Maior – Quem são os principais atingidos pelo aumento da poluição?

Paulo Saldiva — Idosos, crianças, gestantes, portadores de doenças respiratórias e cardíacas crônicas e, principalmente, os mais pobres, que têm níveis maiores de exposição.

Carta Maior Por que os mais pobres têm níveis maiores de exposição?

Paulo Saldiva — O fato de tratarmos o solo das cidades como mercadoria faz com que as áreas centrais da cidade percam população, notadamente a mais pobre, que migra para áreas mais acessíveis na periferia, aumentando, consequentemente, o tempo de permanência no tráfego. As casas das comunidades mais carentes são também as mais permeáveis à entrada de poluentes. Finalmente, é nos pontos de ônibus, pontos de alta concentração de poluentes, que a população mais desfavorecida passa longos períodos à espera do transporte.

Carta Maior  Quais as alternativas de políticas públicas que o senhor  sugere para diminuir a poluição?

Paulo Saldiva  – No meu entendimento, temos todas as condições de resolver o problema da poluição do ar em nossas cidades em alguns anos. Nas grandes cidades do Brasil, a poluição veicular é responsável pela grande maioria das emissões de poluentes. Mudamos o microclima urbano e poluímos o ar sem termos nem ao menos o benefício de uma mobilidade mais eficiente. A existência de um transporte coletivo rápido, eficiente e barato daria a motivação para que a população migrasse para o transporte público. Sabemos fazer metrô, construímos trens e nossos engenheiros produzem os grandes corredores de ônibus em Santiago, Bogotá e Pequim. Temos a disponibilidade de vários combustíveis mais limpos do que os que utilizamos. Não há, portanto, impedimentos técnicos nem falta de conhecimento para que resolvamos o problema. Faltam políticas públicas de médio prazo para privilegiar o transporte coletivo.

Carta Maior — Além das medidas de mobilidade, existem outras que poderiam ser tomadas em outras áreas?

Paulo Saldiva – Aumento da cobertura vegetal – que funciona como fator de redução de poluição –, medidas de readensamento urbano nas regiões centrais das cidades e políticas de incentivo aos combustíveis menos poluentes.

Carta Maior  – Se não há impedimento técnico ou de conhecimento,  esse impedimento é político?

Paulo Saldiva – Nas presentes circunstâncias, dificilmente haverá um político no Brasil, que ouse implementar políticas de favorecimento do uso das vias pelo transporte coletivo ou ciclovias em detrimento dos automóveis. Também creio ser muito pouco provável que encontremos condições para combater a política atual de uso e ocupação do solo urbano, dado o estado de descrédito em que as principais forças políticas de nosso país se encontram. Por exemplo, a maior parte da população irá preferir pagar um pedágio urbano “indireto” – pagar estacionamentos particulares nos locais de trabalho ou perder horas de sono por causa dos congestionamentos – a pagar uma taxa para a melhoria do transporte coletivo. É uma situação que mistura uma crise de gestão política, interesses econômicos e falta de lideranças confiáveis.

Carta Maior  Como o modo de vida nas grandes cidades pode afetar a saúde, além da poluição?

Paulo Saldiva – O fator mais significativo é o estresse social. O conjunto de falta de mobilidade, ruído excessivo, sedentarismo veicular e violência faz com que a incidência de doenças mentais e afetivas seja muito mais frequente nas cidades. Outro exemplo é a obesidade, produto do modo de vida que resulta da maneira como organizamos a cidade. Por exemplo, uma criança hoje não tem acesso ao espaço público por razões de violência. Nesse cenário, o jogo de futebol é no console eletrônico do Fifa 2012 e não na rua.

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A memória anda falhando? A doutora Eliane Corrêa Chaves alerta: “Pode ser falta de sono e de sonhar”

Publicado em: 2 de agosto de 2012

por Conceição Lemes

Quantas horas você costuma dormir por noite? Habitualmente gostaria de ficar mais tempo na cama? Quando não tem compromisso, acorda mais tarde?

Nada de se culpar se você é daquelas pessoas que, pela manhã, sempre têm vontade de ficar dormir um pouco mais ou que, podendo, aproveitam para acordar mais tarde, por  exemplo, nos fins de semana.

Dormir não é besteira nem perda de tempo. Para algumas pessoas, quatro a cinco horas de sono por dia são suficientes para que se sintam “inteiras”.Outras necessitam de nove a dez. Mas, em média, diariamente o ser humano precisa de sete a oito horas de repouso. Porém, por modismo ou excesso de responsabilidades, mais e mais pessoas dormem menos do que o corpo “pede”. E sono de menos ou de má qualidade faz mal à saúde.

