
Atualizado em 15 de janeiro de 2008 às 14:02 | Publicado em 14 de janeiro de 2008 às 17:52

O indefeso navio americano e o agressivo barco do Irã
As campanhas de terror propagandístico são antigas. Nos Estados Unidos a primeira do gênero a usar a televisão foi feita com o famoso "Daisy commercial", o anúncio da margarida, em que uma menina aparece contando as folhas que tira de uma flor até que uma voz ameaçadora faz a contagem regressiva e, no zero, uma bomba atômica explode. O comercial incorpora a voz de Lyndon Johnson, o presidente democrata que concorria à reeleição contra o senador republicano Barry Goldwater.
Diz Johnson: "É isso o que está em jogo: construir um mundo em que todas as crianças de Deus possam viver, ou mergulhar na escuridão". Foi a gênese da propaganda política negativa na televisão. [CLIQUE AQUI PARA VER O COMERCIAL]
Promover campanhas de desinformação através da mídia também não é novidade. Para nós, brasileiros, basta ler o livro "1964: A Conquista do Estado" para ter acesso à documentação detalhada de como o golpe foi organizado por empresários e militares, com apoio da mídia e dos Estados Unidos. Para conquistar a opinião pública foi montado um aparato que contava com o apoio das Organizações Globo, Folha de S. Paulo, Estadão e de outras empresas que, desde então, deixaram de existir. O autor do livro menciona uma situação específica em que uma notícia falsa foi publicada por "O Globo" como se fosse verdadeira.
O mesmo aconteceu no golpe contra Salvador Allende, no Chile. Neste caso, a CIA não só financiou o jornal El Mercurio, que se dizia ameaçado de ficar sem papel e tinta, como colocou agentes para trabalhar como "jornalistas" na redação.
Fazer propaganda é muito mais barato do que mobilizar uma tropa de fuzileiros navais. E funciona. A campanha de guerra permanente, explorando o medo dos americanos depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, permitiu ao governo Bush ocupar o Iraque com amplo apoio da opinião pública. Os americanos acreditavam que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa, que tinha ligação com os atentados de 2001 e com Osama bin Laden. Essas três mentiras foram bombardeadas de tal forma que, ainda hoje, muitos americanos acreditam em pelo menos uma delas.
Causar medo na população dá ibope. E dá dividendos políticos. E ajuda a ganhar eleição. No México, em 2006, Felipe Calderón venceu por pequena margem depois de uma "guerra sucia" que incluiu um bombardeio de comerciais de campanha que exploravam o medo dos eleitores, transformando o candidato de oposição López Obrador em parente do diabo. [CLIQUE AQUI PARA VER A PRIMEIRA PARTE DO DOCUMENTÁRIO "OS DONOS DA DEMOCRACIA". OS OUTROS CAPÍTULOS ESTÃO NA TV VIOMUNDO, NA LISTA DE REPRODUÇÃO "FRAUDE NO MÉXICO"]
Na Venezuela, mais recentemente, uma campanha de boatos e rumores espalhados pela mídia e pela internet fez muitos eleitores acreditarem que, se a proposta de reforma constitucional de Hugo Chávez fosse aprovada, eles corriam o risco de perder a guarda dos filhos. Não foi a principal causa da derrota da proposta, mas ajudou. [CLIQUE AQUI PARA VER O TESTEMUNHO DE UM ELEITOR VENEZUELANO SOBRE ESSA CAMPANHA]
O terror já havia atacado no Brasil, em 1989, quando um dirigente da FIESP fez a previsão de que, se Lula fosse eleito, 800 mil empresários brasileiros fugiriam para Miami. Mais recentemente, a mídia brasileira atacou de "caos aéreo", "crise na saúde" e agora trabalha, pelo que me contam os internautas, com a "epidemia de febre amarela" e o "apagão elétrico". Não demora e vão tirar do armário as "abelhas assassinas." Difícil dizer se o objetivo é apenas vender jornais ou se a mídia está a serviço de interesses políticos.
O terrorismo psicológico e o uso da mídia para fazer propaganda são temas importantes de estudo por parte da CIA e do Pentágono, como armas de guerra tão eficientes quanto mísseis e tanques. O marketing político é a versão civil desse mesmo ramo. [VEJA AQUI COMO É A "TERAPIA DO CHOQUE" APLICADA PELA CIA]
Vou fazer aqui a anatomia de um caso recente, para que vocês entendam como funciona. No dia 7 de janeiro de 2008, às 14 horas, a Folha Online publicou:
"Cinco embarcações da Guarda Revolucionária Iraniana ameaçaram três navios dos Estados Unidos no estreito de Hormuz, uma importante rota de navios petroleiros próxima da costa do Irã, informaram fontes do Pentágono nesta segunda-feira. O incidente ocorreu na madrugada deste domingo, às vésperas de uma visita do presidente americano, George W. Bush, ao Oriente Médio. Na semana passada, ele afirmou que um dos propósitos da viagem seria deter as ambições iranianas na região.
Segundo os oficiais do Pentágono, no incidente, o capitão de um dos navios considerou dar uma ordem para que a tripulação atirasse contra as embarcações, do Irã, o que não chegou a ocorrer porque os barcos iranianos se afastaram em seguida. De acordo com o Pentágono, os guardas que estavam nas embarcações disseram via rádio aos tripulantes americanos: "Estamos indo até vocês e os explodiremos em alguns minutos".
Segundo as fontes militares, não é incomum que embarcações iranianas se aproximem de navios dos EUA na região, mas a transmissão via rádio foi algo fora do comum. As embarcações iranianas também teriam despejado caixas brancas no mar. Não ficou claro qual seria o conteúdo de tais caixas, segundo o relato dos oficiais do Pentágono."
