Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha

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FEBRE AMARELA E IRÃ: ALARMISMO VENDE JORNAIS E É FERRAMENTA POLÍTICA

Atualizado em 15 de janeiro de 2008 às 14:02 | Publicado em 14 de janeiro de 2008 às 17:52

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O indefeso navio americano e o agressivo barco do Irã

As campanhas de terror propagandístico são antigas.  Nos Estados Unidos a primeira do gênero a usar a televisão foi feita com o famoso "Daisy commercial", o anúncio da margarida, em que uma menina aparece contando as folhas que tira de uma flor até que uma voz ameaçadora faz a contagem regressiva e, no zero, uma bomba atômica explode. O comercial incorpora a voz de Lyndon Johnson, o presidente democrata que concorria à reeleição contra o senador republicano Barry Goldwater.

Diz Johnson: "É isso o que está em jogo: construir um mundo em que todas as crianças de Deus possam viver, ou mergulhar na escuridão". Foi a gênese da propaganda política negativa na televisão. [CLIQUE AQUI PARA VER O COMERCIAL]

Promover campanhas de desinformação através da mídia também não é novidade. Para nós, brasileiros, basta ler o livro "1964: A Conquista do Estado" para ter acesso à documentação detalhada de como o golpe foi organizado por empresários e militares, com apoio da mídia e dos Estados Unidos. Para conquistar a opinião pública foi montado um aparato que contava com o apoio das Organizações Globo, Folha de S. Paulo, Estadão e de outras empresas que, desde então, deixaram de existir. O autor do livro menciona uma situação específica em que uma notícia falsa foi publicada por "O Globo" como se fosse verdadeira.

O mesmo aconteceu no golpe contra Salvador Allende, no Chile. Neste caso, a CIA não só financiou o jornal El Mercurio, que se dizia ameaçado de ficar sem papel e tinta, como colocou agentes para trabalhar como "jornalistas" na redação.

Fazer propaganda é muito mais barato do que mobilizar uma tropa de fuzileiros navais. E funciona. A campanha de guerra permanente, explorando o medo dos americanos depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, permitiu ao governo Bush ocupar o Iraque com amplo apoio da opinião pública. Os americanos acreditavam que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa, que tinha ligação com os atentados de 2001 e com Osama bin Laden. Essas três mentiras foram bombardeadas de tal forma que, ainda hoje, muitos americanos acreditam em pelo menos uma delas.

Causar medo na população dá ibope. E dá dividendos políticos. E ajuda a ganhar eleição. No México, em 2006, Felipe Calderón venceu por pequena margem depois de uma "guerra sucia" que incluiu um bombardeio de comerciais de campanha que exploravam o medo dos eleitores, transformando o candidato de oposição López Obrador em parente do diabo. [CLIQUE AQUI PARA VER A PRIMEIRA PARTE DO DOCUMENTÁRIO "OS DONOS DA DEMOCRACIA". OS OUTROS CAPÍTULOS ESTÃO NA TV VIOMUNDO, NA LISTA DE REPRODUÇÃO "FRAUDE NO MÉXICO"]

Na Venezuela, mais recentemente, uma campanha de boatos e rumores espalhados pela mídia e pela internet fez muitos eleitores acreditarem que, se a proposta de reforma constitucional de Hugo Chávez fosse aprovada, eles corriam o risco de perder a guarda dos filhos. Não foi a principal causa da derrota da proposta, mas ajudou. [CLIQUE AQUI PARA VER O TESTEMUNHO DE UM ELEITOR VENEZUELANO SOBRE ESSA CAMPANHA]

O terror já havia atacado no Brasil, em 1989, quando um dirigente da FIESP fez a previsão de que, se Lula fosse eleito, 800 mil empresários brasileiros fugiriam para Miami. Mais recentemente, a mídia brasileira atacou de "caos aéreo", "crise na saúde" e agora trabalha, pelo que me contam os internautas, com a "epidemia de febre amarela" e o "apagão elétrico". Não demora e vão tirar do armário as "abelhas assassinas." Difícil dizer se o objetivo é apenas vender jornais ou se a mídia está a serviço de interesses políticos.