“A falta de sono impede a gente de sonhar e de viver bem, pois desequilibra nossas funções mentais”, alerta Eliane Corrêa Chaves, especialista em promoção da saúde, doutora em Psicologia e professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP). “Os sonhos harmonizam as funções mentais ligadas à memória, à criatividade e até à capacidade de sentir alegria. Também regulam a produção e liberação de substâncias responsáveis pela saciedade alimentar e pela função sexual, entre outras.”

Como assim? Bem, o sono tem cinco ciclos. Cada qual dura cerca de 90 minutos. Cada ciclo, por sua vez, divide-se em cinco fases: indução, ou sonolência; relaxamento muscular e dos sinais vitais; duas etapas de sono profundo; e fase REM, ou do movimento rápido dos olhos.

É principalmente na fase REM que sonhamos. Por noite, temos de completar esses ciclos de quatro a seis vezes. Ou seja, mesmo sem lembrarmos, os sonhos se sucedem. Mas só recordamos deles quando despertamos na fase REM.

Na verdade, o sonho acontece à noite, mas ao longo do dia é que se notam os seus benefícios. Fisiologicamente, equilibra as nossas funções mentais. É durante o sonho, por exemplo, que os conhecimentos adquiridos de dia se fixam na memória. É a memória de curto prazo. Mas é também no sonho que fatos recentes se conectam com antigos registrados na nossa mente. O resultado é o aprendizado. Na esfera afetiva, o sonho contribui para a produção de substâncias ligadas à de sensação de prazer, bem-estar, satisfação consigo próprio.

Conseqüentemente, a falta de uma boa noite de sono e de sonhar tem “efeitos colaterais”: memória ruim, falta de atenção, dificuldade para aprender, depressão, irritabilidade, intolerância, pessimismo, falta de motivação e de alegria de viver.

“Com frequência atribuímos esses sintomas a discussões com o parceiro, desentendimentos com o chefe e outras chateações cotidianas”, observa Eliane. “Só que a causa pode ser falta de sono e de sonhar. Claro que os prejuízos à saúde mental não se manifestam após uma, duas, três noites maldormidas. Mas se elas virarem hábito, certamente terão impacto na sua vida.”

DESCUBRA SE VOCÊ DORME O SUFICIENTE

A esta altura muitos devem estar se perguntando se repousam o que necessário para produzir e viver bem.

Em média, já dissemos, as pessoas carecem de sete a oito horas de sono diárias. Para algumas, no entanto, bastam quatro, cinco. Outras exigem nove, dez. É questão de característica individual. Não há nada de errado.

Logo, o X do problema é descobrir se a quantidade de sono habitual é a que seu organismo “pede”.  Observe-se. Vamos supor que, de segunda a sexta, você durma às 24h e acorde às 6h; no domingo se levante às 10h. Esse é um sinal de que sua necessidade de sono é maior. Agora, se junto com essa observação notar dificuldades para desempenhar suas funções, a falta de sono e de sonhar provavelmente estão contribuindo para as “queixas” do seu corpo. Tente respeitar mais as “vontades” dele.

QUALIDADE DO SONO TAMBÉM É IMPORTANTE

Por isso, a professora Eliane Corrêa Chaves dá dicas que podem melhorar o seu sono:

* Pratique atividade física. O exercício libera substâncias que ajudam a sonhar. Prefira o período da manhã ou da tarde. Caso não seja possível, tente fazê-lo até mais ou menos umas duas horas antes de dormir.

* Evite café, chá preto, refrigerantes tipo cola, bebida alcoólica, cigarro e comida gordurosa próximo à hora de dormir; dificultam pegar no sono.

* Leve a televisão para a sala. No quarto, não nos deixa “desligar” do ambiente.

* Cuide para que o quarto esteja escuro e sem ruídos e só vá para a cama quando sentir sonolência. Antes, relaxe — com meditação, banho morno, leitura ou música. Pronto.

O sono, como tudo o que ocorre no nosso corpo, é resultado de complexos processos de substâncias químicas que precisam de um período para a produção. Assim, não espere um sono rápido logo após atividades muito envolventes e estimulantes, um banho e alguns poucos minutos na cama.

É necessário dar um tempo. Vá se “desligando” aos poucos das atividades e responsabilidades do dia e verá como o seu sono será muito mais restaurador. Agora é só dormir gostoso, sonhar e acordar bem amanhã.  Boa noite!

