Atualizado e Publicado em 23 de março de 2008 às 13:22

CARACAS - A Venezuela é uma democracia. Ponto. Se você vier até aqui, como eu fiz, vai constatar isso nas ruas. Há liberdade de ir e vir, de reunião, de imprensa, de expressão e de manifestação. No encerramento da campanha do SIM, Chávez parecia determinado a explorar o sentimento nacionalista dos eleitores, voltando a atacar o rei da Espanha, a Colômbia e o império americano. Ele também fez referência a um suposto plano dos Estados Unidos para provocar o caos nas ruas da Venezuela se o SIM vencer. Segundo o governo, a Operação Alicate teria o objetivo de extrair Chávez do poder, contando com apoio de setores da oposição e de parte do movimento estudantil.
A oposição determinou que seus eleitores devem votar e permanecer nos locais de votação, para fazer o trabalho de boca-de-urna e denunciar irregularidades. Chávez pediu a seus partidários que acordem na madrugada do domingo com o objetivo de chegar primeiro aos locais de votação. Durante o discurso de encerramento de campanha, Chávez afirmou que, se o SIM for derrotado, deixará o governo no final de seu mandato e se afastará da política. Porém, se o SIM ganhar, afirmou que pode permanecer no poder até 2050. Chávez justificou essa postura dizendo que em 2013, quando termina o seu mandato, o socialismo que propõe seria ainda muito "tenro".
Se a oposição perder, não aceitar os resultados oficiais e promover manifestações de desobediência civil, Chávez disse que na próxima segunda-feira cortará as exportações de petróleo para os Estados Unidos. A Venezuela é um dos maiores fornecedores de petróleo aos americanos e essa decisão causaria caos nos preços internacionais do produto, que tem oscilado na casa dos 90 dólares por barril.
Depois do comício, em que apareceu abraçado à filha Maria e aos netos e fez menções a Jesus Cristo como "o primeiro revolucionário", o presidente da Venezuela ainda participou de dois programas de televisão antes do encerramento oficial da campanha. Em um deles, entregou computadores, ajuda para a compra de moradias e finaciamento para pequenos empresários. Essa atividade febril de última hora pode ser indicativa de incerteza no campo governista sobre o resultado.

O cenário da manifestação, que aconteceu na principal avenida de Caracas, a Bolívar, revelou um sofisticado trabalho de marketing político do século 21. Chávez atravessou a multidão sobre uma espécie de trio elétrico, enquanto o público cantava slogans com refrões simples pedindo a permanência do presidente no poder. Bandas tocavam ritmos populares. Camelôs vendiam CDs com as músicas de campanha, que tinham a foto de Chávez na capa. Não houve manifestações explícitas e oficiais de um culto de personalidade, mas a mensagem da campanha não se referia simplesmente ao SIM, mas ao SIM com Chávez.
A multidão, toda de vermelho, formava uma onda marcante para as imagens de TV captadas por helicópteros. A rede privada Globovisión transmitiu o encontro, dando destaque a ônibus que vieram do interior trazendo partidários de Chávez.
Os slogans ouvidos na manifestação, com referências contínuas a cidades do interior e a grupos específicos de ativistas do governo, indica que a estratégia na reta final da campanha foi de "energizar" a base de apoio que garantiu a Chávez e seus partidários oito vitórias nas urnas desde 1998.
O referendo acontece em meio à falta de leite, que sumiu de padarias e supermercados. Opositores atribuem isso à incapacidade gerencial do governo, enquanto partidários de Chávez dizem que faz parte da campanha de empresários para enfraquecer o presidente diante do eleitorado.