O terrorismo psicológico e o uso da mídia para fazer propaganda são temas importantes de estudo por parte da CIA e do Pentágono, como armas de guerra tão eficientes quanto mísseis e tanques. O marketing político é a versão civil desse mesmo ramo. [VEJA AQUI COMO É A "TERAPIA DO CHOQUE" APLICADA PELA CIA]

Vou fazer aqui a anatomia de um caso recente, para que vocês entendam como funciona. No dia 7 de janeiro de 2008, às 14 horas, a Folha Online publicou:

"Cinco embarcações da Guarda Revolucionária Iraniana ameaçaram três navios dos Estados Unidos no estreito de Hormuz, uma importante rota de navios petroleiros próxima da costa do Irã, informaram fontes do Pentágono nesta segunda-feira. O incidente ocorreu na madrugada deste domingo, às vésperas de uma visita do presidente americano, George W. Bush, ao Oriente Médio. Na semana passada, ele afirmou que um dos propósitos da viagem seria deter as ambições iranianas na região.

Segundo os oficiais do Pentágono, no incidente, o capitão de um dos navios considerou dar uma ordem para que a tripulação atirasse contra as embarcações, do Irã, o que não chegou a ocorrer porque os barcos iranianos se afastaram em seguida. De acordo com o Pentágono, os guardas que estavam nas embarcações disseram via rádio aos tripulantes americanos: "Estamos indo até vocês e os explodiremos em alguns minutos".

Segundo as fontes militares, não é incomum que embarcações iranianas se aproximem de navios dos EUA na região, mas a transmissão via rádio foi algo fora do comum. As embarcações iranianas também teriam despejado caixas brancas no mar. Não ficou claro qual seria o conteúdo de tais caixas, segundo o relato dos oficiais do Pentágono."

Os grifos são meus. Essa mesma notícia, em versões diferentes, se espalhou pelo mundo. "Iranian boats confront US in Persian Gulf", deu o New York Times com chamada de capa, no dia seguinte. Ou seja, "Barcos iranianos confrontam Estados Unidos no Golfo Pérsico". O texto, assinado por Thom Shanker e Brian Knowlton, dizia: "Cinco lanchas de alta velocidade e armadas do Irã se aproximaram de três navios de guerra da Marinha dos Estados Unidos em águas internacionais no estratégico estreito de Ormuz, no domingo, depois fizeram manobras agressivas e ameaças por rádio segundo as quais os navios americanos iriam explodir, assessores militares informaram na segunda-feira".

Notem que os dois repórteres não disseram que os navios americanos estavam armados até os dentes, com o que há de mais moderno no arsenal americano. Mas as lanchas do Irã, frisaram eles, estavam armadas.

Aqui em Washington, eu mesmo ouvi o repórter na National Public Radio, a NPR, que costuma ser uma fonte confiável de notícias, dizer que os barcos iranianos tinham "swarmed" sobre os navios americanos, ou seja, tinham se comportado como um enxame que, como vocês sabem, é coisa de animais. Agora parem para pensar: um enxame de cinco contra três, sendo que os três navios tinham todos mais de 100 metros de comprimento?

O cenário estava armado para a visita do presidente George Bush ao Oriente Médio, em que ele tentou formar uma coalizão de Israel com países árabes contra o Irã e declarou que o Irã "é uma ameaça à paz mundial". Isso tudo foi divulgado pela mídia corporativa americana sem que alguém lembrasse que George W. Bush iniciou uma guerra sob premissas falsas em que morreram, até agora, por baixo, mais de 100 mil civis iraquianos - de acordo com estudo da Organização Mundial de Saúde. Presumo que o mesmo tenha acontecido no Brasil.

Lembro que não estou aqui tratando de opiniões. Estou tratando de fatos. E na sexta-feira, dia 11 de janeiro, o Washington Post publicou a seguinte manchete: "Barcos do Irã podem não ter feito ameaças através do rádio", diz o Pentágono. O primeiro parágrafo do texto: "O Pentágono disse ontem que as aparentes ameaças por rádio de bombardear navios de guerra americanos no Golfo Pérsico podem não ter vindo de cinco lanchas da Guarda Revolucionária Iraniana - e podem nem ter tido como alvo os navios americanos".

Ou seja, olhem lá em cima o que a Folha Online divulgou: uma citação literal, segundo a qual "Estamos indo até vocês e os explodiremos em alguns minutos."

