20

Mães e pais, atenção: Pasta com flúor, só após os 5 anos de idade

Publicado em: 30 de novembro de 2012

por Conceição Lemes

Que imagens veem à sua cabeça quando o assunto é higiene bucal da criança?  Nós apostamos. Quase certamente uma delas é aquela do menininho ou menininha se esforçando para alcançar a pia do banheiro para escovar os dentes. Acertamos?

“Só que a higiene bucal deve ser feita desde o nascimento”, alerta o cirurgião-dentista Marcelo Fava, diretor do Departamento de Odontologia do Instituto da Criança da Faculdade de Medicina da USP. “Deve ser iniciada antes mesmo de aparecerem os dentinhos.”

Com a ponta da fralda ou gaze umedecida, higienize a boca do bebê após cada mamada ou refeição. É para tirar os resíduos de leite e alimentos que, em contato com as bactérias locais, causam cáries.  Limpe gengiva, língua, céu da boca, parte interna das bochechas e dentes, se houver.

Blog da Saúde — Por que fazer a higiene bucal desde o nascimento se os dentinhos só aparecem aos 6 meses de idade?

Marcelo Fava — É para a mãe já ir se acostumando, a fazer a limpeza. Também para evitar a replicação das bactérias que provocam cáries.

Blog da Saúde — Mas os dentinhos podem nascer com cárie caso a mãe não faça a higiene?

Marcelo Fava –Não. As cáries só podem aparecer depois que os primeiros dentinhos (incisivos inferiores, os dois da frente, parte debaixo) despontarem. A higiene bucal é uma questão de hábito. É uma medida educativa. Ela é essencial à promoção da saúde desde o nascimento.

Blog da Saúde –Com que idade deve-se começar a escovar os dentinhos da criança, usando creme dental? 

 Marcelo Fava – A partir de 1 ano de idade. Antes, a higiene bucal é feita com ponta da fralda ou gaze umedecida após cada mamada ou refeição.

Blog da Saúde —  Tem de ser com escova e pasta especiais?

Marcelo Fava – Escova de cerdas macias, pequena, em tamanho adequado à boca da criança. De 1 a 4 anos de idade, a pasta não deve conter flúor.

Blog da Saúde – Por quê?

 Marcelo Fava — A água de muitas cidades – São Paulo, por exemplo, — já contêm flúor.  Mesmo a água mineral, tem certa quantidade. Assim, se juntarmos o flúor da água com o da pasta de dente, já que a criança acaba engolindo sempre um pouco, ela estará exposta duas fontes.  Em conseqüência, pode ter fluorose, ou seja, mancha nos dentes.  Daí a contraindicação de creme dental com flúor onde a água distribuída à população já é fluoretada.

Blog da Saúde – Há pastas infantis sem flúor?

 Marcelo Fava – Sim, mas poucas. Descobrimos duas nacionais (Welleda e Malvatrikids Baby) e uma importada (First Teeth).

Blog da Saúde – Uma criança de 2, 3 anos já pode escovar os seus próprios dentes?

 Marcelo Fava – Como brincadeira, sim. Na frente do espelho, ela imita os pais, aprende os movimentos.  Mas a escovação de verdade, para higienizar mesmo, deve ser feita pelos próprios pais enquanto ela tiver de  1 a 4 anos de idade. A escovação é indispensável após cada refeição.

Blog da Saúde – Com quantos anos a criança pode usar pasta com flúor?

Marcelo Fava – Acima de 5 anos de idade, quando ela já consegue bochechar e cuspir a pasta.

Blog da Saúde – E com quantos anos a criança já pode escovar os seus próprios dentes?

Marcelo Fava – A partir dos 4. Mas sob supervisão dos pais.

Blog da Saúde – Nas propagandas, normalmente a escova fica cheia de pasta. A quantidade mostrada dos anúncios é a recomendada?

Marcelo Fava – Não. Está errada. A quantidade é equivalente a um grão de ervilha. Isso vale todo tipo de creme dental.

Leia também:

Terapeuta ocupacional do Instituto da Criança da USP ensina você a escolher  brinquedo para filho, sobrinho, neto 

Criança tem de praticar esporte ou fazer atividade física em escolinha? O pediatra João Guilherme Alves dá todas as dicas 

1

Ligia Bahia: Manobras inviabilizam silenciosamente o ressarcimento ao SUS

Publicado em: 27 de novembro de 2012

Ligia Bahia: Deixar de arrecadar recursos para o SUS não provoca repulsa na mídia nem na sociedade

por Ligia Bahia, em O Globo

 É tempo de os órgãos responsáveis realizarem um levantamento detalhado das dívidas com a saúde pública. A atual repartição de recursos do fundo público para o SUS e para os planos privados de saúde funciona como cobertor curto.

No momento, gastamos R$ 145,00 per capita por mês para manter contratos privados para uma parcela dos brasileiros e R$ 45,00 com a rede pública assistencial e manutenção de atividades de vigilância à saúde. Embora as despesas com os segmentos vinculados aos planos e seguros sejam três vezes maiores do que as relativas ao restante da população, ninguém está satisfeito.

As explicações para o crescimento das reclamações relacionadas com as restrições e negações de atendimento são óbvias. Para começar, os valores disponíveis, embora significativamente maiores para a parcela com plano privado, são insuficientes para os propósitos de garantir acesso e uso de serviços previstos pela legislação brasileira. Em segundo lugar, três vezes mais gastos privados não resultam no triplo de meios disponíveis para o atendimento.  Como o valor médio dos contratos é inferior ao requerido para o cumprimento das garantias obrigatórias, a conta só fecha empurrando custos de clientes de planos e seguros para o SUS.

Todos já perceberam que as práticas predatórias do SUS pelas empresas de planos de saúde tornam o setor privado e o SUS insustentáveis. De um modo bem amplo, existem duas alternativas para lidar com o problema. Uma é o confronto com o real e as responsabilidades de apresentar possibilidades de saída. Outra é a repetição de enunciados genéricos sobre o período de transição em que vivemos e as mudanças velozes na saúde.  No momento, prevalece o desalento diante das dificuldades para nos movermos de um sistema de saúde segmentado para a efetivação da saúde como direito universal.

Uma prova irrefutável da escolha pelo aumento da transferência de custos dos esquemas assistenciais privados para o fundo público é a situação do ressarcimento ao SUS. O pagamento do atendimento de clientes de planos e seguros de saúde na rede do SUS foi aprovado em 1998 pela lei que regulamentou as empresas de planos e seguros de saúde.