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Seu filho não come?! Ainda bem! O doutor Ary Lopes Cardoso, do Instituto da Criança da USP, explica por quê

Publicado em: 31 de julho de 2012

por Conceição Lemes

Basta ficar algum tempo na sala de espera de ambulatórios ou consultórios de pediatras que certamente se ouvirá:

— Não sei mais o que faço… Meu filho não come!

— Já estou ficando desesperada… Juro que ele não come!

A queixa é bem brasileira. O prato do dia a dia de todo pediatra. Acontece quando o bebê atinge 1,5 anos, 2, 3 anos. Se a mãe é de origem italiana, espanhola ou portuguesa, então nem se fala. Frequentemente continua carregando tradições dos antepassados que chegaram aqui no século passado. Quase sempre humildes, eles queriam trabalhar para que suas famílias tivessem o melhor futuro possível, com sucesso financeiro e muita saúde. Para todos, a comida sempre foi associada à boa saúde.

— Doutor, meu bebê comia bem, agora não quer mais…

— Ele não come nada o dia todo…

— Estou achando que ele está com algum problema…

“Ainda bem”, de pronto, quebra o gelo o pediatra o pediatra Ary Lopes Cardoso, chefe do Departamento de Nutrologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. “Graças a Deus, seu filho é normal!”

Calma, mãe (pai também!). O doutor Ary não está fazendo pouco caso da sua queixa. Ele fala sério.

“Só de observar a criança, dá para perceber que ela está se desenvolvendo bem”, afirma o doutor Ary. “Vamos pesar e medir o comprimento do seu nenê e ver se estão adequados “.

As explicações para o que está acontecendo são as seguintes:

* No primeiro ano de vida, em geral a criança ganha três vezes o peso que tinha ao nascer e metade (em centímetros) do comprimento do nascimento.

* No segundo ano, adquire cerca de 3,5 quilos e 8 a 10 centímetros de comprimento.

* Do terceiro ano até à puberdade, vai mais devagar :  cerca de 2 quilos e 5 a 6 centímetros por ano.

Matou a charada? Pois é isso mesmo. No primeiro ano de vida, o apetite é enorme porque as necessidades nutricionais para são muito altas para que as metas propostas sejam atingidas. Nos anos seguintes as necessidades anuais vão diminuindo e isso se traduz por menor apetite.

A família precisa entender isso. É necessário que o pediatra explique esse fenômeno fisiológico da diminuição do apetite. Se isso não ocorrer, a tendência da família é insistir, forçar, agradar (com guloseimas e outras tranqueiras engordativas ) e principalmente começa a “irradiar” a refeição: se comer esta colherada vamos passear, a vovó vai dar um presente, o papai vai deixar você brincar no carro, você vai crescer

Eventualmente o próprio pediatra cai na armadilha e prescreve equivocadamente um desses estimulantes de apetite.

“O resultado desses erros freqüentes, muitas vezes, é a obesidade no futuro”, alerta o doutor Ary. “Às vezes ao medir e pesar a criança já se nota o ganho excessivo de peso para a altura e idade.”

— O que fazer então?

Se o seu bebê vem mantendo uma velocidade de crescimento dentro de um canal adequado, tranqüilize-se, tranqüilize-se, tranqüilize-se…

No primeiro ano de vida, o leite materno deve representar o único alimento nos primeiros seis meses. No segundo semestre, inicia-se a introdução das frutas e da comida da casa, as papas. O leite materno continua sendo necessário. É um período em que a criança come a cada 3 ou 4 horas.

O interessante é que a partir dos seis meses a criança já entre nos horários da família. Por exemplo: tome o café da manhã na forma de leite materno ou fórmula infantil, seguida de lanche no meio da manhã (uma fruta com ou sem o leite), almoço (comida da casa amassada em peneira e com consistência pastosa), lanche à tarde (fruta ou leite com bolo ou iogurte  ou cereais) e jantar. À noite, novamente leite.

 — Mas meu filho não come NADA!!!

Nada mesmo? E aquelas três a quatro mamadeiras de leite, quase sempre com açúcar e cereais são o quê? Alimento. Por isso o seu filho não come outras coisas. As mamadeiras saciam o apetite dele.

“Talvez abolir as mamadeiras seja o único jeito de o seu filho passar a comer comida”, recomenda o doutor Ary. “Experimente. Depois, me conte.”

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Mário Scheffer: “Vivemos uma crise sem precedentes na resposta à epidemia de HIV/Aids”

Publicado em: 27 de julho de 2012

por Conceição Lemes

 

 

 

 

 

 

Mário Scheffer: “A condução é conservadora, defasada. A criatividade, a ousadia e o diálogo permanente com a sociedade civil  cederam lugar à arrogância”

 

Terminou nesta sexta-feira, em Washington, Estados Unidos, a 19ª Conferência Internacional sobre Aids. O Programa Nacional de DST/Aids, que até então era festejado e apontado como modelo para o mundo, sofreu críticas de especialistas durante toda a semana.

