Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha

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NAS PALAVRAS DELES: ENTENDA PORQUE NINGUÉM CONFIA EM NINGUÉM EM WALL STREET

Atualizado em 17 de março de 2008 às 19:07 | Publicado em 17 de março de 2008 às 18:48

Reproduzo, abaixo, o press release oficial da Bear Stearns, uma das empresas mais tradicionais de Wall Street, quando trocou de presidente, no dia 8 de janeiro deste ano. Quem escreveu foi algum assessor ou assessora de imprensa, daí o tom hagiográfico sobre os executivos. Destaco alguns trechos para demonstrar claramente porque ninguém acredita em ninguém no mercado financeiro:

New York, New York • January 8, 2008 

A Bear Stearns Companhias Inc. (NYSE:BSC) anunciou hoje que James E. Cayne informou à board de diretores seu desejo de deixar o posto de chief executive officer imediatamente. Embora o sr. Cayne vá se aposentar da firma, continuará como presidente do board de diretores e será sucedido no cargo de chief executive officer pelo presidente da Bear Stearns, Alan D. Schwartz.

'Jimmy tem muito do que se orgulhar - sob a liderança dele a Bear Stearns cresceu substancialmente nos últimos 15 anos, com o faturamente subindo para U$ 7 bilhões de U$ 2 bilhões e o número de empregados mais do que dobrando para 14 mil', disse Vincent Tese, o principal diretor independente da Bear Stearns. 'Foi uma decisão dele e estamos muito felizes que ele concordou em se manter ativamente envolvido com o negócio como presidente do board'.

'O reservatório de talento da companhia é particularmente profundo e o board é afortunado de tem alguém do calibre e experiência do Alan para assumir e liderar a empresa', Tese acrescentou. 'Alan passou mais de 30 anos na Bear Stearns; ele entende profundamente nosso negócio e nossa cultura e é um líder forte e um gerente que é admirado e respeitado em toda a organização'.

Mr. Cayne, que serviu como CEO da Bear Stearns desde 1993 e como presidente e CEO desde 2001, comentou, 'estou grato que o board tem confiança em mim mas acredito que é a hora certa de implementar nosso plano de sucessão. Estamos começando um novo ano e estamos em um ponto decisivo no desenvolvimento de nosso negócio em um momento de mudanças rápidas em Wall Street', ele disse. 'Liderar a Bear Stearns e seus maravilhosos talentos tem sido um dos grandes prazeres de minha vida por quase 15 anos. Essas são pessoas que sabem como criar valor, que sabem como servir aos clientes bem e que estou certo vão continuar fazendo isso por muitos anos no futuro'.

'Alan é um bom amigo e um dos executivos mais capazes de Wall Street. Ele é uma grande escolha para liderar a companhia nessa nova era e estou feliz de poder ajudá-lo', Cayne acrescentou. 'Tenho grande confiança nele e nessa suave transição.  Estou satisfeito com minha nova posição,  na qual  sinto que pode usar o meu conhecimento institucional da Bear Stearns e de Wall Street para obter vantagem máxima para a firma nos próximos anos'.

'Estou honrado de ter a oportunidade de liderar uma das grandes marcas de Wall Street', disse Alan D. Schwartz, presidente da Bear Stearns. 'Bear Stearns tem um futuro brilhante. Nossa empresa é sólida como uma rocha graças à liderança de Jimmy; investidores, clientes e empregados não devem esperar por mudanças abruptas no período adiante. Nós temos um posição forte de capital, uma cultura corporativa única e grande talento em toda a organização. Embora o ambiente de operação no mercado tenha sido difícil, tivemos um bom começo em 2008. Continuamos entusiasmados com nossos negócios em equity, banking e fixed income, nossas iniciativas de expansão internacional e o desenvolvimento de nossas plataformas de energia e gerenciamento de riqueza.'