Na mesma reportagem, o Washington Post lembra que, em 1988, o cruzador americano USS Vincennes derrubou um avião civil do Irã que levava 290 passageiros a bordo. Todos morreram. "Os Estados Unidos inicialmente afirmaram que era um avião militar, que estava fora do corredor da aviação civil e que não respondeu aos chamados por rádio. As duas afirmações iniciais eram falsas e as chamadas de rádio foram feitas na frequência militar às quais o avião civil não tinha acesso. Uma investigação subsequente mostrou que o navio americano estava fora de rota."

No dia 12 de janeiro, o Washington Post voltou ao assunto: "Objetos atirados dos barcos iranianos não representavam ameaça", diz a Marinha. Está escrito no primeiro parágrafo: "Os pequenos objetos, parecidos com caixas, que foram jogados na água por barcos iranianos quando eles se aproximavam de navios de guerra americanos não ofereciam perigo, disseram ontem autoridades americanas, ainda que o chefe do Estado Maior tenha dito que o incidente reflete novas táticas de guerra assimétrica do Irã. Depois de passar pelos objetos brancos, os comandantes do USS Port Royal, do destróier e da fragata que o acompanhavam decidiram que eles representavam um perigo tão pequeno que eles nem se preocuparam em dar alerta por rádio a outros navios, disseram oficiais".

Aqui o próprio Washington Post errou. Os objetos não ofereciam "little danger". Na verdade, não ofereciam perigo algum, caso contrário os comandantes teriam alertado colegas por rádio. Os repórteres deveriam perguntar: a Marinha americana recolheu os "objetos" ou as "caixas brancas" para examinar? Se não recolheu, como dizer que não ofereciam perigo? Ou elas não existiam?

Qual é a notícia que sobrou hoje, 14 de janeiro, a respeito do que foi divulgado como um incidente internacional? Diria eu: cinco lanchas do Irã fizeram manobras próximas a um destróier, um cruzador e uma fragata em águas internacionais, perto da costa do Irã e a milhares de quilômetros da costa dos Estados Unidos, sendo que as lanchas do Irã carregavam armas leves enquanto os navios de guerra americanos dispunham de metralhadoras, torpedos e mísseis, não só capazes de detonar as lanchas iranianas, mas até mesmo de derrubar um Boeing."

Pergunto: o Jornal Nacional divulgou as retificações feitas pelo próprio Pentágono? É claro que não. Para efeito de propaganda, ficam os textos e as imagens dando conta de que cinco lanchas iranianas quase detonaram três indefesos navios de guerra dos Estados Unidos. O que abre espaço para que a declaração de George W. Bush de que o Irã "é uma ameaça à paz mundial" encontre acolhida na opinião pública. É a vitória da propaganda sobre o Jornalismo.


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Luiz Carlos Azenha (16/01/2008 - 16:28)
É o endereço FÍSICO.

ABS

Marcio Carlomagno (16/01/2008 - 15:09)
Eu também quero ganhar "a revolução..." (dizem que é excelente). Só não entendi se é para deixar endereço eletronico (e-mail) ou o endereço fisico (residencia/correios).
Marcio Carlomagno, e-mail: marciusbrasil@yahoo.com.br

hudson luiz (15/01/2008 - 15:09)
Não posso deixar de me lembrar de Goebbels: "...quanto maior uma mentira mais fácil de se tornar verdade..." É essa a tática trapaceira que a imprensa tupiniquim e entreguista a serviço do capital internacional utiliza. Como no caso dos reféns soltos pela FARC após a intermediação de Chávez. Como no caso do mensalão que nunca foi provado. Como na crise aérea que atinge uma ínfima parcela da população e jogam toda a responsabilidade no governo, omitindo totalmente as empresas aéreas sedentas de lucro. Como confiar numa imprensa que sempre apoiou as causas da burguesia na luta de classes e se constituiu em aparelho de (des)informação e propaganda desta burguesia. Como acreditar numa imprensa que teve papel de destaque no golpe de 1964 agindo ao lado dos militares que usurparam o poder. Que escondeu o quanto pode uma das maiores manifestações populares desse país, as "Diretas Já". A mesma imprensa que pode ser responsabilizada por forjar fatos e trabalhar descaradamente para Collor em 1989 - seja dando a Collor um destaque que outros candidatos não tinham, seja editando o último debate entre Collor e Lula ou seja exibindo as imagens da prisão dos seqüestradores de Abílio Diniz com camisetas do PT.
A lista é deveras extensa e sobre isso já existem vários livros, porém o brasileiro continua como disse Wiliam Bonner, e não eu, muito parecido com Homer Simpson.
Hudson Luiz
R. Miguel Marques Pereira - 35
Poços de Caldas / MG
37704-156