“A história de sucesso do programa brasileiro de aids entrou em declínio por fatores como a saída de recursos internacionais e o enfraquecimento da relação entre o governo e a sociedade civil”, avalia Eduardo Gomez, pesquisador da Universidade Rutgers de Camden, em Nova Jersey, EUA. “Historicamente, o programa brasileiro de aids tinha uma conexão forte com as ONGs, mas agora elas estão sem recursos e sem motivação. O governo precisa delas para conscientizar as populações difíceis de atingir.”

“O aumento da pressão de grupos religiosos e a redução das campanhas de prevenção junto às populações de maior risco são a maior ameaça ao programa brasileiro anti-aids”, pondera Massimo Ghidinelli, coordenador de Aids/HIV da Organização Panamericana da Saúde (OPAS). “Parece que, nos últimos anos, os grupos religiosos ficaram mais fortes e há uma menor intensidade na maneira pela qual o programa lida com questões de homofobia e sexualidade.”

Ontem, quinta-feira 26, ativistas brasileiros presentes à 19ª Conferência Internacional de Aids, em Washington, protestaram em frente ao estande do Ministério da Saúde contra o que definem como “retrocesso na resposta contra a epidemia”. O objetivo, segundo eles, foi mostrar ao mundo que o País “não é mais o mesmo” e “vive do sucesso do passado” no enfrentamento da doença.

“Até agora, as críticas eram principalmente de ONGs e ativistas brasileiros. Agora, são de especialistas estrangeiros renomados”, observa Mário Scheffer, presidente do Grupo Pela Vidda-SP. “O programa brasileiro de aids parou no tempo e não é mais motivo de orgulho nacional. Tivemos uma sucessão de perdas acumuladas. Vivemos uma crise sem precedentes na resposta à epidemia de HIV/aids.”

Ativista há mais de 20 anos e também professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, Mário acompanha a epidemia de HIV/Aids desde o seu início nos anos 80. Além do olhar afiado e da expertise em saúde pública, ele conhece bem toda a trajetória do Programa Nacional de DST/Aids. Daí esta nossa entrevista:

Viomundo – Começou no domingo (22) e terminou hoje (27) em Washington a 19ª Conferência Internacional sobre Aids. No decorrer da semana, foram feitas várias críticas ao momento atual do programa brasileiro de aids. Você concorda com elas?

Mário Scheffer – Com certeza. Até agora, as críticas eram principalmente de ONGs brasileiras. Agora, são de especialistas estrangeiros renomados. Elas são a prova maior de que o programa brasileiro não é mais a principal referência internacional, perdemos a liderança e o ineditismo, não ousamos mais nas respostas excepcionais que marcaram nossa história de combate à aids.

Viomundo – As ONGs de aids sempre tiveram boa interlocução com o Ministério da Saúde. O que aconteceu?

Mário Scheffer — As ONGs e os ativistas pioneiros que são obviamente mais críticos não são mais ouvidos. O governo atualmente elege os interlocutores que lhes são mais convenientes e deslegitima muitos daqueles que deram contribuições históricas.

Sinal de que as coisas não vão nada bem por aqui é que tanto a crítica ao programa quanto o reconhecimento às ONGs e aos ativistas brasileiros têm que vir de fora.

Aliás, o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em seu discurso na abertura da Conferência Internacional de Aids, domingo passado em Washington, fez um vigoroso elogio aos ativistas e citou especificamente as ONGs brasileiras. Disse que se hoje é possível falar em controle da epidemia e vislumbrar o seu fim, isso se deve fundamentalmente às ações desses ativistas.

Viomundo —  ONGs de aids estão fechando as portas no Brasil. Por quê?

Mário Scheffer – Vários motivos. Crise de pessoal, financeira, de sustentabilidade, não têm sede física, não têm dinheiro para pagar aluguel e telefone, têm que compor diretorias com apenas três pessoas  porque não há mais gente disponível. Também não conseguem mais montar  equipes para executar projetos, para chegar até as populações vulneráveis, o que só as ONGs são capazes de fazer.

Em outras palavras: algumas ONGs estão fechando as portas, como você disse. Mas está havendo também retração das atividades de todas elas.

Viomundo – Mas as críticas não se devem apenas à crise financeira e de pessoal das ONGs de aids?