Alan D. Schwartz entrou na Bear Stearns em 1976. Ele se tornou vice-presidente executivo e chefe da Divisão de Investimento Bancário em 1985. O senhor Schwartz foi nomeado presidente e co-chief operanting officer em junho de 2001 e presidente em agosto de 2007. 'Jimmy Cayne é uma legenda de Wall Street. Aprendi muito com ele nos 30 anos em que somos amigos e parceiros aqui na Bear Stearns e estou feliz que vamos continuar a trabalhar juntos', ele disse.

Você então me diz: pô Azenha, mas eles foram pegos de surpresa. Surpresa? Olhem o gráfico com o valor das ações da empresa nos últimos 12 meses:

bear.JPG

Em maio de 2007 a ação da Bear Stearns custava 150 dólares. Quando houve a troca de presidente, em janeiro deste ano, estava em 90 dólares. Ora, em vez de fingir que estavam no paraíso os dirigentes do banco poderiam ter dito a verdade aos seus próprios funcionários. Alguma coisa do gênero 'temos desafios pela frente'.

Em vez disso, tentaram tapar o sol com a peneira.

Nas últimas semanas, Alan Schwartz continuava dizendo que estava tudo bem. Olha aí quanto ele ganhou no ano fiscal de 2007: 35 milhões de dólares, ou seja, mais ou menos 3 milhões de dólares por mês.

salario.JPG

Ele pode ter perdido dinheiro em ações. Mas com certeza, ao negociar a transferência do controle para o JPMorgan, manteve algum cargo ou no mínimo se arranjou uma belíssima aposentadoria.

Quantos funcionários da Bear Stearns serão demitidos? Ninguém sabe, ainda. Com certeza, milhares.

Culpa de quem? Nessa hora ninguém tem responsabilidade pelas decisões que tomou. A culpa "é do mercado".


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Messias Franca de Macedo (18/03/2008 - 10:32)
EUREKA! [RESPOSTA À PERGUNTA: CRISE FINANCEIRA - Por onde anda a famosa "mão invisível" do mercado global? Texto publicado na Agência %u2018Carta Maior%u2019]www.cartamaior.com.br

Prezado professor Marco Aurélio Weissheimer, eureka! A famigerada "mão invisível [pesada e atroz] do mercado 'globarbarizado' [diria o gênio e baiano de Irará Tom Zé]" está, neste momento, batendo nas portas dos generosíssimos Bancos Centrais mundo afora, sobretudo do irresponsável 'Federal Reserve' - é muito facil(!) o Tesouro dos Estados Unidos acelerar a emissão de papel fajuto, pintá-lo de verde, nominá-lo de dólar e injetá-lo nas mãos dos parasitas rentistas inescrupulosos...
Messias Franca de Macedo
Feira de Santana, de onde é possível ouvir, nitidamente, os rumores, o crepitar, o tilintar dos pilares sórdidos do %u201Cimpério%u201D decadente e indecente. Já vai tarde, bárbaro %u201Cimpério%u201D genocida!






Romanelli (18/03/2008 - 10:24)
Na boa, não entendi NADA não ...acho que o título não corresponde aos fatos

Verdade é que qdo se fala de banco, qto menos se fala dele melhor, entende? ...basta surgir um boate, mesmo que administrável, que a coisa sai do controle

É como diz Chapolin Colorado, o importante é não se "Priar de Cânicos", tendeu?!

Aliás, você já escutou daquela do leão que fugiu do circo e do cara que, no pânico, teve das "pernas" beliscadas pelas madeiras da arquibancada? Lembra? e aí ele grita: "senta ! senta que o Leão é manso ?!" ...pois é, este é o exemplo mais pronto que vejo pra esse episódio

Senta ! Senta que o Leão é manso !? Tá bão ? ...eu hein?! fui....

