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Baú
24 de fevereiro de 2010 às 1:52

Na Índia, sob ataque da máfia da bola

por Luiz Carlos Azenha

O jornal de Nova Delhi descreveu como um incidente chocante. “Agenciadores expulsam equipe da TV brasileira que filmava trabalho infantil”, diz a manchete. Foi em abril de 2002. Aconteceu na Índia o episódio mais traumático de minha carreira.

A Índia e o Paquistão são os maiores fabricantes de bolas de futebol do mundo. Conquistaram esta posição por causa do trabalho semi-escravo de famílias pobres. Os intermediários fornecem às famílias o material: pedaços de couro, agulhas e linha. Mulheres e crianças ganham trinta centavos de real por bola costurada.

Além de tirar meninos e meninas da escola, o trabalho fere as mãos e, segundo ativistas pelos direitos humanos, pode prejudicar a visão. Uma adolescente, Sonia, é a porta-voz da campanha para eliminar o uso da mão-de-obra infantil. O trabalho acelerou a doença que deixou a menina cega. A nossa investigação começou em Ludhiana, uma pequena cidade ao norte de Nova Delhi (foto abaixo).

Sonia estuda em Ludhiana, numa escola para cegos. Ela foi a vários paises denunciar o trabalho infantil na fabricação de bolas de futebol. Foi ao Japão, antes da Copa do Mundo de 2002, promover a causa. Depois de entrevistar Sonia, fomos ouvir os pais dela, em Jalandhar. Um grupo de estranhos apareceu no vilarejo para protestar contra a reportagem. Nosso guia, um repórter indiano, acalmou as coisas.

Voltamos para o hotel, mas ainda não estávamos satisfeitos. Faltavam imagens de mulheres e crianças costurando bolas. Naquela noite, no hotel, tive uma sensação péssima. O telefone tocou, atendi, e ninguém falou do outro lado da linha.

Na manhã seguinte, fomos a um bairro pobre de Jalandhar. Fizemos uma rápida busca. Fomos bem recebidos por uma mulher, que costurava bolas com duas filhas. O cinegrafista Sherman Costa fez ótimas imagens. A mãe que entrevistei disse que era o único trabalho disponível.

De repente, um burburinho na rua. Um advogado indiano que nos acompanhava alertou: era preciso ir embora rapidamente. Pedi ao cinegrafista Sherman Costa que retirasse a fita gravada da câmera. Ele a escondeu na bolsa de mão do produtor indiano, Rajan. Rajan aparece abaixo sorridente, mas naquele dia chorou.

Eu carregava uma câmera digital, que levo nas viagens para gravar imagens de apoio e tirar fotos. Quando deixamos a casa, cerca de cinquenta pessoas estavam por perto da van que tinha nos levado até lá. Começamos a guardar o material.

De repente, um homem saltou do meio da multidão e me atingiu com um soco no rosto. O cinegrafista Sherman Costa, que vinha logo atrás, filmava com a câmera digital, disfarçadamente. Outros homens passaram a nos agredir. Eu pensava apenas que não podia cair. Uma vez no chão, pontapés poderiam realmente fazer um estrago.

Fui socado de um lado para outro, enquanto tentava proteger a cabeça. Uma cena estranha aconteceu então. Uma das pancadas derrubou meus óculos. O homem que havia me atingido se agachou, apanhou meus óculos, me devolveu e, assim que os ajeitei, voltou a bater.

Acho que ele queria ter certeza de que eu apanhava enxergando. Não fiz qualquer movimento que pudesse agitar a multidão. Tentei me afastar do carro. Outras pessoas agrediam nosso produtor e o advogado-ativista que nos acompanhava. Nem uma senhora dos seus 50 anos de idade, outra ativista que havia nos guiado até lá, escapou da fúria: levou um pontapé no traseiro.

Esta foto foi tirada antes do incidente. Nela aparecem, à direita, a ativista que nos acompanhou; à esquerda, o advogado que também foi agredido. O colega Sherman Costa aparece entre Sonia e uma professora dela. A menina albina é colega de Sonia na escola para cegos.

Quando a multidão nos atacou, Sherman foi para dentro da van e se agarrou à câmera da TV Globo. Mesmo agarrado pela roupa, forcei a porta e consegui entrar no carro. Sentei ao lado do Sherman. Minha câmera amadora foi escondida sob um tapete. Nosso motorista havia sumido. Depois, contou que havia sido ameaçado: se saísse conosco, o carro seria incendiado. Alguns homens davam pontapés na van. Outros tentavam nos tirar de dentro dela.

Um braço entrou pela janela e socou Sherman no nariz. O cinegrafista, que sempre deu uma de machão, tratou de ficar bem mansinho. Por um momento pensei: daqui não sairemos vivos. Um rapaz abriu a porta, passou sobre nós e destravou a porta do bagageiro da van. A multidão avançou sobre o equipamento e começou a atirá-lo no chão. Alguns perguntavam pelas fitas gravadas. Encontraram algumas, mas não sabiam que eram fitas virgens.

Arrancaram também a fita que estava na câmera do Sherman. De dentro do carro, vi minha câmera digital passando de mão em mão, antes de sumir. Do lado de fora, o produtor Rajan levou um pontapé e começou a chorar. Chorava alto, feito bebê. Notamos que ele deixou de ser espancado. Eu e o Sherman combinamos: vamos chorar também.

Cabeça baixa, passamos a “chorar”. Talvez na cultura local seja o símbolo maior de humilhação. Ganhamos tempo para respirar. Comerciantes de turbante na cabeça, da religião sikh, deixaram as lojas para acalmar a multidão. Um senhor parecia ter autoridade moral na vizinhança. Procurou nosso motorista, colocou o produtor dentro do carro e pediu que deixássemos a cidade.

Saímos em velocidade, seguidos por motocicletas em que estavam alguns dos agressores. Desistiram logo de nos perseguir. Apesar de agredido, Rajan não se desgrudou da bolsa. Ou seja: a fita principal da reportagem tinha sido preservada. Voltamos a Ludhiana, para entrevistar Sonia de novo. Tínhamos só a câmera, salva pelo Sherman, e a fita que havia sido escondida. Por que a polícia não apareceu?

A máfia da bola fatura alto com o trabalho da garotada. As crianças recebem o equivalente a 60 reais por mês para costurar bolas, depois exportadas para a Itália. Rajan nos explicou que a máfia tinha aliados na polícia.

Disse que dar queixa em Jalandhar nos exporia à burocracia indiana e, provavelmente, a um novo ataque. Era melhor, argumentou, registrar a ocorrência em Nova Delhi. Alguns jornais indianos publicaram a denúncia de agressão feita pela Marcha Global contra o Trabalho Infantil, numa entrevista coletiva. Apelos que fizemos à Embaixada brasileira de nada adiantaram.

Dias depois, quando eu e Sherman Costa já havíamos voltado a Nova York, o produtor Rajan nos informou por telefone que a polícia do estado de Punjab havia localizado minha câmera digital.

Nela estavam as imagens do início da agressão. Rajan disse que fez duas tentativas de recuperar a câmera, pessoalmente. Nada conseguiu. Ele também disse que representantes da máfia da bola haviam entrado com uma ação na Justiça indiana, nos acusando de provocar o incidente. Não deu em nada.

Ainda que incompleta, a reportagem foi ao ar no Jornal Nacional. Eu e o Sherman assumimos um compromisso: voltaremos um dia a Jalandhar. Se não for possível resgatar a câmera, pretendemos repetir a reportagem.

Publicado originalmente em 2005

 

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