Os grifos são meus. Essa mesma notícia, em versões diferentes, se espalhou pelo mundo. "Iranian boats confront US in Persian Gulf", deu o New York Times com chamada de capa, no dia seguinte. Ou seja, "Barcos iranianos confrontam Estados Unidos no Golfo Pérsico". O texto, assinado por Thom Shanker e Brian Knowlton, dizia: "Cinco lanchas de alta velocidade e armadas do Irã se aproximaram de três navios de guerra da Marinha dos Estados Unidos em águas internacionais no estratégico estreito de Ormuz, no domingo, depois fizeram manobras agressivas e ameaças por rádio segundo as quais os navios americanos iriam explodir, assessores militares informaram na segunda-feira".
Notem que os dois repórteres não disseram que os navios americanos estavam armados até os dentes, com o que há de mais moderno no arsenal americano. Mas as lanchas do Irã, frisaram eles, estavam armadas.
Aqui em Washington, eu mesmo ouvi o repórter na National Public Radio, a NPR, que costuma ser uma fonte confiável de notícias, dizer que os barcos iranianos tinham "swarmed" sobre os navios americanos, ou seja, tinham se comportado como um enxame que, como vocês sabem, é coisa de animais. Agora parem para pensar: um enxame de cinco contra três, sendo que os três navios tinham todos mais de 100 metros de comprimento?
O cenário estava armado para a visita do presidente George Bush ao Oriente Médio, em que ele tentou formar uma coalizão de Israel com países árabes contra o Irã e declarou que o Irã "é uma ameaça à paz mundial". Isso tudo foi divulgado pela mídia corporativa americana sem que alguém lembrasse que George W. Bush iniciou uma guerra sob premissas falsas em que morreram, até agora, por baixo, mais de 100 mil civis iraquianos - de acordo com estudo da Organização Mundial de Saúde. Presumo que o mesmo tenha acontecido no Brasil.
Lembro que não estou aqui tratando de opiniões. Estou tratando de fatos. E na sexta-feira, dia 11 de janeiro, o Washington Post publicou a seguinte manchete: "Barcos do Irã podem não ter feito ameaças através do rádio", diz o Pentágono. O primeiro parágrafo do texto: "O Pentágono disse ontem que as aparentes ameaças por rádio de bombardear navios de guerra americanos no Golfo Pérsico podem não ter vindo de cinco lanchas da Guarda Revolucionária Iraniana - e podem nem ter tido como alvo os navios americanos".
Ou seja, olhem lá em cima o que a Folha Online divulgou: uma citação literal, segundo a qual "Estamos indo até vocês e os explodiremos em alguns minutos."
Na mesma reportagem, o Washington Post lembra que, em 1988, o cruzador americano USS Vincennes derrubou um avião civil do Irã que levava 290 passageiros a bordo. Todos morreram. "Os Estados Unidos inicialmente afirmaram que era um avião militar, que estava fora do corredor da aviação civil e que não respondeu aos chamados por rádio. As duas afirmações iniciais eram falsas e as chamadas de rádio foram feitas na frequência militar às quais o avião civil não tinha acesso. Uma investigação subsequente mostrou que o navio americano estava fora de rota."
No dia 12 de janeiro, o Washington Post voltou ao assunto: "Objetos atirados dos barcos iranianos não representavam ameaça", diz a Marinha. Está escrito no primeiro parágrafo: "Os pequenos objetos, parecidos com caixas, que foram jogados na água por barcos iranianos quando eles se aproximavam de navios de guerra americanos não ofereciam perigo, disseram ontem autoridades americanas, ainda que o chefe do Estado Maior tenha dito que o incidente reflete novas táticas de guerra assimétrica do Irã. Depois de passar pelos objetos brancos, os comandantes do USS Port Royal, do destróier e da fragata que o acompanhavam decidiram que eles representavam um perigo tão pequeno que eles nem se preocuparam em dar alerta por rádio a outros navios, disseram oficiais".
Aqui o próprio Washington Post errou. Os objetos não ofereciam "little danger". Na verdade, não ofereciam perigo algum, caso contrário os comandantes teriam alertado colegas por rádio. Os repórteres deveriam perguntar: a Marinha americana recolheu os "objetos" ou as "caixas brancas" para examinar? Se não recolheu, como dizer que não ofereciam perigo? Ou elas não existiam?
Qual é a notícia que sobrou hoje, 14 de janeiro, a respeito do que foi divulgado como um incidente internacional? Diria eu: cinco lanchas do Irã fizeram manobras próximas a um destróier, um cruzador e uma fragata em águas internacionais, perto da costa do Irã e a milhares de quilômetros da costa dos Estados Unidos, sendo que as lanchas do Irã carregavam armas leves enquanto os navios de guerra americanos dispunham de metralhadoras, torpedos e mísseis, não só capazes de detonar as lanchas iranianas, mas até mesmo de derrubar um Boeing."
Pergunto: o Jornal Nacional divulgou as retificações feitas pelo próprio Pentágono? É claro que não. Para efeito de propaganda, ficam os textos e as imagens dando conta de que cinco lanchas iranianas quase detonaram três indefesos navios de guerra dos Estados Unidos. O que abre espaço para que a declaração de George W. Bush de que o Irã "é uma ameaça à paz mundial" encontre acolhida na opinião pública. É a vitória da propaganda sobre o Jornalismo.
Eu também quero ganhar "a revolução..." (dizem que é excelente). Só não entendi se é para deixar endereço eletronico (e-mail) ou o endereço fisico (residencia/correios).
Marcio Carlomagno, e-mail: marciusbrasil@yahoo.com.br