Luiz Carlos Azenha (15/01/2008 - 15:00)
A disseminação do "A Revolução Não Será Televisionada" é uma forma indireta de mostrar como funciona a máquina da propaganda. E está valendo a partir de agora para dos dez primeiros que deixarem o endereço. O comentário do Eduardo pegou na veia. A Cantanhede escreveu isso? É irresponsável.

Leider Lincoln (15/01/2008 - 14:54)
Azenha,
Não cheguei a tempo de ter um dos 10 primeiros comentários e ganhar o documentário, mas pelo menos pude ver que o Guimarães excedeu em muito em inteligência, agudez e perspicácia, qualquer coisa que eu pudesse dizer!
Me sinto muitíssimo bem acompnhado em minhas opiniões.

Eduardo Guimarães (15/01/2008 - 13:43)
Delínqüência midiática


Sinceramente falando, eu acho que, ou eu estou louco, ou quem está doidinha de pedra é a mídia.

Tenho escrito muito sobre a questão da pseudo "epidemia" de febre amarela que se noticiou nos últimos cerca de dez dias. Como eu, que pela primeira vez disse no sábado (12/01), muitos outros vinham dizendo que não existia epidemia nenhuma, mas a mídia insistia na tese.

No dia seguinte, domingo, o ministro da Saúde foi à tevê dizer que não havia epidemia, pelo contrário, que os casos de febre amarela vêm caindo. Na segunda-feira, jornais, telejornais e rádio-jornais reportaram dezenas de "suspeitas" de casos de febre amarela. Até agora, entretanto, só há três casos confirmados. Mas ficou-se falando de "primeira morte" aqui e acolá, o que induz as pessoas a acreditarem que, se aquela é a "primeira morte" naquela parte do país, outras sobrevirão muitas mais dentro de um processo epidêmico que estaria se desencadeando.

A mídia não explicou, durante os últimos cerca de dez dias em que vêm promovendo um clima de pânico, um clima histérico que levou os estoques de vacina de todo país a se esgotarem e milhares e milhares de pessoas a se vacinarem sem necessidade, que os casos de morte por febre amarela noticiados não passavam de ocorrências comuns que não explicam, até o momento, por que é que se começou a enfatizar a questão da febre amarela de uma hora para outra.

A despeito disso, nos últimos cerca de dez dias a febre amarela ganhou manchetes nas páginas dos jornais, telejornais, rádio-jornais e de grandes portais na internet, como o UOL. O jornal O Globo, a Folha, o Jornal Nacional, a CBN e tantos outros começaram a dar notícias alarmistas sobre "suspeitas" de epidemia de febre amarela por conta não se sabe de que. Os casos ocorridos estão abaixo da média anual de casos reportados às autoridades sanitárias, mas a mídia divulgava que não se podia confiar no Estado, que este estaria "escondendo" uma epidemia. Poder-se-ia até noticiar essa queda de casos de febre amarela a título de curiosidade, porque é uma queda que vem de anos. Segundo a própria mídia informa, desde 2003, primeiro ano do governo Lula, as mortes pela moléstia caíram abaixo de uma dezena anual.

Tampouco a mídia vinha dizendo que a febre amarela que tem sido detectada (em número de casos inferior ao habitual) é do tipo silvestre, o que jamais poderia levar algum meio de comunicação a exortar as pessoas dos grandes centros urbanos a se vacinarem. Quem disse foi o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, no domingo. Ao disseminar o pânico, ao conclamar a sociedade a tomar vacina para febre amarela "o quanto antes" ou "antes que seja tarde", tal alarmismo empreendido pela mídia fez as pessoas se vacinarem à tôa, deixou pessoas que precisavam se vacinar para viajar sem poder fazê-lo, tirou as pessoas de suas casas, obrigando-as a ficarem horas em filas e, como se verá mais adiante, colocou essas pessoas até em risco de vida.