Desde então, instituições como o Supremo Tribunal Federal, a partir de 2004, e o Tribunal de Contas da União confirmaram a legitimidade do texto legal e exigiram a cobrança dos valores devidos ao SUS. Dirigentes da ANS [Agência Nacional de Saúde Suplementar], arrolados com supostas irregularidades referentes à morosidade na análise dos processos e o retardamento no envio de cobranças não pagas para inscrição na Dívida Ativa, julgadas em 2012, foram instados a pagar uma multa individual de R$ 5.000,00.

A dedicação profissional dos acusados e a alegada precariedade das condições para executar tempestivamente o ressarcimento ao SUS atenuaram a punição. Para atender o TCU [Tribunal de Contas da União], a ANS contratou mais 89 funcionários em caráter temporário e todo esse empenho resultou finalmente no pagamento, em 2011, de R$ 76 milhões, referentes a dois anos de ressarcimento. Esta quantia corresponde a menos de 5% das receitas das empresas.

Apesar das cobranças, a política de ressarcimento continua francamente favorável à seleção de procedimentos notificados e impugnação das empresas nas diversas instâncias de percurso dos processos. Atualmente, o foco de disputa das empresas de planos se deslocou da briga jurídica sobre a constitucionalidade do pagamento ao SUS para a prescrição das dívidas após cinco de anos.  Ou seja, as empresas não ressarciram o SUS e pretendem driblar a indicação do TCU da obrigatoriedade de anotação de suas dívidas virtuais.

Provavelmente, haverá outro longo intervalo que as protegerá do pagamento por procedimentos de alto custo ambulatorial e atendimentos de urgência e emergência.

As disputas jurídicas e os labirintos administrativos inviabilizam silenciosamente o ressarcimento ao SUS.  Mas deixar de arrecadar recursos para o SUS não provoca repulsa. Na semana passada foi divulgado o pregão eletrônico nº 37, anunciando a contratação de uma empresa especializada para apoiar a Gerência de Ressarcimento da ANS. Subentende-se que o uso de mais dinheiro público, no contexto de aumento das pressões para abrandar as normas regulamentadoras, entre as quais o cumprimento dos prazos para agendamentos, não será um delito grave.

Em contraste, o noticiário sobre a arrecadação de recursos não orçamentários pela UFRJ virou a verdade pelo avesso. O Reitor Aloísio Teixeira inovou ao negociar uma contrapartida junto ao Banco do Brasil situado na universidade. A receita adicional de R$ 43 milhões, transferidos à fundação de apoio, permitiu concluir diversos projetos prioritários, entre os quais a construção do bandejão. Esse singelo procedimento, ainda não julgado pela Controladoria Geral da União, foi enfaticamente divulgado pelo noticiário.

A perspectiva de transformar o mundo presente num mundo melhor, no qual todos prestam contas e estão sujeitos à interpelação, difere radicalmente da crença de que só é possível confiar no bom comportamento de seres humanos algemados e amordaçados.

Aloísio Teixeira, o homem público, o professor, fazia questão de prestar contas detalhadas de suas gestões em diversos órgãos públicos. Nosso Reitor jamais aceitou reduzir sua função de servidor do Estado à de um funcionário que vive do saber e não para o saber.  A responsabilidade pública não se limita à eficiência e alcance de metas, e sim à apropriação de mudanças tecnológicas, culturais e políticas para melhorar o desempenho institucional. Saber que as apurações de todas as acusações, incluindo as referentes à UFRJ, deve também abranger as omissões para obtê-los confere um sentido democrático e republicano ao controle das verbas públicas.

Ligia Bahia é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E-mail:[email protected]

6

Violência obstétrica: Em vídeo, brasileiras denunciam abusos, maus tratos e sofrimento nas mãos de profissionais de saúde

Publicado em: 25 de novembro de 2012

por Conceição Lemes

Neste 25 de novembro, faz exatamente um ano que um grupo de mulheres ligadas à área de saúde e/ou interessadas em questões referentes a parto realiza ações coletivas nas mídias sociais. Objetivos: dar mais visibilidade à violência obstétrica e desnaturalizar  as infrações aos direitos das mulheres, que são cometidas pelos profissionais de saúde e muitas vezes passam desapercebidas.

“São ações organizadas por usuárias, pesquisadoras e profissionais da saúde para promover o debate, sensibilizar, denunciar essas questões “, diz Ana Carolina Franzon, que edita o blog Parto no Brasil em parceria com Bianca Lanu.  “Prosseguiremos até que políticas públicas efetivas sejam promovidas no sentido de erradicar a violação dos direitos humanos das mulheres no parto.”

Em 2010,  os dados sobre a violência da pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privadorealizada pela Fundação Perseu Abramo e o SESC, chamaram muito a atenção do grupo. E um dado se destacou: uma cada quatro mulheres (25%) relatou ter sofrido algum tipo de violência na hora do parto.

Entre as possíveis formas de abusos e maus-tratos, sobressaíram:  exame de toque doloroso, recusa para alívio da dor,  não explicação de procedimentos adotados, gritos de profissionais ao ser atendida, negativa de atendimento, xingamentos e humilhações.

Além disso, 23% das entrevistadas ouviu de algum profissional algo como: não chora que ano que vem você está aqui de novona hora de fazer não chorou, não chamou a mamãese gritar eu paro e não vou te atenderse ficar gritando vai fazer mal pro neném, vai nascer surdo.

Por isso, neste 25 de novembro, Dia Internacional para Eliminação da Violência contra as Mulheres, o grupo está lançando o videodocumentário popular Violência obstétrica — A voz das brasileiras, produzido entre outubro e novembro deste ano. Os responsáveis pela iniciativa:

Ana Carolina Franzon, jornalista, pesquisadora em Saúde Pública, integrante do grupo de pesquisa sobre Gênero, Maternidade e Saúde ( GEMAS), da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Bianca Lanu,cientista social, produtora cultural e educadora perinatal.

Bianca Zorzam,  obstetriz, aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da USP.

Lígia Moreiras Sena, bióloga, aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Catarina, e responsável pelo blog Cientista Que Virou Mãe.

Kalu Brum, jornalista, doula e coeditora do blog Mamíferas.

Armando Rapchan,  fotógrafo e videomaker.

Conversei um pouco mais com Ana Carolina sobre esse trabalho.