Mário Scheffer – Essa é apenas uma das pontas da crise sem precedentes da resposta brasileira à epidemia, que também perdeu tecnicamente. Além disso, não há sensibilidade nem determinação do governo para perceber e para contribuir com a superação da crise das ONGs. Pelo contrário. Atualmente há uma crise política de relacionamento e mesmo de desprezo pela história das ONGs. O governo federal tem feito a opção — e isso não é só na área de aids — pela relação paroquial com a sociedade civil, uma política de cooptação e quebra-galho. Não ha mais crítica nem debate qualificado de ideias. Tivemos uma sucessão de perdas acumuladas.

Viomundo – Quais?

Mário Scheffer – Primeiro, perdemos a força do trabalho voluntário por meio do qual as pessoas participavam de nossas ONGs, exprimiam sua solidariedade, doavam tempo, trabalho e talento para a luta contra a aids. Não é mais uma causa mobilizadora e isso tem a ver com a imagem trabalhada pelo governo de que temos o melhor programa do mundo e que por aqui está tudo resolvido.

Segundo, com a ascensão das ONGs picaretas e bandidas, criadas para alimentar a corrupção em vários ministérios, cresceu o preconceito e foram impostas mais barreiras para as organizações sérias, que já tinham dificuldade em acessar recursos públicos.

Desde que realizado com critério, transparência, concorrência pública e rigorosa prestação de contas, as ONGs deveriam ter o direito de acessar fundos públicos para exercer o controle, a fiscalização e a participação nas políticas públicas, como acontece em várias democracias.

Terceiro, diante da imagem de que o Brasil hoje é um país rico e resolveu o problema da aids (o que não é verdade), acabou o apoio internacional às ONGs brasileiras de aids.

Resultado: sem ajuda de comunidades e empresas e com uma causa que não toca mais o coração de doadores e voluntários, passamos a viver a dificuldade crescente de assegurar recursos institucionais para a manutenção das ONGs. Com isso, arrefeceu o nosso ativismo e controle sobre as políticas públicas.

Viomundo – E os financiamentos governamentais vinculados a projetos?

Mário Scheffer – Eles fazem parte de um modelo esgotado em que as ONGs de aids foram reduzidas a mão de obra barata para prestação de serviços que o Ministério da Saúde e secretarias estaduais e municipais de saúde não conseguem realizar. Não bastasse isso, muitas vezes estados e municípios não repassam esse recursos às ONGs e quando o fazem, não há continuidade nem avaliação da eficácia das ações financiadas.

Viomundo – Um pouco atrás você falou que o programa brasileiro de aids perdeu tecnicamente. Em que medida? 

Mário Scheffer — Não houve renovação nem atualização dos quadros técnicos. Os desafios hoje são outros, mas a condução é conservadora, defasada. A criatividade, a ousadia e o diálogo permanente com a sociedade civil  cederam lugar à arrogância. Sem a força e a autonomia de outrora, os programas de aids —  o nacional e vários estaduais e municipais — estão isolados e enfraquecidos politicamente dentro dos governos.

Em São Paulo, por exemplo, muitos serviços municipais de aids estão sem médicos,   os estaduais, superlotados, sendo privatizados, fechando leitos, e os programas de aids sem nenhuma governabilidade sobre isso.

Já o programa nacional nem sequer dá mais as fichas sobre a produção nacional de antirretrovirais genéricos. Hoje é um processo sem transparência. O Ministério da Saúde não dá um passo sem o amém da Casa Civil e dos fundamentalistas religiosos que integram a base governista, o que emperra programas de prevenção de aids.

Viomundo – O que ONGs e ativistas da área de aids querem?

Mário Scheffer — Queremos ser respeitados e ouvidos mas em novos patamares de relacionamento. Ninguém desistiu da luta. Nossas ONGs querem continuar atuando nas diversas frentes, na prevenção, na assistência das casas de apoio, nas assessorias jurídicas, na defesa dos direitos das pessoas que vivem com HIV. Queremos continuar fazendo o mesmo ativismo que nos levou a conquistar o acesso universal aos medicamentos, derrubar patentes, lutar contra a exclusão de coberturas pelos planos de saúde privados, acessar os vulneráveis e alçá-los à condição de cidadãos.

O mesmo ativismo que nos leva a apontar que, diferentemente do que dizem, o acesso aos antirretrovirais no Brasil não é universal, pois o diagnóstico tardio é altíssimo e ainda existem desabastecimentos ocasionais. Que nos leva a dizer que não existe política de prevenção adequada a um perfil de epidemia concentrada em certas populações, como os homossexuais, atualmente os maiores negligenciados de prevenção em aids no Brasil.