Sei de ao menos um caso grave de alarmismo que já se enquadra no conceito de criminoso. No sábado passado, o portal UOL trazia várias manchetes sobre febre amarela que tinham começado a ser divulgadas naquele espaço durante a semana, concomitantemente a notícias alarmistas surgidas na mídia impressa, no rádio e na tevê. Inclusive, na mesma primeira página do UOL havia chamada para coluna da mulher que é casada com um dos marqueteiros do PSDB, Eliane Cantanhêde. Ela dizia o seguinte:

"Vacine-se contra a febre amarela! Não deixe para amanhã, depois, semana que vem (...) Vacine-se logo! Senão, Lula, o aedes aegypti vem, pica e mata sabe-se lá quantos neste ano --e nos seguintes."

A irresponsabilidade de um texto como esse divulgado no maior portal de internet do país em sua primeira página e por uma jornalista de renome (se justificado ou não, é o que menos importa), é incomensurável. Não dá para medir por padrões meramente ético-profissionais um crime desses. E foi crime, a meu ver. Mas vamos em frente.

A irresponsabilidade do que a mídia vem fazendo agrava-se diante de notícia publicada na primeira página do UOL depois de dias de alarmismo e de um editorial desta terça-feira na Folha de São Paulo, dona do grupo Folha, que emprega a tal Cantanhêde e que é dono do mesmo UOL que vem trabalhando para difundir pânico.

A notícia é a de que um infectologista, Celso Granato, chefe do laboratório de virologia da Escola de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirmou que o risco de uma pessoa ser contaminada em áreas urbanas "é zero" e aconselhou a vacinação apenas para quem tiver contato com áreas de risco. E de que "Indivíduos com problemas de alergia à vacina, mulheres grávidas ou quem tenha algum grau de imunodeficiência não devem tomar a vacina". Granato disse que "Não é uma vacina para ser tomada à toa".

É crime ou não é o que fez a mídia ao difundir a teoria mentirosa e estapafúrdia sobre epidemia? Ah, você não acha? Bem, a Folha, que é uma das maiores responsáveis pelo alarmismo, acha que a mídia agiu mal, ou seja, que ela mesma agiu mal, ainda que tenha se manifestado como se não tivesse nada que ver com isso.

O editorial "Não-epidemia", publicado no jornal nesta terça-feira (15/01), diz algumas "pérolas" que vale a pena conferi-las. Então vamos lá. Vamos constatar como é que se faz um jornalismo de esgoto, criminoso, irresponsável e, acima de tudo, cínico ao impensável. Um jornalismo que pretende fazer os outros de trouxa, mas que não fará porque gente como eu irá denunciar, irá chamar atenção, mesmo que seja por um meio menos efetivo como um blog, mas a denúncia acabará se disseminando, se Deus quiser, pela força dos argumentos que contém.

Diz o editorial cara-dura:

"Reconhecer que os casos da febre amarela estão dentro da normalidade não implica ignorar os perigos da moléstia Há uma boa dose de exagero na 'epidemia' de febre amarela. O número de casos confirmados nos últimos dias, que é de apenas três, está rigorosamente dentro da normalidade para um país que tem mais de dois terços de seu território como área endêmica. Em termos históricos, pode-se até falar numa tendência de recuo. Até 2003, os casos anuais de FA silvestre se contavam às dezenas -com pico de 85 em 2000. Desde 2004, entretanto, o total de ocorrências não ultrapassa a marca de uma dezena. O que tem ocorrido, isto sim, é um aumento nas notificações de casos suspeitos, que, de domingo para cá, saltaram de 15 para 26. (...) Esse, contudo, é provavelmente um fenômeno mais ligado à inquietude que tomou conta da população ao longo das últimas semanas do que a uma eventual irrupção de novos focos da moléstia. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, cumpre o seu papel ao convocar cadeia nacional de rádio e TV para tentar frear a corrida aos postos de vacinação. (...) Assim, não parece exagero qualificar a atual 'epidemia' como uma manifestação de temor coletivo magnificada pela mídia (...)"

