O editor Paulo Bolivar, num dos quartos que ocupamos em Moscou, nos anos 80.
Eu, Bolívar e o espião que fumava Marlboro (fotos do Facebook do meu amigo)
por Luiz Carlos Azenha
Se alguém pegasse o menos sofisticado dos manuais do politicamente correto e aplicasse em mim eu estaria frito. Não é por maldade, juro. É por ignorância. Em primeiro lugar, nasci em Bauru. Não quero aqui criar a categoria das justificativas geográficas, mas repito o bordão que ouvi aplicado em outras circunstâncias: você pode até deixar Bauru, mas Bauru nunca, jamais vai te deixar. Podemos falar muitas coisas boas sobre Bauru. É a capital da Terra Branca. Era. Até que um dia descobriram que isso não significava muita coisa. E mudaram. Mudaram para… Cidade Sem Limites!
Bauru, infelizmente, ficou espremida numa história que poderia render muito à sua fama. Pelé nasceu em Três Corações, Minas Gerais. E ficou famoso jogando bola no Santos FC, em Santos. Mas Pelé começou a jogar futebol em Bauru. Mais que isso, passou toda a infância em Bauru. Mas isso não rende muito numa época marcada pelos 140 caracteres do twitter. Pelé nasceu em Bauru soaria melhor. Pelé fez mil gols pelo BAC soaria melhor ainda. Pelé começou a jogar futebol em Bauru não tem a mesma pegada. E daí?, diriam nossos eternos rivais, os marilienses. Além disso, os dirigentes do Bauru Atlético Clube venderam o terreno onde ficava o clube para a construção de um shopping center. O lugar exato onde o Pelé começou a jogar — e onde também fez uma de suas muitas despedidas, que cobri como repórter para um jornal local — fica hoje entre o setor de pneus e o de eletrodomésticos do shopping.
“Foi ali que Pelé jogou”, eu apontei outro dia, quando visitei o lugar com um conterrâneo. Delicadamente, o segurança do shopping pediu que eu me retirasse. Achou que eu estivesse com algum problema.
Portanto, lembremos apenas do mínimo necessário sobre o Pelé para valorizar minha cidade de origem. Eu, Azenha, frequentei o clube em que o Pelé nasceu para o futebol. Tomei o trem da Noroeste na estação diante da qual ele, Pelé, vendeu amendoim e engraxou sapatos.
Bauru também ficou famosa por causa de um sanduíche. Mas a relação entre o sanduíche e a cidade é, igualmente, vaga. O sanduíche Bauru foi inventado em um bar de São Paulo, o Ponto Chic, e ganhou o nome por causa de um freguês cujo apelido era “Bauru”.
Ou seja, o Pelé e o sanduíche jamais vão render a Bauru um museu. Um museu onde a gente diria, com orgulho: ambos nasceram em Bauru!
Há um terceiro fato que talvez ajude a promover Bauru. É a terra de muitos jornalistas. Que eu me lembre assim, rapidamente, é a terra do Roberto Pinto. Do Arnaldo Duran. Do Maringoni e do Gilson Ribeiro. Do Luiz Malavolta. Do Gerson de Souza. Da Kitty Balieiro. Do Leonardo de Brito e do Benedito Requena. Do Amauri Soares. Do Sergio Lhamas. Do Fábio Sormani. Do Nilson (Costa, Avante, etc.). Talvez eu possa argumentar que há alguma coisa na água de Bauru que nos ajude. Ainda assim, não é exatamente uma imagem de sofisticação, que é onde quero chegar.
Nem Pelé, nem sanduíche, nem fonte do saber.
Se ainda fossem o Platini, o croissant, o Le Monde (com sotaque do Renato Machado) e a Perrier…
Mas, não. Em Bauru houve a Água Santa Teresinha. Foi de meu pai, um empresário comunista. A Água Santa Teresinha vinha em garrafões de cinco litros. Os garrafões frequentemente quebravam nos caminhões de entrega. Até que seu Azenha descobriu que repor os garrafões custava mais caro que a água contida neles. Empresário, comunista e, esqueci de dizer, português.
Não me faltaram os livros. Estes eram abundantes em casa, desde muito cedo. Cinco mil, fora os que o Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS) levava para cumprir a cota mensal. Como os comunistas eram raros em Bauru, a frequencia dos meganhas na rua Conselheiro Antonio Prado, entre outros endereços, era considerável. Finda uma visita, seo Azenha já preparava os livros que seriam levados na próxima. Hora de deslocar os que tinham encadernação vermelha para a fileira da frente nas estantes. Sim, ele era português, não brasileiro.
Não me faltou educação. Sempre estudei em escolas muito boas, inclusive no espetacular Instituto de Educação Ernesto Monte, do tempo em que os ricos se misturavam com a gente nas escolas públicas. Muito mais tarde, na Universidade de São Paulo.