Blog da Saúde — Violência obstétrica traduz bem os maus tratos e abusos que sofrem as mulheres quando internadas numa maternidade. Essa expressão foi criada pelo blog?

Ana Carolina Franzon — Não. Foram as próprias mulheres do movimento que cunharam o termo violência obstétrica para tais práticas.

 Blog da Saúde —  Por que videodocumentário popular?

Ana Carolina Franzon — Trata-se de uma ação de ciberativismo, realizada quase que exclusivamente via mídias sociais, coordenada por usuárias e pesquisadoras da área da Saúde Coletiva.

Chamamos de “videodocumentário popular”, porque priorizamos a experiência das usuárias de saúde para elaborar e difundir este conceito “violência obstétrica”. Também qualificamos como uma produção da subárea da Comunicação Social, a Comunicação Popular e Comunitária, que compreende produtos de informação de caráter não-empresarial.

Blog da Sáude — Os vídeos foram gravados por vocês ou pelas próprias mulheres e/ou familiares? 

Ana Carolina Franzon — Inicialmente, montamos um roteiro para os depoimentos. Que formas de desrespeito você viveu em seu parto? Como isso te afetou física e emocionalmente? Qual o seu objetivo com esse depoimento?.

Depois, por meio de uma divulgação nas mídias sociais, convidamos as mulheres para participar. Pedimos vídeos com depoimentos,  fotografias com descrições das imagens… Assim, todas as mulheres que estão no vídeo participaram de forma espontânea e voluntária.

Os vídeos foram gravados em webcam, celular ou máquina fotográfica pelas próprias mulheres, que se auto-selecionaram para participação. Optamos por manter esta característica de “comunicação popular”, como você poderá ver.

Por fim,  fizemos um roteiro para edição final. Aí, contamos com os trabalhos – também voluntários – de um fotógrafo e videomaker. Fizemos tudo isso em apenas um mês.

Blog da Saúde — Me fala um pouco sobre o vídeo. 

Ana Carolina Franzon — O filme retrata a experiência das mulheres brasileiras com o nosso atual modelo de assistência ao parto, que já foi definido por Maria do Carmo Leal (ENSP/FIOCRUZ), coordenadora do Inquérito Nacional Nascer no Brasil, como um “modelo obstétrico doente e adoecedor”.

Aliás, os nossos atuais indicadores de saúde reprodutiva são igualmente preocupantes:

* Anualmente, temos  no país um milhão de cesáreas desnecessárias.

* Temos uma assistência ao parto normal excessivamente medicalizada e intervencionista, com abuso de procedimentos obsoletos, que já deveriam ter sido erradicados há muitos anos.

* Cerca de 90% das mortes maternas evitáveis estão relacionadas à qualidade insuficiente dos serviços obstétricos.

* A péssima qualidade das informações dos prontuários sobre procedimentos obsoletos, dolorosos, e até arriscados à saúde. Por exemplo, a episiotomia (corte no períneo) e a manobra de Kristeller (pressão externa no fundo do útero para expulsão do bebê).

* A negação do direito de escolha das mulheres e o impedimento de sua autonomia pela ausência completa de consentimentos esclarecidos.

* Infração institucional da Lei do Acompanhante (de 2005), que ocorre de modo ordinário e impune.

Esses mesmos problemas ocorrem com as mulheres que buscam os serviços de saúde para planejamento reprodutivo e abortamento, com todos os agravantes que a ilegalidade provoca.

Blog da Saúde — O vídeo traz histórias dolorosas. Vocês já sabiam que iriam encontrar essa situação?

Ana Carolina Franzon– Sim, porque nas pesquisas que realizamos em Saúde Coletiva temos uma trajetória de escuta das mulheres. As pesquisas sobre a qualidade da assistência compreendem: a efetividade das condutas clínicas, a segurança das pacientes e sua experiência emocional com todo o processo de cuidado.

Estamos fazendo uma escolha consciente, quando priorizamos a perspectiva que as mulheres têm de todos os direitos reprodutivos que lhes foram subtraídos pela instituição ou pelos profissionais das maternidades.

 Blog da Saúde — O vídeo é uma denúncia.

Ana Carolina Franzon — Sem dúvida, sim. Há um ano a nossa grande questão é desnaturalizar essa forma de violência contra as mulheres, violência de gênero. Dar visibilidade aos direitos humanos das mulheres na gravidez, parto, pós-parto, planejamento reprodutivo e abortamento – que são os próprios direitos reprodutivos.

Temos uma reação muito comum e corriqueira – especialmente anunciada por profissionais de saúde – que é de desmerecimento da questão, uma tentativa talvez até inconsciente de naturalizar os maus-tratos e invisibilizar a questão.

Já ouvimos de tudo um pouco: que estamos transformando “problemas médicos” em fatos policialescos; que não temos a mínima ideia da violência que os próprios profissionais sofrem do sistema de saúde – como se uma violência justificasse a outra; que tudo não passa de uma escolha ou descompensação/exagero por parte das mulheres.

O problema da invisibilidade é que as mulheres ficam fadadas ao silêncio e à individualização, personalização, do dano. Ou seja, não conseguimos politizar o debate, e continuaremos anos e anos sofrendo em silêncio, mas “felizes porque ao menos o bebê está bem”.

Também temos como resultado a responsabilização da fisiologia do parto pelos danos iatrogênicos.  Parto normal não é terrível por si – como descreve a Bíblia cristã.  É a assistência que pode piorá-lo — e muito.

Blog da Saúde — Com base nas suas pesquisas e neste vídeo, o que recomendaria? 

Ana Carolina Franzon — Sempre encorajamos as mulheres a buscarem informações alternativas sobre os processos da gravidez, parto e pós-parto, com valorização da troca de experiências.

Infelizmente, a realidade dos serviços hoje, de modo geral, não consegue viabilizar a “escuta das mulheres” – suas histórias de vida são geralmente marcadas por situações que não devem ser compartilhadas em grupos, e é assim que os serviços as silenciam. Queremos resgatar os benefícios dos grupos populares de apoio, com rodas dialogadas sobre direitos e cidadania – além de informações sobre fisiologia da gravidez e parto, com esclarecimento sobre riscos e benefícios.

Temos hoje grupos voluntários de apoio entre usuárias, que existem na maior parte das capitais e em algumas cidades do interior. A Rede Parto do Princípio mantém uma lista periodicamente atualizada com as informações destes grupos.

