Atualizado e Publicado em 29 de março de 2008 às 06:50

Cidade do Panamá - O general Manuel Noriega cantava de galo. Ex-informante da CIA, o serviço de espionagem americano, era acusado pelos Estados Unidos de se associar ao tráfico de drogas. Os gringos queriam a cabeça dele. O homem dava uma no cravo, outra na ferradura. Deixou um líder da oposição voltar do exílio. Mas quando o político organizou uma passeata, Noriega montou uma armadilha.
Foi em 1989. Nos vimos cercados pelos brucutus panamenhos, que baixavam o sarrafo nos manifestantes e atiravam bombas de gás pimenta. Aquele, que arde nos olhos e causa asfixia. No equipamento que usávamos então, havia um cabo ligando a câmera ao aparelho gravador. Ele se rompeu quando o cinegrafista Hélio Alvarez correu para um lado e o assistente panamenho para outro.
Eu bati em retirada usando um terceiro caminho. Mais tarde, nos reencontramos no hotel. Com imagens exclusivas, botamos no ar a reportagem. Lição número um: não vá a manifestações no Panamá, você nunca vai entender o que eles estão gritando. Prefira sempre o Caribe - as praias são mais bonitas.
Rio Solimões, perto da fronteira do Brasil com a Colômbia - Chuva amazônica é chuva de verdade. Cada pingo enche um copo. O dilúvio nos pegou quando navegávamos rio abaixo, no Solimões, região de Mamirauá, estado do Amazonas. O combustível de nosso barco - uma voadeira, como se diz lá - havia acabado. Viajávamos à reboque de outro barco, tão pequeno quanto o nosso. Era noite.
Árvores se soltavam nas margens e mergulhavam nas águas, arrastadas pela correnteza. Os barqueiros se comportavam como se nada estivesse acontecendo. Apontavam as lanternas para as margens, para se orientar. A água começou a encher nosso barco. Por sorte, havia um canivete e uma garrafa plástica de refrigerante a bordo. Improvisamos um jeito de tirar água do barco, para evitar que afundasse.
Sugeri a um colega que buscássemos uma das margens. "É pior. Se um tronco nos acerta vamos cair no Solimões. Se isso acontecer, não nade. Solte o corpo e deixe o rio te levar. Mais cedo ou mais tarde, você vai parar numa das margens. Cuidado com as cobras, as piranhas e os jacarés", disse ele. "Ótimo, agora estou mais tranquilo", gaguejei. Meia hora depois, a noite se abriu, a lua apareceu linda no céu e chegamos ao destino.
Lição número dois: carregue sempre na bolsa uma embalagem de coca litro vazia. Navegue pelo rio Tietê. Sempre confie num ribeirinho amazônico.
Jalandhar, Índia - Crianças são usadas para costurar bolas de futebol que abarrotam o mercado, meses antes de ter início a Copa do Mundo de 2002. Meninos e meninas abandonam ou nem se matriculam na escola. Trabalham em casa, com as mães, recebendo um centavo de dólar por bola costurada.
O pessoal de uma organização não-governamental dedicada a combater o trabalho infantil nos guia. Para completar a reportagem, falta apenas gravar flagrantes de crianças dedicadas ao trabalho manual. Um advogado da ong nos leva a um bairro de Jalandhar, ao norte de Nova Delhi. Fomos recebidos com alguma desconfiança por duas mulheres que costuram bolas junto com os filhos.
Um rapaz entra na casa e demonstra muito interesse na pequena câmera digital Sony, de última geração, que eu uso para fazer fotos. De repente, nosso guia indiano dá o alarme. Vamos cair fora, rápido. Lá fora, cinquenta marmanjos da máfia da bola - intermediários entre a indústria e a mão de obra - cercam nosso carro. Tiram a chave do motorista.
E começam a nos espancar. Não reajo, só me preocupo em não cair no chão, para evitar os pontapés. Um homem de turbante, o que indica que é da religião sikh, sai de uma loja. Demonstra ascendência sobre o povaréu. Acalma a turma e nos bota na van. Caímos fora voando baixo. Para trás, ficou quase todo nosso equipamento, inclusive minha câmera. Mas conseguimos esconder a fita principal da reportagem-denúncia, que foi ao ar.
Lição número três: se visitar o Templo Dourado, na Índia, agradeça por mim aos sikh. Deixe de ser pão duro e compre aquela câmera descartável para as fotos de viagem. Se o pessoal da ong ligar, mande dizer que foi para Bali.
São Paulo, Capital - O repórter Robinson Cerântula usa uma microcâmera para gravar uma pilantragem. Ela - a câmera, não a pilantragem - é escondida numa bolsa. A idéia é dar um flagrante nos bandidos e denunciá-los na televisão. Por garantia, a equipe que acompanha Robinson, do lado de fora, bota nele um microfone extra, escondido na camisa.
Robinson, católico fervoroso, se comporta como se Deus estivesse ao lado dele. Tranqüilo, bom de conversa, vai arrancando os podres dos malfeitores.
Um comparsa entra na sala e descobre o microfone escondido na roupa do repórter. Os dois homens tentam agarrar Robinson, que se livra e pula pela janela do sobrado. São três metros de altura. Ele cai na calçada e foge. Sofre apenas uma torção no pé. A reportagem foi ao ar - e os bandidos, em cana.
Lição número quatro: freqüente a igreja. Faça cursos de malabarismo e caratê. Antes de tentar ser repórter, preste concurso no Banco do Brasil.
Texto reproduzido pelo jornal Bom Dia Bauru em 29 de janeiro de 2006