Não me faltou frequencia a lugares sofisticados. Nem viagens. Numa delas, à Austrália, fiquei hospedado em um hotel tão chique que um colega que quebrou um prato passou uma semana na cozinha prestando serviço. Mas gostoso mesmo foi ficar no Andra Hotel, de Andradina, e sair sábado à noite para ouvir a banda cover do Abba vestindo calça boca-de-sino. Ou no Hotel Rossiya, em Moscou, sob a guarda, no corredor de nosso andar, de uma babushka que controlava um sifão de água mineral e de um soldado do Exército Vermelho louco para filar um Marlboro e folhear a Playboy.
Bem melhor que a espelunca de Bagdá onde só passava o Saddam Hussein na televisão, noite e dia. O Sherman Costa, cinegrafista, conseguiu comprar cerveja em Bagdá apesar do duplo policiamento sobre nós — dos espias do governo que nos acompanhavam e da polícia de costumes — e bebíamos cerveja quente, de madrugada, vendo os discursos de Saddam e os videoclips de louvação ao Grande Pai. Ser politicamente incorreto em São Paulo é moleza, quero ver em Bagdá…
Apesar disso — dos livros, das escolas, das viagens — sinto-me cada vez mais constrangido diante do que leio na internet, especialmente quando surgem polêmicas.
Quanta certeza, meu Deus! São homens perfeitos. Mulheres acima de qualquer suspeita. Gente que já leu tudo recomendando leitura aos outros. Militantes digitais conferindo cada palavra, cada sentença, cada post, em busca de erros, falhas e contradições — conferindo o cumprimento de cada norma contra um manual imaginário de moral e bons costumes.
Eu sou muita mais feminista que você! O que você escreveu é um lapso lacaniano! Faltou incluir um blogueiro verticalmente prejudicado na entrevista do Lula!
Leitores exigem desculpas! Leitores prometem nunca mais voltar!
Especialmente nesses tempos de 140 caracteres, as polêmicas fazem aflorar afirmações certeiras, sentenças inapeláveis, declarações definitivas.
Sinto-me cercado ao mesmo tempo pelos homens do DEOPS, do exército Vermelho e da polícia do Saddam. A política e a de costumes.
Sinto-me, francamente, um Gordini diante de uma frenética inspeção veicular digital.
Minha primeira reação é correr para conferir se tenho estepe, extintor e a bolsinha dos primeiros socorros.
E preparar uma justificativa geográfica para minhas hesitações, incertezas, incapacidades, erros — em resumo, para a minha rude ignorância.
Gente, a culpa é de Bauru!
PS do Viomundo: Aquele cara que aparece na capa do blog (foto que também reproduzo abaixo), comigo, diante da catedral de São Patrício, chama-se Sergei Dorenko (os outros são o editor Bolívar e o repórter Domingos Mascarenhas). Foi nosso guia em Moscou, num tempo em que “guia” era eufemismo para dizer “espia”. Dorenko, mais tarde — e antes de cair em desgraça com o Putin — tornou-se o mais importante jornalista-comentarista-apresentador da Rússia, tão ou mais influente que o Ted Koppel nos Estados Unidos, no auge do Nightline. Coincidências da vida de repórter.





Leitura interessante. Muitas coisas que eu não sabia e bastante curiosas.
O Azenha na última foto de barba está parecendo o Steve Jobs na época em que ele era novo. rsrsrsrrsrs
Você acredita que só vi esse texto agora?!!!
Mas, como ele é com, rapaz!
Azenha, se lhe sobrar tempo, escreva mais crônicas para o nosso deleite.
abçs.
Que texto maravilhoso, pena tê-lo "descoberto" só agora. Essa amostra grátis deu água na boca, por que não nos brinda com um livro de memórias sobre Bauru ou sobre o mundo; a sua visão de mundo? Seria um presente para nós. Feliz dia dos pais de 2011.
Este post precisa ser relido mensalmente. hahahahaha
Se Azenha leu tantos livros…
…se Azenha tem ascendência diferenciada (?)…
…se Azenha viveu em "u-do-mundo" (como diria o jornalista Milton Neves (sic)…
…se Azenha conheceu e viveu realidades diferentes…
…se Azenha teve coragem para ser politicamente incorreto…
…se Azenha contrabandeava Playboys sem Photoshop…
…se Azenha ainda se inspira na terra que Pelé pisou…
…se Azenha elabora um post para passar em nossas caras a nossa própria pedância…
…se Azenha tem saco para ler nossos comentários antes de aprová-los (imitai-o, PHA!)…
…se Azenha suportava Téo "Não perde-mais! e Cuide-se bem!" José…
…se Azenha sobe diferenciar o comunismo (em casa e na URSS) do ateísmo e crê em Deus (será? Espero que sim!)…
… então Azenha é o cara e, portanto, sabe que nunca poderíamos concordar integralmente com tudo o que diz e, assim sendo, o admiramos, Amigo!