Além disso, temos uma agenda de pesquisa e políticas públicas que inclui a criação de indicadores específicos para o parto, para que seja possível monitorar e avaliar a qualidade da assistência. Enquanto todos os procedimentos não estiverem bem monitorados, continuaremos produzindo uma cultura de fobia do parto normal, como se os danos fossem próprios da fisiologia e não, da iatrogenia. E o número de cesáreas tenderá a aumentar.

Acima de tudo queremos colaborar para a mudança do modelo de assistência ao parto, hoje centrado no bem-estar do provedor de saúde e não da mulher. Para termos experiências mais satisfatórias, precisamos:

* ter autonomia sobre nossos corpos;

* de esclarecimentos verdadeiros sobre riscos e benefícios dos procedimentos:

*ter liberdade de posição durante o trabalho de parto e parto, com incentivo ao parto normal em posição verticalizada;

* analgesia de qualidade para todas as mulheres;

* e o cumprimento estrito da Lei do Acompanhante, que prevê sua permanência junto da mulher durante toda a internação.

Eu assisti ao vídeo. Estarrece. Vale a pena conhecê-lo.Embora  as mulheres pobres e as negras sejam as as principais vítimas da violência no parto, aquelas de alto poder aquisitivo, que têm os seus bebês em hospitais famosos, não estão livres do problema.

2

Lígia Bahia: Saúde, interesse público e a ótica mercantil

Publicado em: 18 de novembro de 2012

por Lígia Bahia, em O Globovia Blog do Cebes

A vacinação obrigatória e a doação de sangue pública são quase consensuais como ideias e estão inseridas nas práticas de todas as instituições nacionais e internacionais de saúde. Contudo, os processos de publicização dessas e de outras ações de saúde foram muito polêmicos. No Brasil, a imposição da vacina contra a varíola, no contexto de saneamento e remodelação urbana do Rio de Janeiro (então uma cidade pestilenta), se transformou num campo de batalhas.

Em 1904, o episódio conhecido como Revolta da Vacina expressou o crescente descontentamento popular contra a perda de suas casas pelo “bota-abaixo” do então prefeito Pereira Passos, o temor da inoculação de um vírus que conduziria “à moléstia ou à morte”, a oposição política a Rodrigues Alves e ainda a intelectuais como Ruy Barbosa, defensor da liberdade de escolha dos indivíduos sobre seu próprio corpo.

A melhor maneira de obter sangue humano para finalidades médicas também gerou intensos debates nos anos 1970. O inglês Titmuss, professor de política social, afirmou a superioridade da doação voluntária para garantir estoques adequados e qualidade do sangue para transfusões. Em sentido oposto, o americano Arrow, laureado com o Prêmio Nobel de Economia, buscou comprovar que uma hipótese, baseada no desencorajamento do altruísmo por incentivos monetários não teria robustez teórica para se opor à tese segundo a qual o mercado aumenta o espectro individual de escolha e propicia maiores benefícios.

A distância histórica que nos separa desses embates pode induzir a uma conclusão apressada sobre vencidos e vencedores. Especialmente, depois da Aids, os clamores sobre a compatibilidade entre a doação e venda de sangue se tornaram inaudíveis. Mas as escaramuças movidas por inspirações filosóficas sobre o direito à liberdade de escolha e normas públicas visando à proteção da saúde não cessaram.

As recentes ponderações sobre a indevida intervenção governamental no controle de medicamentos e uso do álcool por motoristas, embora muitas vezes motivadas apenas pela defesa das empresas produtoras, retomam o apelo à inviolabilidade do direito à liberdade individual. Contudo, a resolução do entrechoque entre direitos da vender e comprar produtos, bens e serviços que causem danos à saúde, baseia-se em contraevidências, tais como as da redução de acidentes e reações adversas. As decisões sobre a proteção da população de riscos não variam com os graus de transigência sobre a liberdade.

Consequentemente, a insistência de alguns libertários de ocasião de designar à saúde pública o papel de antagonista dos direitos individuais só embola a discussão. Aderir à liberação do uso de agrotóxicos pela manhã e internação compulsória de usuários do crack à tarde é incompatível com a defesa incondicional da liberdade.

O convencimento sobre a adequação da saúde à ótica puramente mercantil e a respeito do isolamento involuntário de grupos sociais para preservar a ordem não deriva necessariamente de conjecturas filosóficas nem presunções políticas completamente explícitas. A lógica de definição dos atributos públicos ou comerciais da saúde não está totalmente atrelada aos desígnios do livre arbítrio. O Obamacare só se viabilizou após a depuração dos interesses das empresas que comercializam planos de saúde e dos argumentos sobre a caduquice dos sistemas públicos.

Admitir a melhor qualidade e menores preços de sistemas públicos de saúde não significa concordar com a suspensão autoritária dos direitos humanos. Nenhuma dissertação científica terá soluções para os questionamentos sobre que tipo de sociedade queremos. Não é preciso comprovar a solidez das bases de solidariedade e o altruísmo para informar decisões sobre a natureza não mercantil de determinadas ações de saúde.

Sangue e órgãos não devem ser vendidos

O disse-me-disse do momento refere-se à comercialização de direitos assistenciais.

A autovenda da Amil, líder brasileira do setor de planos privados, para a americana UnitedHealth é um sinal inequívoco das mudanças mundiais nos sistemas de saúde.

A crise econômica e os rigores da regulamentação de coberturas e preços nos Estados Unidos estimulam a abertura de vias colaterais para manter níveis de ganhos com planos privados de saúde em países de renda média.

Paralelamente, os cortes no financiamento do sistema de saúde português atraíram investimentos da Amil decorrentes das recomendações do FMI e União Europeia de repassar a gestão de hospitais da Caixa Geral de Depósitos à iniciativa privada. Nesses casos, nem todas as mercadorias possuem dimensões concretas.

As transações envolvem o número de “vidas” seguradas, a perspectiva de crescimento do consumo de planos de saúde no Brasil, a certeza sobre o fracasso do SUS e o prolongamento da recessão na Europa. O preço médio de cada vida vendida pela Amil foi aproximadamente R$ 1.200.

O fracasso de Pável Tchítchicov, personagem do livro “Almas mortas”, de Gogol, ao procurar fazer fortuna com a compra de listas de servos falecidos em regime de escravidão, é ficção.

Mas tanto as fortunas obtidas pela elevação e posterior queda do valor das vidas comercializadas pela Amil, em função da provável redução dos preços de suas ações, quanto à depreciação da do SUS são fatos.