Dali em diante, o jornal como que tenta justificar o injustificável dizendo que não é porque não houve nenhuma excepcionalidade que justificasse o alarde da mídia que a sociedade deixaria de ficar atenta ao perigo de epidemia de febre amarela urbana, apesar de que o veículo não informa que esse tipo de epidemia não ocorre no país há mais de sessenta anos. Ora, poder-se-ia dizer o mesmo sobre a hanseníase (lepra) ou sobre a tuberculose ou sobre a paralisia infantil. Mas escolheram a febre amarela para "alertar" a população sobre um risco de epidemia que de forma alguma jamais esteve no horizonte de desgraças que se podem abater sobre o país.

A mídia pirou? Ou será está debochando da sociedade pensando que debocha do governo? Duvido que alguém do governo que não se vacinou, teve que pegar filas para se vacinar ou não pôde viajar porque não tinha vacina contra a febre amarela ou teve dificuldade em ser atendido num posto de saúde porque eles estavam cheios de pessoas histéricas querendo se vacinar à tôa. Quem pagou o pato foi a população, como sempre. Eu poderia encontrar consolo, entretanto, em que muitos dos que apóiam a mídia foram afetados pelo que ela fez, mas não dá, porque gente que não contribuiu em nada - a não ser com a própria desinformação - para o que aconteceu, ao pagar os efeitos do alarmismo torna inaceitável o prejuízo que teve. É preferível absolver mil culpados do que condenar um único inocente.

Acho que essa sabotagem, que esse crime que a mídia cometeu deveria, inclusive, ser denunciado ao Ministério Público. Talvez eu esteja maximizando as coisas. Não sei. Vou consultar a área jurídica da ONG Movimento dos Sem-Mídia. Não é posssível que tanta gente pague pela irresponsabilidade de meia dúzia de grandes empresários do setor de comunicações.

Paulo Camargo (15/01/2008 - 09:28)
Oi Azenha! Trabalho como professor universitário e também com o tema da psicologia das massas - já te enviei uma mensagem sobre isso -. É uma questão interessantíssima, pois o pânico propagado não só aterroriza e desinforma as pessoas, como também imobiliza qualquer ação que leve a um melhor esclarecimentodos fatos. É como se, depois do bombardeio dos terroristas, sentir culpado frente a qualquer manifestação contra o governo. Também aqui, no caso da febre amarela, voltar-se contra a mídia que afinal de contas "esclarece a população", gera também algo relacionado a esse sentimento. Aí está, ao depositar extrema confiança em imagens e instituições, damos também o nosso corpo e nossa alma a elas, "que nos protegem dos perigos". Ótimo texto Azenha, pois a partir desse tema temos como desenvolver uma pedagogia da coragem, de pessoas mais firmes em buscar a verdade dos fatos. A tempo: não sabia que você era de Bauru. Fico feliz, pois sou de Araçatuba e sempre tenho saudades daquela região quente.

Alan (15/01/2008 - 08:47)
Isso me lembra 1984 do Orwell, onde o estado divulga diariamente à população conquistas de seu exército imaginário numa guerra de mesma característica. É a expectativa de acompanhar diariamente uma história, realmente é o 'circo' do 'pão e circo'. Há várias coisas assim: novelas, BBB's e, como é este caso, notícias alarmantes.

ANTONIO CARLOS GOMES (15/01/2008 - 08:35)
Oi Azenha tudo bem?Outro dia lendo algumas coisa em seu sitio deparei com lembranças suas sobre Bauru,ai não teve jeito tambem lembrei quando passava ferias nesta linda cidade e andava eu menino pela rua Batista e outras por lá,mas já faz muito tempo meu padrinho naquela época fornecia lenha para os fogões de Bauru.Mas recordações aparte,só queria lembrar que a Regina Duarte na campanha do LULA pregou o fim do estado Brasileiro e não aconteceu nada ,fraca a praga dela não acha Azenha?,como sera que o governador Vampiro esta vendo isto e a própria Regina vendo a cratera do metro sem solução?Felicidades Azenha e obrigado pelos seus esclarecimentos

Cida Medeiros (15/01/2008 - 06:38)
O filme Zeitgeist explica como este modelo mental se instalou há séculos
Part 1
http://www.youtube.com/watch?v=7_E4N5...