Ivan Moraes (17/03/2008 - 23:31)
Se a Bear Stearns tivesse fechado as portas e colocado seu proprio edificio no mercado teria ganho mais dinheiro do que essa "venda". Nao deu pra entender ainda essa historia. Mais estranho eh que no dia 8 de janeiro era verdade que a compania era solidissima --desde que se entenda que o que eh chamado de "solidissimo" hoje de fato deixa compania que so vale uns bilhoezinhos comprar 15 vezes seu valor em dividas. Vide a "compra" do Yahoo pela Microsoft: o suporte bancario eh exatamente o que eu teria predito se alguem houvesse perguntado e nem eh fazer juizo de valor sobre a MS. Os bancos vao concentrar seu suporte em companias de hardware porque o monopolio eh mais facil de conseguir com elas do que com companias de software, mas tambem porque oferece muito mais possibilidades de monopolio e concentracao.

Ivan Moraes (17/03/2008 - 23:20)
E eu chamo isso de "non-agit prop". Ou eh prop "anti-agit"? Tem o valor dos hipnoticos comerciais de tv te mostrando o carro luxuoso com a seminua rebolando: "Compre. Compre. Compre. Compre. So vai levantar se voce comprar..."

Gérson (17/03/2008 - 23:09)
Matéria no Valor On Line de hoje a noite, só corrobora com o seu texto Azenha:

"SÃO PAULO - O escritório de advocacia norte-americano Coughlin Stoia entrou hoje mesmo com ação judicial coletiva contra o banco Bear Stearns e seus executivos para defender os investidores que compraram ações do banco entre 14 de dezembro de 2006 e 14 de março deste ano. Como a ação é coletiva, qualquer investidor nesta situação pode aderir após entrar em contato com os advogados.

A alegação é de que o banco e alguns de seus diretores deram declarações falsas que levaram a decisões incorretas sobre a situação econômico e financeira do Bear Stearns. Isso teria feito com que as ações tivessem atingido artificialmente a cotação de US$ 159,36 em abril de 2007, ante US$ 4,30 dos negócios de hoje.

De acordo com os litigantes, as declarações dadas pela empresa durante o referido período foram significativamente falsas, diante da falha dos citados em informar ao mercado sobre os problemas dos hedge funds da companhia diante da deterioração do mercado de hipotecas subprime, que levaram o banco a resgatar tais fundos, o que teria afetado a reputação da instituição."


Cida Medeiros (17/03/2008 - 22:49)
Mas a Sarbanne-Oxley não está lá para coibir estas mentiras dos CEO's!

Cláudio (17/03/2008 - 20:48)
Azenha, se os próprios atores, que ao longo dos últimos anos desempenharam importantes papéis na farsa que se tem revelado o modelo de economia global, começam a revelar claros sinais de descontentamento e inquietude, como se pode esperar que o comum dos cidadãos, a doméstica paulistana, continue serenamente à espera de mais notícias desastrosas sobre a economia estadunidense enquanto assiste a uma subida generalizada dos preços das matérias-primas, produtos alimentares incluídos, mas nunca do salário de seu marido?

sergio (17/03/2008 - 20:16)
Parabéns Azenha!
Como em outros casos, vc faz uma bela cobertura da crise.
Rapidez, boa vontade e objetividade.
Estamos informados graças a vc.

Marco Aurelio(MSM) (17/03/2008 - 20:11)
Eu só me lembro do Jeffrey Skilling no filme "Smartest guys in the room"(aqui traduzido como "Os mais espertos da sala")e a célebre frase "Deixaram os loucos tomar conta do hospício".