Lígia Bahia é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

11

Aborto legal no Brasil: Um superguia com 139 dúvidas esclarece tudo. Confira!

Publicado em: 8 de novembro de 2012

Miryam Mastrella:  “O cuidado ético e o esclarecimento das equipes de saúde refletem diretamente na qualidade  do acolhimento dos serviços”

 

 

 

 

 

 

 

por Conceição Lemes

Sediada em Brasília, a Anis — Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero — lançou recentemente o guia documento Aspectos éticos do atendimento ao aborto legal: perguntas e respostas.

Destinado a profissionais de saúde, ele esclarece  dúvidas e questões éticas  sobre o aborto previsto em lei. Tem duplo objetivo: melhorar o acesso das mulheres aos serviços de aborto legal de todo o País e auxiliar as equipes multidisciplinares que neles atuam.

O guia é riquíssimo (na íntegra, ao  final deste post). Contém 139 perguntas e respostas,  fruto de pesquisa de campo em centro de referência no setor. Ela foi coordenada  por Débora Diniz, antropóloga e professora da Universidade de Brasília (UnB), e Vanessa Dios, psicóloga do Instituto. A supervisão  ficou a cargo da socióloga Miryam Mastrella, doutoranda em Sociologia pela UnB e pesquisadora da Anis, que me concedeu esta entrevista:

Blog da Saúde — Como surgiu a ideia do guia Aspectos éticos do atendimento ao aborto legal: perguntas e respostas? 

 Miryam Mastrella — Foi durante a análise de dados da pesquisa As emoções e sentimentos morais frente o aborto legal, que a Anis realizou entre abril de 2011 e março de 2012 num serviço de aborto legal de um hospital da rede pública de saúde. Nós queríamos conhecer o cotidiano do serviço e o processo de negociação moral entre a mulher que busca assistência e a equipe de saúde. Aí, inspiradas pelos dilemas e dúvidas vivenciados por esses profissionais, resolvemos dar um passo além. Nasceu o guia.

Blog da Saúde — Qual é o público-alvo? 

Miryam Mastrella — São os profissionais que atuam nos serviços de aborto legal do país. Acreditamos que o cuidado ético e o esclarecimento das equipes de saúde refletem diretamente na qualidade do acolhimento oferecido às mulheres que procuram os serviços.

Blog da Saúde — Eu já “folheei” o guia e vi que tem orientações muito úteis. Ele pode ser lido pela população em geral?

Miryam Mastrella — Sem dúvida alguma. É uma ótima fonte de informação para a população, especialmente as mulheres, sobre o aborto legal e funcionamento dos serviços.

Blog da Saúde —  Percebi que o guia é dividido em temas. Como chegaram a esse rol?  

Miryam Mastrella — De fato, são  14 eixos temáticos, cada um número com número variado de questões, elaboradas a partir das vivências dos profissionais do serviço pesquisado.

Os 14 eixos são estes:

* direitos sexuais e direitos reprodutivos;

* direito ao aborto na legislação brasileira;

* serviços de aborto legal;

* aborto em caso de violência sexual;

* aborto em caso de risco à saúde da mulher;

* antecipação terapêutica do parto em caso de anencefalia;

* consentimento em relação ao aborto;

* aspectos éticos do acolhimento;

* cuidados;

* particularidades vivenciadas pela mulher;

* particularidades vivenciadas pela adolescente;

* dificuldades em relação à realização do aborto;

* dificuldades vivenciadas pela equipe de aborto legal;

* serviço de aborto legal e crenças religiosas ou filosóficas.

Algumas dúvidas acabaram se subdividindo, por isso chegamos ao total de 139 perguntas e respostas.

Blog da Saúde — No seu entender, quais os principais equívocos de profissionais de saúde em relação ao aborto legal?

Miryam Mastrella —  Alguns pontos precisam ser mais trabalhados com os profissionais das equipes. Entre eles, a questão dos documentos necessários para a realização do aborto nos casos em que a lei prevê.

No caso violência sexual, por exemplo, não é necessário apresentar boletim de ocorrência policial ou laudo do Instituto Médico Legal para a realização do aborto. Basta o consentimento escrito, assinado pela mulher ou representante legal, que é anexado ao prontuário. É o documento mais importante para a equipe de saúde. A mulher, no entanto, deve ser informada sobre o significado do registro policial e a importância da notificação da violência. É que a falta da ocorrência policial pode dificultar que o agressor seja punido.

A questão da objeção de consciência também é um ponto que merece atenção. Explico. Médicos que são manifestamente contrários  aborto previsto em lei não devem fazer parte dessas equipes.

Há ainda outros mecanismos que afetam o funcionamento de um serviço de aborto legal, revelando a importância do comprometimento dos gestores locais para que a política pública seja implementada. Entre tais mecanismos, podemos listar a falta de profissionais em número suficiente para realizar o atendimento, a falta de divulgação sobre as situações em que a lei prevê o aborto, a falta de divulgação dos serviços de aborto.

Blog da Saúde — Que consequências esses mecanismos que afetam o funcionamento de um serviço legal de aborto podem ter na saúde das mulheres que se submetem ao aborto?

Miryam Mastrella — Podem impedir o acesso à realização do aborto ou atrasar o procedimento. Sabemos que quanto mais cedo for feito o aborto, menores são os riscos à saúde da mulher.

Blog da Saúde — Supondo que uma mulher queira interromper a gravidez por alguma das razões previstas na legislação, que  recomendações você daria?

Miryam Mastrella –– No Brasil, a mulher, sem não quiser, tem o direito de não prosseguir com a gravidez em três situações: violência sexual, risco de vida e anencefalia.

Nesses casos, a mulher deve procurar o serviço de aborto legal mais próximo, para se consultar com a equipe multiprofissional. Em caso de violência sexual, é importante que o serviço seja procurado o mais breve, já que o procedimento só é autorizado até a 20ª semana de gestação.

Nas cidades em que o serviço de aborto legal ainda não estiver implementado, a mulher deve buscar hospitais que acolham vítimas de violência sexual ou que cuidem de gravidez de risco.

Blog da Saúde — E para a mulher que não se enquadra entre as causas previstas em lei, o que recomendaria? 

Miryam Mastrella — Exceto nos casos de violência sexual, risco de vida para a mulher ou anencefalia, o aborto no Brasil ainda é crime.