Part 2
http://www.youtube.com/watch?v=ECMJ2L...

Part 3
http://www.youtube.com/watch?v=OSW1x_...

Part 4
http://www.youtube.com/watch?v=UeSDOb...

Diego Lós (15/01/2008 - 02:08)
Ótima matéria Azenha! De uma forma didática você nos explicou as sutilezas da manipulação dessa mídia comprometida com tudo que não seja do interesse público. Pretendo ser jornalista um dia e é sempre bom frequentar um blog que nos mostre o que é Bom Jornalismo. Parabéns!

Solange Recife-PE (15/01/2008 - 01:22)
Azenha, o que ocorre são casos isolados, comuns a qualquer turista desavisado que vai para áreas de risco sem a imunização. Quantas pessoas são infectadas com a febre amarela no Norte do país? Mas, essa imprensa hipócrita adora uma "teoria do caos" pra fazer notícia. Parabéns pelo novo formato do site, ficou mais organizado e fácil de encontrar as novas matérias.

Clayton Mendonça Cunha Filho (14/01/2008 - 23:50)
Vale lembrar que a Guerra do Vietnã começou utilizando como pretexto um suposto incidente no Golfo de Tomkim, em que navios estadunidenses teriam sido atacados por norte-vietnamitas, incidente esse hoje admitido como falso até pelo então secretário de defesa dos EUA Robert McNamara.

Marcelinho / Recife - PE (14/01/2008 - 22:35)
O pior Azenha que as pessoas acreditam.. Essa do Irã eu cheguei contando na academia ao pessoal, e eles não sabiam que eram 3 pequenas lanchas.... Parabéms pelo site. Sou leitor assíduo do seu antigo blog.. Agora semprre que posso me informo nesse novo site.

Edu Marcondes (14/01/2008 - 22:34)
Caro Azenha
Enquanto lia seu texto foram se desenrolando algumas memórias sobre terrorismo de Estado ao longo da história política do Brasil.
Primeiro,vei à mente a campanha sobre Canudos (1896,1897) em que a Igreja, governo e certa imprensa procuraram justificar as ações militares sobre um Arraial de miseráveis sertanejos transformando-os em verdadeiros agentes de Sataná ou mesmo de professarem ideologia comunista.
Outro caso, foi a campanha terrorista de Getúlio e de órgãos da imprensa da época(1936, 1937) alertando o cidadão brasileiro contra o "perigo vermelho", que ameaçava a paz e a vida da "família brasileira" e exigia a implantação de um GOVERNO FORTE para combatê-la.
O tema é muito interessante. Vou pesquisar mais.

Abraço

Fernando César de Oliveira (14/01/2008 - 19:28)
[Por Luis Nassif]

Epidemia de notícias


Bom material da %u201CFolha%u201D sobre o alarido em torno da febre amarela. O jornal ouviu vários infectologistas, Dráuzio Varela, David Ulip, diretor do Incor, Celso Granato, diretor de pesquisas clínicas do Fleury, Vicente Amato Neto.
Conclusão unânime: a %u201Cepidemia%u201D não existe. O que existiu foi muito alarido midiático.

Clique aqui.

Em contrapartida, a edição do "Estadão" é um terrorismo só. Tudo em cima da corrida às vacinas, não mais da epidemia. Corrida, como se sabe, alimentada pelo alarmismo da imprensa.
http://www.projetobr.com.br/web/blog/5#6060
http://www.google.com/notebook/public/03904464067865211657/BDRliSwoQp7-jv_ci

José Eduardo R. de Camargo (14/01/2008 - 19:09)
Saudações, Azenha! Os EUA reproduzem exatamente as mesmas técnicas de guerra psicológica que os nazistas praticavam na época da Grande Guerra. As manipulações de Goebbels, o notório ministro da propaganda Hitler, fizeram o povo alemão acreditar que os judeus, um grupo étnico-religioso minoritário na Europa, eram uma ameaça letal ao futuro da nação germânica. Da mesma forma, nos países ocupados pela Wermatch, os partisans, resistentes à ocupação, eram descritos pela mídia nazista como terroristas. Vê-se, caro Azenha, e parafraseando Marx no 18 Brumário de Napoleão Bonaparte, que a história agora se repete não como farsa, mas como deboche!



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