Bauru tb é um dos muitos sinônimos de baseado, não sei por quê.
Ah!!! Essa eu posso responder. Agradeça ao Tim Maia, que chamava seus baseados de "bauru"… "baurete"… e outras coisas mais. Reza a lenda, contada por Nelson Mota, que esse apelido surgiu em referência a um tremendo bauru de uma lanchonete. Salve o síndico, que, sem sombra de dúvidas, preferia um suculento bauru ao seu famigerado chocolate.
Pergunte ao Tim Maia.
Azenha, as vezes eu tenho a impressão que nossa solerte e magistral imprensa é um grupo de Hariovaldistas, mas que levam isso a sério!
Bom, se as crônicas do Azenha fizeram tanto sucesso (e algumas críticas, como não poderia deixar de ser – normal!), além de deliciosas receitas de bauru, gostaria de também contribuir com uma crònica permeada pela culinária, para comprazer ouvidos e paladar simultaneamente… rsrs.
Atenção cumpadi e cumadi: lápis e papel na mão! (ganha um doce quem adivinhar de onde se passa o causo)
Sapassado, era sessetembro, taveu na cuzinha tomando uma pincumel e cuzinhando um kidicarne cumastumate pra fazê macarronada cum galinhassada.
Quascaí de susto quanduvi um barui vinde denduforno parecenum tidiguerra.
A receita mandopô midipipoca denda galinha prassá.
O forno isquentô, o mistorô e o fiofó da galinhispludiu!
Nossinhora! Fiquei branco quinein um lidileite.
Foi um trem doidimais! Quascaí dendapia!
Fiquei sensabê doncovim, noncotô, proncovô.
Ópcevê quilocura!
Grazadeus ninguem semaxucô!
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p.s.: nu causo di voismece carecê di num intendê, nóis traduiz di modos qui ocêis intenda (a culpa é de Minas! rsrs)
antes q alguém interprete algo q não existe, este textículo não tem a pretensão de plagiar o texto do Azenha, não tem a pretensão de ser "paródia" de alguém, não tem a pretensão de se comparar a nada… apenas descontrair um pouco (pode ser q eu seja meio "moron", mas não parava de rir qdo vi esse texto pela 1a. vez)
p.s.2: na pressa de postar, esqueci dos créditos à historinha: NÃO ACHEI o autor, pois em diversas fontes, só tem o texto, em alguns lugares, diferente deste. Caso alguém saiba, diga-nos quem é o pai da criança, please.
p.s.3: "…comprazer ouvidos e paladar…" sim, pois a graça não é ler, mas OUVIR esse povo falar Divertido dimais da conta, sô. Quanto ao paladar, ficou na vontade, pois o término da receita e desgustação foram interrompidos no momento em q o "mistorô" (= o mio storô = o milho estourou….rsrs), causando pânico no mestre cuca (doncovim = di onde qui eu vim, noncoto = ni onde qui eu tô, proncovô = pra ondi qui eu vô)
p.s.4: se eu errei algum termo, aceito sugestões (mas precisa ser de alguém que fale mineirês culto e popular) para q a "obra" não fique desfigurada por uma tradução inconsistente… rsrs (não é sério, mas é divertido… brasileiro traduzindo brasileiro… somos diferentes, mas somos iguais)
Azenha
Gostei demais do seu proseado!
Possível até que essa gente mal humorada que anda vociferando ameaças, caçando bruxas e fazendo uma barulheira tremenda, sabe-se lá por que cargas d'água, vá cantar em outras freguesias.
Boas Festas e muito grata pelo seu excelente e generoso trabalho jornalístico e de emérito escritor.
Caro Azenha,
Meus cumprimentos pelo primor de texto, em que o humor, a referência histórica e a memória pessoal conseguiram uma saborosa mescla, em que lá no fundo, como calda grossa, fica ironia e fina denúncia de uma "inovadora" tentativa de reciclagem do lixo que a direita produz. Foi realmente um senhor presente de Festas. Algo tão bom quanto o fescor amazônida do texto "O Natal da minha aldeia", http://tipoassimflolhetim.wordpress.com
Azenha, Feliz Ano Novo e que o blog siga sendo o sucesso que é.
Azenha
Bauru, a grande culpada! Foi ela quem forjou um blogueiro indômito, politicamente incorreto, chegado ao anarquismo-sindicalista, uma verdadeira ameaça para a nossa melhor sociedade!
A ele, os votos de muita força, fé e coragem para permanecer firme em tanta providencial e benfazeja incorreção.
Boas Festas e Feliz Ano Novo! Votos extensivos a todos os que por aqui vêem o Mundo.