AbortoLegal PDF

2

CFM proíbe empresas de realizar testes para detectar uso de drogas em candidatos a emprego; é eticamente inaceitável

Publicado em: 6 de novembro de 2012

do site do Conselho Federal de Medicina (CFM)

A solicitação de exames de urina ou sangue para saber se o candidato a uma vaga de emprego faz uso de drogas ilícitas foi considerada eticamente inaceitável pelo plenário do CFM. O assunto é tema do Parecer 26/12, apresentado pelo conselheiro representante de Minas Gerais, Hermann von Tiesenhausen (na íntegra, abaixo).

A opinião baseou-se em princípios do Código Civil, da Constituição Federal e do Código de Ética Médica (CEM). O documento aprovado pelo CFM diz que “os exames exigidos pela empresa devem ser aqueles previstos na legislação específica, visando sempre a avaliação da capacidade laborativa do empregado, caracterizando- se discriminatória qualquer exigência que extrapole os requisitos técnicos para a função a ser exercida”.

O parecer lembra também “a fragilidade dos testes para substâncias canabinoides, opiáceos e outras que têm seus testes toxicológicos, tanto sanguíneos como urinários, com resultados negativos após a suspensão da droga por cerca de três a trinta dias, o que demonstra cabalmente a fragilidade desses testes toxicológicos”.

Quanto à seleção de candidatos para atuação em áreas de risco, tanto públicas quanto privadas, o CFM orienta: “A alternativa é um exame pré-admissional rigoroso, com exame psicológico e testes específicos, além de avaliação psiquiátrica”.

0

Marcilia Medrado: Empresas desrespeitam legislação de saúde, trabalhadores se contaminam por mercúrio

Publicado em: 1 de novembro de 2012

por Daniele Silveira, de São Paulo, da Radioagência NP

A utilização de mercúrio em indústrias química, elétrica e eletrônica abre a discussão sobre a própria forma de organização dos processos de produção. Metal extremamente tóxico, a exposição ao mercúrio coloca em risco a saúde dos trabalhadores desses setores.

No mês de setembro, o Ministério Público do Trabalho (MPT) entrou com uma ação civil pública contra a fabricante de lâmpadas elétricas Osram Brasil. O órgão pede indenização a dezenas de trabalhadores que contraíram “mercurialismo metálico crônico ocupacional”.

Em decorrência da doença, os trabalhadores desenvolveram graves problemas neurológicos e neuropsiquiátricos como, fraqueza, depressão e mudança de comportamento, perda de memória, nervosismo, desmaios e perda de dentes.

Para entender o mercurialismo metálico e suas conseqüências para a saúde do trabalhador, a Radioagência NPentrevistou a professora Marcilia Medrado Faria da Faculdade de Medicina da USP e do Serviço de Saúde Ocupacional do Hospital das Clínicas.

Para ela, que já atendeu mais de 350 casos de intoxicações crônicas pelo mercúrio, a legislação da saúde ocupacional nesta área não é seguida pelas empresas. Além de muitos trabalhadores não terem uma cobertura médico-social, que também é prevista em lei.

Radioagência NP: Marcilia, no acompanhamento dos casos de mercurialismo metálico, o que chamou mais sua atenção?

Marcilia de Araújo Medrado Faria – É o que normalmente se conhece, desde a idade média, sobre os problemas [de saúde mental] determinados pelo mercúrio. Você tem dois tipos de mercúrio: o mercúrio inorgânico, que é metálico, que são os vapores e dá um efeito a longo prazo, crônico [e, também um efeito agudo]. E você também tem o mercúrio orgânico [determina intoxicação pela ingestão principalmente de peixes e pescados].

Eles podem dar dois tipos de alteração, que são mais comuns, mas basicamente o órgão alvo que o mercúrio atinge é o sistema nervoso central. Como ele atinge o sistema nervoso central podem ocorrer duas síndromes: síndromes mais relacionadas à área neurológica ou síndromes mais na área neuropsicológica. Eu tenho paciente dos dois tipos, mas tem mais as manifestações neuropsicológicas, que dão alterações cognitivas, alterações de coordenação motora e alterações na esfera psíquica. Do ponto de vista do psíquico, eles [os pacientes] têm irritabilidade, ansiedade, depressão, e às vezes alucinação, delírio. Do ponto de vista mais neurológico, às vezes têm problemas motores, problemas de cefaléia (dor de cabeça), tremores. Então, é uma série de manifestações que se enquadram nessas três áreas.

Radioagência NP: Normalmente, como ocorreram as contaminações por mercúrio desses trabalhadores?

MF: A grande maioria são indivíduos que trabalham na indústria e que no processo de trabalho há contato com o mercúrio. A grande maioria é de indústria de produção de lâmpadas, que utilizam mercúrio no processo [produtivo], mas podem ser indústrias de cloro-álcalis, que o mercúrio é utilizado, e outras indústrias como a de monômetros. Eu também tenho indivíduos [pacientes] da área de saúde que trabalharam limpando manômetros, que mede pressão arterial, eles [esterilizavam e] esquentavam esse mercúrio e se contaminaram. E tem um grupo grande de dentistas. Aqui em São Paulo, realmente, é o pessoal que trabalha em indústria, agora você tem uma contaminação grande em garimpos.

Radioagência NP: O sistema público de saúde tem estrutura para atender as pessoas contaminadas?

MF: Esse serviço de saúde ocupacional é um serviço do Hospital das Clínicas. Então, desde 1997, a gente tem atendido, faz uma bateria de exames que são caros, de avaliação de sistema nervoso. Nós temos feito em todos [os pacientes], mas há demora. Há uma necessidade de uma melhora, mas eles passam por uma bateria que envolve exames de imagem, exames de campo visual, auditivo e um acompanhamento. Esses pacientes precisam de acompanhamento psiquiátrico.

Radioagência NP: É possível ter uma desintoxicação total do mercúrio?

MF: Olha, é muito difícil porque o tratamento termina sendo mais um tratamento sintomático. A ansiedade que eles têm, a depressão, as dores que eles têm. Porque como o mercúrio se deposita no sistema nervoso. [Nos casos no curso da exposição] quando o mercúrio está circulando, às vezes, pode usar substâncias que são chamadas “quelantes”. Mas em uma forma crônica é complicado, como é que você vai mobilizar esse mercúrio que está no sistema nervoso? Então, até agora não está muito claro se vai melhorar ou não, por conta que esse mercúrio vai ser depositado em células que são neurônios ou outras células básicas do sistema nervoso.