Durante o comício final, que teve uma clima bastante festivo, milhares de cópias de textos referentes às reformas constitucionais foram distribuídas, além de cartilhas para crianças, livros do autor americano Noam Chomski e uma revista sobre Che Guevara patrocinada pela estatal de petróleo, a PDVSA.
Era notável a ausência de jovens brancos, que são maioria entre os estudantes que foram às ruas nas últimas semanas para protestar contra as reformas. Chavistas dizem que os estudantes fazem parte da elite branca do país e foram organizados e financiados com ajuda dos Estados Unidos. De fato, a troca de governos em países como a Ucrânia e Geórgia, patrocinada abertamente com apoio de consultores e empresas de pesquisa dos Estados Unidos, tiveram como um de seus componentes o movimento estudantil.
"Os estudantes já derrubaram dois governos aqui", advertiu um taxista, prevendo que Chávez perderá votos dos próprios chavistas que não se sentem confortáveis com algumas propostas de mudança constitucional, especialmente as referentes à reeleiçao indefinida e à introduçao de conceitos de propriedade coletiva ou comunitária.
Em suas aparições na TV, depois do discurso de encerramento de campanha, Chávez enfatizou diversas vezes que a propriedade privada seria preservada, dando como exemplo os financiamentos concedidos a pequenos empresários e o fato de que entregava casas financiadas a longo prazo pelo governo, com baixas taxas de juros, "que serão herdadas pelos filhos e netos", segundo afirmou.

Caracas é uma cidade em que o centro comercial e os bairros considerados nobres são cercados pelos cerros onde se amontoam as moradias improvisadas da população pobre. Há sinais claros do crescimento econômico dos últimos anos, bancados pela renda do petróleo. A frota de automóveis foi renovada e o país foi o segundo da América Latina em reduçao de pobreza, logo depois da Argentina, no período entre 2002 e 2006, segundo a CEPAL.
A propaganda pelo SIM está espalhada pela cidade, em postes de iluminação, com cartazes que, de acordo com a oposição, foram bancados com dinheiro público. O governo não faz qualquer esforço para esconder isso, uma vez que algumas propagandas oficiais trazem o nome ou a fotografia de Chávez. Por exemplo, um cartaz nas estações de metrô mostra o presidente como protetor das reservas de petróleo, por ter nacionalizado a exploração na bacia do rio Orinoco.
A confiança dos oposicionistas foi reforçada pela manifestação que aconteceu no dia anterior à dos chavistas. A manchete acompanhada por uma foto da avenida Bolívar lotada de oposicionistas, em um dos jornais, era simplesmente "E sem ônibus", numa referência ao fato de que muitos chavistas vieram para Caracas de ônibus bancados pelo governo. Porém, outros milhares usaram o metrô.
Pelas entrevistas que fiz durante a manifestaçao, foi possível determinar alguns dos grupos sociais que dão apoio a Chávez. Há os simplesmente apaixonados pelo presidente, como se ele fosse o novo Messias. Estavam todos próximos ao palco em que o presidente discursou. Há os que acreditam ideologicamente nas propostas de Chávez, como estudantes e professores universitários, integrantes de partidos políticos e líderes comunitários. A maioria, porém, é de gente que se diz direta ou indiretamente beneficiada pelas políticas sociais do governo, que incluem cursos de alfabetizaçao, acesso a universidades locais e tratamento de saúde.
As aparições públicas de Chávez nas últimas horas demonstram que a campanha pelo SIM parece contar com uma grande votação no interior do país. Como o voto não é obrigatório, o comparecimento pode determinar o resultado deste domingo. O metrô de Caracas funcionará gratuitamente. O governo deu vários sinais de preocupação com a divulgação prematura de pesquisas de boca-de-urna.
No discurso de encerramento de campanha, Chávez disse que se isso for feito pela emissora Globovisión, em nome do "direito de informação ao público", a emissora será tirada do ar. E, se isso for feito por empresas internacionais - como a rede CNN -, os correspondentes serão expulsos do país.
Publicado em primeiro de dezembro de 2007
Acho que o colega abaixo não leu direito o texto. Ou então tem a mesma idéia de liberdade de imprensa e de democracia que têm a Veja e a Folha de SP. O que Chavez disse é que SE as emissoras DESCUMPRIREM A LEI e divulgarem resultados de boca de urna elas serão retiradas do ar. Ou seja, numa democracia de verdade, os meios de comunicação se submetem também às leis. Liberdade implica em responsabilidade. No Brasil e nos EUA, a grande mídia, que está na mão de poucos endinheirados, faz o que quer, elege quem quer, derruba quem quer; o governo, apesar de eleito pelo povo, tem medo dela. Isso não é democracia. Na Venezuela, emissora que tenta dar golpe de Estado é fechada. Já no Brasil, a emissora recebe financiamento do governo, entrevista exclusiva com o presidente, o dono vira nome de avenida...