Hoje estão ameaçados princípios essenciais que forjaram o combate à aids no Brasil, que um dia chegou a quebrar barreiras e tabus. Essa ousadia necessária deu lugar a um programa sem vida, covarde, que promove autocensura, se alinha com forças retrógradas, como no caso recente da campanha dirigida aos gays.

Um programa que se debruça sobre glórias do passado e exibe uma real incapacidade , lentidão e perda da capacidade técnica e política . Não tem conseguido dar respostas à altura das novas dinâmicas e desafios da epidemia e a comunidade internacional passou a perceber isso.

Neste momento de grandes mudanças, com esperança concreta da cura e controle da aids, novas armas para prevenção, necessidade de ampliarmos a oferta de testagem e tratamento a todos os infectados, o Brasil está paralisado, com seus indicadores de mortalidade e de novas infecções pelo HIV estacionados. O programa brasileiro de aids parou no tempo e não é mais motivo de orgulho nacional.

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Abaixo a TPM e os preconceitos!

Publicado em:

por Conceição Lemes

Basta uma mulher mostrar-se nervosa, irritadiça ou explodir para quase automaticamente se ouvir no ambiente: 1) ela está “precisando” de homem; 2) ela está “naqueles” dias (referindo-se à menstruação); ou 3) ela está na TPM (tensão pré-menstrual).

Pois essas três frases são pejorativas, machistas, discriminadoras de gênero,  equivocadas. Chiliques não são exclusividade feminina, concorda? A síndrome da tensão pré-menstrual é um grande distúrbio ligado à menstruação. A TPM repercute em todo o organismo — física e emocionalmente. Atinge cerca de 40% das mulheres em idade reprodutiva.

“Enfim, é uma síndrome democrática”, ressalta a ginecologista e obstetra Fátima Duarte.

De fato, a TPM ocorre em todos os grupos sociais e faixas etárias, podendo se manifestar da primeira à última menstruação. Em geral, as queixas começam sete a dez dias antes da descida do sangue e melhoram durante ou logo depois. Juntando todos os sintomas já descritos na literatura médica, superam — pasme! — 150.

Porém, alguns são mais comuns. Nas esferas emocional e comportamental, diminuição de desejo sexual, mau humor, agressividade, depressão,
insônia, irritabilidade, ansiedade, fadiga, desânimo e falta de energia. Na área cognitiva, dificuldade de concentração e indecisão. Na física, inchaço das mamas e aumento de peso, em razão da retenção de água pelo organismo; dores musculares, nos seios, juntas, pernas,abdome e genitais; cefaleia; prisão de ventre; náusea e vômitos; e problemas de pele, como acne.

“Indubitavelmente, a TPM é uma doença da mulher moderna e está ligada à parte hormonal”, cientifica o ginecologista e professor Edmund
Chada Baracat, titular de Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP.  Há inúmeras teorias a respeito, mas até agora não se sabe a sua causa. Uma das hipóteses é que a mulher sujeita à TPM fabricaria menos progesterona. Em consequência, haveria desequilíbrio de progesterona e estrogênio. Esse desbalanço, por sua vez, faria com que houvesse maior retenção de água no organismo.

Exercícios para todas

O fato é que, até agora, não há um tratamento medicamentoso único capaz de aliviar todos os sintomas da TPM. Vai depender de cada caso.

Mulheres com dores e inchaço nas mamas, por exemplo, melhoram comos diuréticos. Já as com depressão, com antidepressivos. Outras, com a associação de ambos. Muitas vezes o bloqueio da ovulação com contraceptivo
hormonal pode ser a solução. Suplementos de vitaminas B6  e E também podem ajudar. Converse com o seu médico a respeito.

“O importante é que a síndrome tem de melhorar”, fazem coro Fátima e Baracat, no livro Saúde — A hora é agora. Afinal, interfere muito na qualidade de vida. Por isso, eles recomendam a toda mulher com TPM estes quatro cuidados:

1) Exercite-se regularmente — A atividade física aumenta a fabricação de endorfinas (substâncias produzidas pelo cérebro e que têm efeito analgésico). A maior produção de endorfinas, por sua vez, melhora o nível de serotonina, aliviando depressão, irritabilidade e ansiedade.Escolha alguma atividade que lhe dê prazer. Além de amenizar a TPM, beneficia toda a saúde. Estimula inclusive a formação de massa óssea, evitando a osteoporose.

2) Evite chocolate, café, refrigerantes à base de cola e chá preto — Contêm cafeína e substâncias semelhantes, que aumentam a irritabilidade.

3) Diminua o sal — Isso faz o seu organismo reter menos água.