Cláudio (17/03/2008 - 20:06)
Azenha, os banqueiros, não contentes com o fato de há vários anos estarem acumulando ganhos resultantes de terem exaurido a liquidez da economia, preparam-se agora para continuarem despudoradamente a arrecadar ganhos de uma situação de crise da qual são os principais responsáveis e enquanto pretendem estar apenas a exercer a sua real função na economia / a de agentes de ligação entre aforradores e investidores /// Se isto fosse efetivamente verdade e não tivesse sido desenvolvida uma intrincada teia de produtos financeiros, cuja real necessidade é a de escamotear a avaliação do respectivo risco e não a de facilitar a referida função de ligação, a crise resultante do excesso de especulação no setor imobiliário não estaria assumindo as proporções que esta apresenta, nem a suscitar as muitas e pertinentes questões sobre os seus efeitos e as suas consequências. A sorte está lançada, e aí eu fico pensando, no que a antropologia descreve acerca do Canibalismo Funerário, que nada mais é que a prática da antropofagia como modo de tratamento ritual de cadáveres de membros do próprio grupo, vai ser assim, as grandes corporações com a ajuda de governos, com dinheiro do contribuinte, se alimentando de carne fácil e barata para justificar um ato de reverência e proteção. Um abraço.

Cláudio (17/03/2008 - 19:48)
Definitivamente afastados os tempos em que houve quem dissesse que num mês não se falaria nesta crise do crédito e em que as agências internacionais de rating anunciavam a Banca a salvo da ameaça do %u201Csubprime%u201D, vive-se agora a inevitável necessidade de enfrentar a situação e os banqueiros unânimes devem estar afirmando que terão que ser os clientes dos bancos que suportarão o acréscimo dos custos, seja através de maiores restrições ao crédito seja através da subida dos custos. /// Perante a dura realidade, explicada pelos erros cometidos pelos banqueiros na concessão de crédito a clientes de muito alto risco e no refinanciamento desta atividade mediante a titularização daqueles créditos e na ocultação do risco subjacente, pretendem os mesmos manter os níveis anormalmente elevados dos seus lucros através das já muito faladas subidas de juros e aumentos de comissões, medidas que transferirão na prática os custos dos riscos indevidamente assumidos para os clientes. /// Esta prática, de quase assalto à mão armada, que os bancos se preparam para implementar constitui apenas mais um dos muitos atentados contra o saudável funcionamento das economias. Essa dívida não vai ser paga somente pelo contribuintes americanos, não, meu velho, vai ser dividida por muita gente, raças, nações, credos, etc. /// Azenha, por que é que uma família em Ohio que não tem capacidade para pagar a sua hipoteca leva a que uma família em São Paulo pague mais pelo crédito? Já pensou uma dona de casa paulista receber um telefonema da Bolsa de Frankfurt para pagar a hipoteca da família do Joe Doe. A crise do %u201Csubprime%u201D vai chegar ao Brasil? Quando? A situação é preocupante? A fatura será suportada por nossa economia? Ela está aberta e exposta aos choques externos? A quebra da banca, cujo negócio foi diretamente beliscado pelo inadimplemento nas hipotecas de alto risco, os clientes brasileiros vão ter mais dificuldades em conseguir novos empréstimos e vão pagar mais, por exemplo, nos contratos para a compra de casa? É só isso? Quais serão os reflexos no nosso dia-a-dia? É isso que o brasileiro quer saber, Azenha.

Sergio Telles (17/03/2008 - 19:29)
Essa carta me lembrou o Ministro do Saddam que ficou famoso na invasão dos EUA que sempre assegurava que o Iraque iria reagir, que estava dominando a situação etc e que ficou folclórico. É uma carta folclórica, e merecia uns bons processos por indenização, de todo mundo que acreditou nesse papo otimista e falso. Mentir nesse caso pode custar vidas, empregos e muita tristeza em quem acreditou nessa ladainha feita para agradar (ao estilo papo de jogador de futebol, que sempre fala a mesma coisa; mas essas situações são para falar a verdade, e não o que o mercado quer ouvir). Azenha, muitas ações em Wall Street estão com essa mesma trajetória. Talvez tenham mais empresas que vão quebrar em breve, a Lehmann Brothers é uma que está descendo ladeira sem parar. Tudo porque não sabem ser claros num relatório ou em mensagens ao mercado. Isso é irresponsabilidade e devia dar penas duríssimas, na minha opinião.



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