Atualizado e Publicado em 22 de março de 2008 às 21:33

Vi em Oaxaca, no México, onde a Associação Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) enfrenta um governador do PRI (o Democratas deles), Ulises Ruiz Ortiz, métodos inusitados de mobilização diante de um político que tem apoio de tropas, do governo federal e da grande mídia. O La Jornada, jornal de esquerda, batizou de rádio parede.
Grafiteiros, alunos de artes plásticas e pessoas que têm talento para o desenho são convocados a criar símbolos para o movimento. Eles são reproduzidos em camisetas, em faixas, placas e paredes das casas de manifestantes.

Toda cidade do interior do estado parece ter um destes símbolos num lugar de grande movimento popular. E o dinheiro? Todo fim de semana, na praça central de Oaxaca, a APPO promove uma espécie de quermesse. Um dos desafios é preencher o chamado "quilômetro do peso", mil metros que as pessoas vão cobrindo com notas e moedas.

Oaxaca tem uns dez jornais. O Tiempo se promove falando em "periodismo independiente". Mas é um nojo, como a maior parte da mídia brasileira. A Televisa não cobre os acontecimentos, a não ser para acusar a APPO de promover "a baderna". Curiosamente, a "baderna" da APPO já provocou mais de 20 mortes, desaparecimentos e dezenas de prisioneiros políticos. E as vítimas são todas da APPO.
Quem viaja pela região de Oaxaca vai descobrindo, nas pequenas cidades e nas feiras semanais, cartazes de apoio à APPO aqui e ali. É a região majoritariamente indígena do México. E, como vocês sabem, assim como para a mídia brasileira nordestino pobre que vota em Lula é menos gente, no México índio que apóia a APPO também não conta.

A Televisa é a Globo do México. Há um tremendo fosso entre o que se vê no ar e o país real. Como a Televisa não apresenta a versão real dos fatos, o grande sucesso na praça central de Oaxaca são vídeos produzidos por câmeras amadores que registram a repressão policial e entrevistas sem edição sacana com os líderes e participantes do movimento.
Eles são reproduzidos continuamente em aparelhos de tv e estão à venda por alguns trocados.

E há, ainda, o varal de fotos e jornais. Traduzindo para a realidade brasileira: quer ler o Globo, mas só a página de esportes? Tudo bem, leia na praça. O jornal fica pendurado lá. Todo mundo pode ler. É uma forma de boicote aos jornais que mentem e deturpam informação sem privar os leitores de uma leitura diária. Não quer assinar? Leia o jornal na praça.
Há, também, um varal com as notícias mentirosas ou deturpadas. Os ativistas destacam os trechos que trazem falsidades e acrescentam, num texto à parte, sua versão para os fatos.
Parece tudo rudimentar, não é mesmo? Foi o jeito que a APPO encontrou de se comunicar com seus militantes. Nada de jornais coloridos e vídeos super-editados. Comunicação caseira. Afinal, você acha que um zapoteca tem intimidade com o glamour de um estúdio de acrílico ou com as loiras oxigenadas da Televisa? Tem nada, sente-se mais à vontade lendo um folheto mimeografado.
Publicado originalmente em 2007
Muito legal saber que está se mantendo viva a tradição dos grandes muralistas mexicanos, como Diego Rivera, Siqueiros e Orozco. De uma maneira mais simgela, tudo bem, mas o importante é que essa fantástica escola mexicana de arte, que se destacou mundialmente, não morra. Aqui no Brasil, não há essa tradição, mas há grafites de protesto muito bons sendo feito pela garotada