Radioagência NP: No geral, as empresas têm garantido a segurança do trabalhador que tem contato com o mercúrio?

MF: Nas décadas de 1980 e 1990, a contaminação foi muito grande. Os pacientes tinham mercúrio distribuídos, jogados, eles viam. Eles colocavam a comida em cima de vapor de mercúrio. Parece que houve uma melhora, porque houve uma fiscalização do Ministério do Trabalho, mas a melhora ainda não é total, tem casos recentes de contaminação. No modo geral, nem os diagnósticos [dos trabalhadores possivelmente contaminados] as empresas facilitaram. Foram os órgãos públicos que viram [esse problema]. Em alguns casos as empresas têm afastado [os trabalhadores], mas muitos casos a empresa não afastou e quando vai para o INSS, como precisa conhecer o problema, se o médico que atende não conhece o indivíduo pode ficar com a sintomatologia, com o problema crônico, com a questão incapacitante, sem uma cobertura social. Porque se tem uma legislação da saúde ocupacional, sem se ter direito a essa cobertura.

5

Fátima Oliveira: A judicialização da doença mental é uma praga; em geral, trata as famílias como bandidas!

Publicado em: 16 de outubro de 2012

por Fátima Oliveira, no Jornal O TEMPO

Médica – [email protected] @oliveirafatima_

Dia 10 de outubro é Dia Mundial da Saúde Mental, data em que, em 2012, aconteceu a abertura do 30º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, cujo tema foi “Psiquiatria, ciência e prática médica”.

Pelo que acompanhei no site da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), foi um momento de avaliação da atenção à saúde mental em nosso país e, sobretudo, um espaço para reafirmar a continuidade da campanha “A sociedade contra o preconceito” e o apoio ao projeto de lei “Psicofobia é um crime”.

De iniciativa do senador Paulo Davim (PV-RN), esse emenda o novo Código Penal, criminalizando a psicofobia, o preconceito contra pessoas com transtorno ou deficiência mental, “punindo com pena de dois a quatro anos de prisão ações motivadas pelo preconceito, como impedir a nomeação em cargo público, demitir de empresa ou vetar acesso a transporte ou estabelecimentos comerciais”.

Sou uma curiosa da psiquiatria, área do saber médico sobre a qual aprendi a gostar de ler por necessidade familiar, com o intuito de saber mais para não peregrinar à toa nas estradas da vida. Todavia, até hoje peregrino. No entanto, tenho estofo intelectual e científico para discutir, divergir e concordar – uma situação privilegiada, em comparação com o mundaréu de gente que tem de conviver, sem lenço e sem documento, com familiares com transtornos mentais e ainda tem de ouvir de juízes que “as famílias não querem cuidar dos seus doidos”, quando busca uma internação necessária. Afirmo, a judicialização da doença mental é uma praga que, em geral, trata as famílias como bandidas!

Com a palavra, quem entende do assunto por dever de ofício: “Duas em cada dez pessoas em todo o mundo têm ou já tiveram algum transtorno mental. No Brasil, não é diferente. Apesar disso, não há no país políticas públicas satisfatórias em saúde mental (…).

Segundo dados do Ministério da Saúde, 3% dos brasileiros sofrem com transtornos mentais severos e persistentes, e mais de 6% da população tem transtornos psiquiátricos graves decorrentes do uso de álcool e drogas: 12% da população necessita de algum atendimento em saúde mental. O problema é que o sistema de atendimento ao doente mental não atende às expectativas dos especialistas e às necessidades dos pacientes.

A Política Nacional de Saúde Mental foi instituída com o objetivo de consolidar um modelo que garantisse o convívio do doente com a família e a comunidade. As diretrizes procuraram evitar as internações em hospitais psiquiátricos. Com isso, unidades foram fechadas, equipes desestruturadas e leitos desativados. Entre 2002 e 2011, quase 20 mil leitos psiquiátricos foram extintos no SUS. Um dos instrumentos utilizados para promover a reforma foram os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), até hoje insuficientes e sem estrutura física e/ou equipes profissionais de atendimento.

Ao fim de 2011, o Brasil possuía 1.742 Caps. Segundo o Ministério da Saúde, essa quantidade atende 72% da população, mas o que vemos na realidade é bem diferente.

Os números trazem outros agravantes. Apenas cinco unidades do total de Caps em funcionamento, em todo o país, estão abertas 24 horas, sete dias por semana, para receber pessoas que fazem uso de álcool e drogas; é precário o tratamento do doente mental na rede de atenção básica à saúde, e poucos são os hospitais que oferecem atendimento ambulatorial” (ABP,  9 de outubro de 2012).

Com a palavra, o ministro da Saúde, que precisa dar uma resposta à altura do caos.

4

Isabel Bressan alerta: “Compra da Amil pela UnitedHealth forçará a adoção no Brasil do modelo americano de saúde”

Publicado em: 14 de outubro de 2012

por Isabel Bressan, no Blog do Cebes

Pouco tempo depois da Inglaterra mostrar ao mundo, na abertura das Olimpíadas de Londres, o orgulho nacional por seu sistema de saúde público universal e igualitário, vemos com vergonha a assistência à saúde de cinco milhões de brasileiros ser vendida para uma empresa americana atraída pela grande expectativa de lucro do mercado de planos de saúde brasileiro que não para de crescer.

Orgulho inglês por um sistema de saúde que acolhe nos momentos de dor e sofrimento, que salva da morte, que cuida sempre e não deixa ninguém para trás. Vergonha brasileira por um mercado que barganha “vidas” em busca do lucro fácil. Que ameaça nossa soberania como cidadãos de um país vendo sua aposta na garantia assistencial sendo colocada nas mãos de estrangeiros imperialistas, que querem tomar de assalto a Saúde no Brasil, atraídos por “um mercado de crescimento dos planos de saúde com políticas de estímulo em favor do setor de saúde suplementar” como exaltou Stephen J. Hemsley, presidente e CEO da UnitedHealth Group. Ele quer investir maciçamente em planos para as classes C e D, até que o Brasil fique igual aos EUA, onde 80% da população possui esses planos e onde não há crime algum em colocar na rua doentes que não podem mais pagar a conta no hospital.