4) Reduza os enlatados e os embutidos (salsicha, presunto, salame e mortadela) — São ricos em cloreto de sódio, que é usado como conservante. Cloreto de sódio é o nome químico do sal de cozinha.

Detalhe: essas medidas ajudam tanto no tratamento quanto na prevenção da síndrome. Portanto, adote-as já. Abaixo a TPM e os preconceitos!

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Professor Mílton: Para prevenir anencefalia, ácido fólico nas gestantes

Publicado em: 17 de abril de 2012

por Conceição Lemes

É definitivo. A mulher grávida de feto anencéfalo pode  interromper a gestação ou levá-la adiante, sem ter de entrar na Justiça.  Na semana passada por 8 votos a 2, o Supremo Tribunal Federal (STF), num julgamento histórico,  decidiu que, nesses casos, não é crime a antecipação terapêutica do parto.

A anencefalia resulta de um defeito do tubo neural (estrutura embrionária que dá origem ao cérebro e à medula espinhal). O feto não tem cérebro, calota craniana e couro cabeludo.

É uma doença multifatorial. Os cientistas não sabem exatamente a causa. O que sabem é que resulta da interação de componente genético com ambiente. Em outras palavras: existem alguns genes que predispõem à doença e algum fator ambiental faz com que ela se manifeste.

“A ingestão insuficiente de ácido fólico, ou folato, é um dos fatores ambientais”, informa o professor Mílton de Arruda Martins, titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP. “Gestante com deficiência dessa vitamina do complexo B tem maior risco de gerar bebê com defeitos graves do tubo neural, entre os quais anencefalia e espinha bífida [fechamento incompleto da coluna vertebral].”

A boa notícia. Várias pesquisas já demonstraram que existe diminuição de defeitos do tubo neural em bebês cujas mães tomam suplementação de folato na gravidez. O ácido fólico ajuda a prevenir esses graves problemas congênitos.

O ácido fólico é encontrado em castanhas, vegetais de folhas escuras, cereais integrais, levedo, fígado e leguminosas, como feijão e lentilha. Portanto, em mulheres que desejam engravidar, o consumo de alimentos ricos em folato é fundamental. Suplementação significa ingerir comprimidos dessa vitamina do complexo B.

“Além de uma dieta rica em alimentos contendo ácido fólico, é indispensável a gestante fazer de suplementação dessa vitamina”, orienta o professor Mílton de Arruda Martins. “A suplementação deve ser iniciada três meses antes da gestação”.

A razão é simples. Como os defeitos do tubo neural aparecem nas primeiras semanas de desenvolvimento do feto, o ideal é a mulher estar tomando ácido fólico — atenção! — antes de engravidar. Converse  com o seu médico a respeito.

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Unni Karunakara, do MSF: Fazer barulho para que Chagas deixe de ser doença silenciosa

Publicado em: 14 de abril de 2012

Num campo de refugiados na Somália, o dr. Unni Karunakara examina uma criança para fazer triagem desnutrição

por Unni Karunakara, de Médicos Sem Fronteiras

A luta contra a doença de Chagas – uma enfermidade parasitária tropical que afeta entre 8 e 10 milhões de pessoas na América Latina – obteve grandes avanços nos últimos anos. Isso é motivo de comemoração para os pacientes que sofrem com esta doença negligenciada e para Médicos Sem Fronteiras (MSF), que há anos vem trabalhando para melhorar o acesso aos medicamentos para o tratamento de Chagas e fazendo pressão política para que sejam realizadas novas pesquisas e desenvolvidas novas alternativas de tratamento.

O último avanço na luta contra a doença de Chagas foi anunciado no mês passado, quando a Argentina se tornou o segundo país a produzir o benzonidazol, principal medicamento utilizado para o tratamento da enfermidade – antes apenas o Brasil produzia o medicamento.  A iniciativa é fruto de um esforço conjunto do Ministério da Saúde argentino e da ONG Fundación Mundo Sano, também do país.

A demanda por tratamento aumentou de forma significativa nos últimos anos, porque além das crianças, os adultos também estão recebendo tratamento. Novas evidências médicas também mostraram os benefícios do tratamento com benzonidazol para pacientes que estão na fase crônica da doença. Além disso, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) emitiu duas novas resoluções a respeito de Chagas, sobre diagnóstico e tratamento da doença.

No ano passado, recebemos notícias animadoras de que uma nova formulação pediátrica do benzonidazol havia sido registrada no Brasil, cujo desenvolvimento foi apoiado pela Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês). Antes disso, não havia formulação específica para crianças, ainda que a taxa de recuperação da doença seja maior entre elas.

