Atualizado em 02 de fevereiro de 2008 às 19:45 | Publicado em 02 de fevereiro de 2008 às 19:41

Ali, de dez anos de idade, tomou a iniciativa. Eu e o cinegrafista Sherman Costa registrávamos cenas do dia-a-dia de Bagdá, antes da guerra. A invasão americana era uma certeza. Ainda assim a capital iraquiana mantinha sua rotina, como se nada estivesse para acontecer.
Sherman filmou a banca de frutas, a peixaria, até que Ali nos interrompeu. Quando soube que éramos brasileiros, levantou a blusa para mostrar com orgulho a camisa número dez da Seleção. Fã de Rivaldo e Ronaldo, o menino iraquiano disse que um dia queria ser como os ídolos. Até ensaiou alguns passes imaginários diante da câmera.
Nos círculos oficiais, havia tensão. Na praça principal de Bagdá, a estátua de Saddam Hussein - aquela, que os americanos derrubaram como símbolo do fim do regime - ainda estava em pé. O Brasil já não tinha embaixador em Bagdá. Um representante cuidava dos arquivos da embaixada.
Fui convidado para jantar com o funcionário e a mulher dele. Auni era cauteloso nas conversas por telefone e até pessoalmente. Depois do jantar, fiquei assustado quando ele sussurou: "Diga lá fora que ninguém agüenta mais o Saddam". Será que ele temia ser gravado até mesmo dentro de um restaurante?
Marquei entrevista com o funcionário e uma visita à embaixada vazia. Queríamos uma imagem da bandeira brasileira hasteada. No dia e hora marcados, Auni não apareceu. Deve ter ficado com medo. Era casado com uma iraquiana e tinha filhos iraquianos. Um deles ia começar a faculdade.
O Brasil construiu estradas e barragens no Iraque. Parte da rodovia que liga Amã, na Jordânia, a Bagdá, foi feita por operários brasileiros. Nossa maior presença no país está enferrujando: são milhares de automóveis Passat, que o Brasil vendeu para o Iraque na mesma época em que ajudava a armar Saddam Hussein com blindados e lançadores de foguetes. As armas foram usadas na guerra contra o Irã.

Os iraquianos são loucos por futebol. Mais fãs do Brasil que eles, só vi no Haiti. No fim de tarde em Bagdá, apesar da iminência da guerra, eu e o Sherman registramos as partidas de futebol em parques públicos. Um dos jogadores usava o uniforme completo do Brasil.
Testemunhamos também uma cena inédita, que eu só tinha visto quando criança. Inconformado com uma decisão do juiz, o dono da bola, um homem barbado, recolheu a propriedade e acabou com a pelada.

A foto mostra a recepção simpática que tivemos, quando dissemos que éramos brasileiros. É assim em todo o Oriente Médio. Quer descongelar uma conversa, conseguir um favor ou escapar de uma situação difícil? Use o futebol brasileiro. Vale em qualquer lugar do mundo.
Publicado originalmente em 2005
Fantástica, brilhante, sensacional esta reportagem...