Será que precisaríamos passar por esse vexame de ser outra vez o quintal americano? Não, se o investimento público em saúde no SUS fosse decente e nos acolhesse a todos no nosso sistema de saúde público universal e igualitário, o SUS. Em vez disso prosperam as tais “políticas de estímulo em favor do setor de saúde suplementar” como o pagamento de planos privados para funcionários públicos as isenções de impostos para pessoas e empresas que pagam planos de saúde, os equipamentos caros que o governo compra para uso dos planos de saúde, o uso dos serviços dos SUS pelos beneficiários dos planos que não são cobrados das operadoras, etc. Tudo em nome de estímulos ao crescimento do mercado privado de planos, para quê? Para ter nossa vida colocada nas mãos de mercadores estrangeiros? Para ter informações estratégicas sobre a necessidade brasileira de medicamentos e insumos nas mãos de estrangeiros?

É interessante notar que, recentemente, surgiram pressões para que a Lei dos planos de saúde fosse alterada de modo a permitir a venda de planos com cobertura limitada a consultas e exames mais simples, o que se tornaria rapidamente na grande porta de entrada torta do SUS. Ou para permitir o lançamento de planos individuais com alto percentual de co-pagamento dos beneficiários para internações, tratamentos de câncer etc, levando as pessoas a buscar esse tratamento no SUS para que não empobreçam pagando suas dívidas com as operadoras.

Tudo em nome de atrair investidores para o mercado brasileiro. Ou talvez para diminuir os gastos das operadoras cobrando dos “aposentados e hipocondríacos que não têm o que fazer e vão aos centros médicos tomar café e se consultar”, como o dono da Amil definiu seus clientes para um grupo  de analistas financeiros, segundo publicou o Jornal O Povo do Ceará.

Certamente o investidor americano acredita que caminharemos para ser como nos EUA, onde o governo paga por planos mequetrefes para pobres e idosos, garantindo para as empresas de saúde uma renda imensa gerada pelo subsídio público. Não por coincidência há um projeto de lei nesse sentido, de uma deputada federal do Ceará, que propõe o pagamento de um adicional em dinheiro para quem recebe Bolsa Família, para aquisição de plano de saúde. Há também uma sugestão de representantes das seguradoras de saúde de que o governo complemente o pagamento de planos  para idosos como forma de compensar os preços exorbitantes que cobram das pessoas com mais de 60 anos. Tudo com o dinheiro que certamente faltará ao SUS e aumentará o lucro das empresas.

Outros estímulos já estão surgindo no meio parlamentar como aquele projeto de um senador que propõe que os gastos com planos de saúde pelas empresas possam ser deduzidos do valor do recolhimento para a Previdência Social, fora as desonerações que já estão tirando dinheiro que deveria ir para a seguridade social incluindo o SUS.

Enfim, trata-se de uma nova ameaça à conquista de nosso efetivo sistema público universal e gratuito como a Constituição Brasileira manda que seja a Saúde no Brasil, pois conforme destacou um considerado consultor empresarial, a compra da Amil por essa empresa americana deverá forçar a adoção de um novo modelo de saúde no Brasil – o modelo americano.

UnitedHealth, go home!

Isabel Bressan é diretora do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes).

3

Você sabe escolher brinquedo para filho, sobrinho, neto? Terapeuta ocupacional do Instituto da Criança da USP dá dicas preciosas

Publicado em: 10 de outubro de 2012

por Conceição Lemes

Principalmente em época de Natal e Dia da Criança, anúncios maravilhosos de brinquedos invadem a mídia.  Não são publicidade de brinquedos em geral. São produtos de marca, dos artistas X e Y ou de herois de desenhos e filmes infantis da hora. Tudo feito para conquistar a criançada.

Os “consumidores” ficam extasiados, claro. Os pagadores (pais, avós, tios) ficam…

Bem, os pagadores frequentemente ficam numa situação difícil. Comprar (são brinquedos caros) ou não comprar?

Exatamente por conhecer esses dilemas, a terapeuta ocupacional Aide Mitie Kudo, responsável pela Brinquedoteca do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, propôs este teste.

Imagine-se numa loja escolhendo presente para seu filho, sobrinho, neto. Você daria preferência ao brinquedo:

a) Mais caro, pois “pelo preço ele deve ser bom”?

b) Adequado à faixa etária da criança?

c) Com um montão de peças, pois “é bonito, é o que está na moda”?

d) Importado, já que “se é de fora, deve ser melhor”?

“Mãe, não caia no apelo de comprar o mais caro por causa dos anúncios”, orienta a Aide Kudo. “A mídia quer que você ache que os brinquedos mais caros são os melhores e,  portanto, pague pela marca. O brinquedo ideal é aquele adequado à faixa etária da criança e seguro, seja caro ou barato. Do contrário, vai ser inútil”

Quer um exemplo? Está na última moda um jogo de quebra-cabeça de 100 peças. É lindo! Se for dado a uma criança de 3 anos de idade, ela não conseguirá montar. Para ela tem de ser jogo com menos peças e, ainda, tridimensionais. Nessa faixa etária, a criança visualiza objetos que tenham altura, comprimento e largura, e não imagens chapadas.

“Já vi muitas crianças pegarem pote de plástico e ficarem colocando e tirando pecinhas lá dentro por horas a fio”, exemplifica Aide. “Elas mesmas transformaram o pote da cozinha, que não custou nada, numa brincadeira muito prazerosa. Prova de que preço mais caro não deve ser critério para compra.”

“O brincar é mais do que um entretenimento, diversão e lazer”, acrescenta Aide. “É uma forma natural e espontânea para estimular o desenvolvimento físico e mental da criança.”

Por isso, se quiser que o brinquedo seja aproveitado e não ofereça risco, é fundamental ter alguns cuidados na hora de comprar e escolher. A terapeuta ocupacional Aide Kudo dá as dicas:

* Não existe brinquedo ideal. Cada criança tem seu próprio universo. Leve conta os gostos, interesses e habilidade da sua criança.

* Observe as recomendações sobre a faixa etária; está indicada na embalagem. Ela é resultado de estudos feitos por especialistas na área.

* Segurança é fundamental. Verifique se o brinquedo tem o selo do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial ). A certificação é a garantia de que o produto foi fabricado de acordo com as normas de segurança.

* Brinquedos importados devem trazer, em português, as recomendações para faixa etária, uso e selo do Inmetro.

* Evite brinquedos com peças pequenas e ímãs; crianças menores podem colocar na boca e engolir.

“Nenhum brinquedo, porém, substitui a sua relação com a criança”, arremata Aide. “O mais importante é você criar situações para brincar junto.”

Página 11 de 17« Primeira...910111213...Última »