Outros avanços ainda estão a caminho: MSF e a Organização Mundial da Saúde (OMS) estão trabalhando juntas em um estudo para simplificar o diagnóstico por meio de testes mais rápidos. Se os resultados forem positivos, será possível ampliar o diagnóstico de mulheres grávidas que vivem em comunidades remotas afetadas pela doença de Chagas.

Todos esses passos são extremamente significativos. No entanto, com a aproximação do Dia Internacional de Chagas – no dia 14 de abril –, é preciso ter em mente que ainda há uma longa estrada pela frente na batalha para colocar essa doença, negligenciada e silenciosa, em debate. São necessárias novas políticas, mais financiamentos e mais investigações se quisermos realmente dar prioridade à saúde das pessoas que sofrem com a doença.

Atualmente, os programas de Chagas na América Latina dependem de um único laboratório que produz benzonidazol – o laboratório público brasileiro Lafepe (Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco) –, já que a Argentina ainda não começou a produzir o medicamento para exportação. A dependência de apenas um produtor é um grande risco em termos de abastecimento, como foi observado em outubro do ano passado, quando a falta de medicamentos e a ameaça de rupturas de estoque forçaram MSF a suspender a abertura de novos projetos voltados para a doença de Chagas na Bolívia e a reduzir o diagnóstico de novos pacientes no Paraguai por algum tempo. Até o momento, o abastecimento do benzonidazol ainda não está garantido em diversos países.

Nós recebamos com entusiasmo o anúncio do governo argentino de que o país também iria produzir o benzonidazol, e vemos isso como avanço na superação desta vulnerabilidade causada pela existência de apenas um produtor. No entanto, essa notícia não pode ofuscar o fato de que novas pesquisas para o desenvolvimento de novos medicamentos ainda são extremamente necessárias. O benzonidazol e o nifurtimox – outro medicamento utilizado no tratamento da doença de Chagas – foram desenvolvidos há mais de 40 anos e, apesar de serem gerenciáveis com a devida supervisão médica, podem ter diversos efeitos colaterais.

Também é fundamental desenvolver um “teste de cura” da doença, para confirmar se o parasita não está mais no paciente após o tratamento, o que também permitiria avaliar a eficácia de novos medicamentos. Sem um teste como esse, pode ser difícil para MSF convencer as pessoas a buscarem tratamento; e para os pacientes, é ainda mais difícil viver sem saber se o tratamento foi bem sucedido. No momento, existem algumas iniciativas sendo desenvolvidas voltadas para a busca de um teste que poderia confirmar a cura, mas elas não contam com o compromisso e os investimentos de longo prazo necessários para alcançar este objetivo.

A falta de esforços para lutar contra a doença de Chagas é uma ameaça para a vida de milhões de pessoas de todo o mundo que vivem com essa doença sem nem mesmo saber que estão infectadas. Os sintomas podem levar anos para se desenvolver, mas quando a doença alcança seu estágio crônico, ela pode causar problemas cardíacos e digestivos graves que podem ser fatais. A enfermidade é responsável por cerca de 12,5 mil mortes todos os anos.

Pamela, uma paciente de MSF na clínica em Cochabamba, na Bolívia, não sabia que tinha a doença, e transmitiu o parasita a seus dois filhos. “Quando a clínica de saúde confirmou que nós três tínhamos Chagas, eu comecei a chorar, porque meus filhos – a única família que tenho – estavam doentes e isso era minha culpa”, ela disse. A história de Pamela se repete em áreas rurais de todo o continente americano. Felizmente, ela e as crianças conseguiram receber o tratamento gratuito na clínica de MSF. Mas milhares de pessoas não têm a oportunidade de serem diagnosticadas e receberem tratamento para a doença.

Em 2009, no centenário da descoberta da doença de Chagas, MSF promoveu a campanha “Chagas: É hora de romper o silêncio”, para conscientizar mais pessoas a respeito da doença e pedir aos governos que priorizassem o acesso ao diagnóstico e tratamento da doença para as pessoas mais afetadas. E apesar dos avanços, ainda é necessário repetir esse apelo hoje. Até o dia em que Chagas deixe de ser a “doença silenciosa”, precisamos continuar fazendo barulho.

O dr. Unni Karunakara é presidente internacional da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF). Formado pela Universidade Médica de Kasturba,  Índia,  estudou saúde pública nas universidades Johns Hopkins e  Yale , nos Estados Unidos. Começou a trabalhar com MSF em 1995, quando foi incumbido de criar um programa de controle de tuberculose em Jijiga, na Etiópia. Trabalhou em um projeto de saúde indígena na Amazônia e no combate a doença do sono na República do Congo.

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