Atualizado e Publicado em 09 de abril de 2008 às 02:27
Do arquivo do site, entrevista com o economista Gilberto Dupas, do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais:
Viomundo: Como é que você explica esse descompasso entre o que está na mídia e a tranqüilidade do Brasil econômico?
Dupas: Eu acho que existe uma síndrome que é o chamado sucesso do governo Lula e as nossas elites, sejam as elites políticas, sejam as elites econômicas.No caso das elites econômicas chegou-se claramente a um "acordo", que começou lá na Carta aos Brasileiros e que continuou quando o Lula adotou uma política monetária mais ortodoxa que o governo anterior e acabou, na opinião dele, achando que os dividendos dessa política foram mais positivos do que negativos, uma vez que ele aprofundou a estabilidade, embora tenha crescido pouco, ou menos do que cresceram os países emergentes.
Para as elites econômicas essa troca foi considerada bastante positiva porque, embora haja pressões do setor industrial, principalmente por causa da taxa de juros, como as elites brasileiras do setor industrial em boa parte se transformaram em rentistas - na realidade estão interessadas muito mais na taxa de juros do que no retorno do investimento -, efetivamente para uma parte dessas elites a política atual é a melhor do mundo. Basta ver o lucro dos bancos.
Viomundo: Então é por isso que a gente não vê crítica ao Meirelles e vê críticas ao Franklin Martins?
Dupas: Sem dúvida. Agora, para dar um passo além nessa direção, o Banco Central está incorporando a idéia de que acumular reservas - embora sempre tenha sido visto como um custo - é o caminho mais curto para conseguir o investment grade e isso dá uma racionalização nova e importante para a interferência no câmbio, para evitar que ele caia muito mais do que está - e com isso amenize um pouco das tensões do setor industrial. Se o câmbio fosse a 1,90 ele teria pressões muito grandes do setor industrial e inclusive do setor agrícola - uma parte da soja, por exemplo, já está tendo problemas. Eu diria que as elites econômicas estão bem adaptadas ao momento Lula. Tem queixas aqui e acolá, mas o país de alguma forma - especialmente a renda baixa - está crescendo, a economia está se movimentando, essa revisão dos números das contas nacionais foi feita com inteligência e com prudência, ninguém cheirou manipulação, todo mundo achou que os números evidenciaram uma realidade que era melhor do que se percebia.
Viomundo: O descompasso então é com a elite política?
Dupas: A elite política está assustada - outro dia eu vi uma frase de um político, secundada por um jornal importante, dizendo que "se o PAC der certo nós estamos ferrados". Se o PAC der certo, sorte do Brasil. Ele dizia: "Aí o Lula teria instrumentos para fazer um terceiro mandato". Mas espera aí... o Fernando Henrique fez o segundo mandato quando a Constituição proibia. Eu sou absolutamente contra a idéia de terceiros mandatos mas por quê essa reação tão exacerbada? Se o PAC der certo, bom para o Brasil, e que a oposição mostre competência suficiente para mostrar uma alternativa melhor que essa e disputar no voto.
Viomundo: Você é petralha?
Dupas: Nem sei o que é isso. O instituto Lula, hoje, tem muito pouco a ver com o PT. Ele é um ente político muito complexo que veio para atenuar um problema grave que é como conduzir um país crescendo relativamente pouco e em relativa entre mil aspas "paz social", apesar do aumento progressivo da desigüaldade de renda, dos aumentos progressivos da criminalidade, da violência - isso interessa a todo mundo, a começar das elites. O PT hoje tem muito pouco a ver com o Lula. O Lula é uma instituição política emblemática, que articula uma frente política muito ampla e é a oposição, na realidade, que está se esfrangalhando.
Viomundo: Como assim?
Dupas: O que é a chamada oposição mais sólida? Um PSDB que insiste em buscar forças no velho - e não percebe que o velho PSDB acabou, os velhos personagens inclusive - e que o novo PSDB sairá dessa disputa Serra vs. Aécio, cuja mistura ideal seria a competência e o pragmatismo do Serra com a habilidade política do Aécio, mas aparentemente podem não caber os dois no mesmo partido. E tem o PFL, por enquanto ainda é uma coisa, mas ele ocupa um espaço que no espectro político precisa ser ocupado, o espaço da direita formalizada, da direita não tapada. O fato concreto hoje é que o Lula, por uma série de circunstâncias que tem a ver inclusive com a sua habilidade de governar e com as circunstâncias externas favoráveis, conseguiu uma frente suficientemente ampla com uma oposição bastante desarvorada.
Viomundo: E o ingrediente militar?
Dupas: O lado militar, nessa história, padece dos males de sempre. Ou seja, soldos baixos e pouco orçamento para reformar a máquina. Isso vale para a Marinha, que vive à mingua há muitos anos, para a Aeronáutica, que não pode comprar aparelhos e isso vale para o Exército, que não tem dinheiro para comprar lanche para os recrutas. Evidentemente que nos tempos democráticos em que estamos a insatisfação militar tem um componente muito diferente das antigas épocas. Só que essa questão militar está presente para todos os governos, seja por falta de verba para o submarino atômico da Marinha, seja para a questão da reforma dos aviões, seja para o dinheiro para a Calha Norte, para policiar a Amazônia.
Viomundo: E os fatos novos?
Dupas: Venezuela e Chile. Venezuela porque o Chávez tem muito dinheiro e decidiu rearmar razoavelmente e Chile porque, na moita, ainda no arrasto das acomodações com o Pinochet, é o país latino-americano que mais gasta com armamento. Isso tira o sossego dos militares daqui. E a segunda coisa foi essa maldita/bendita crise dos controladores. Eu estava dando aula em Paris no fim do ano passado, depois peguei um jornal americano e estavam lá enumerando os mesmos problemas. No artigo dizia que no ano passado 22% dos vôos americanos atrasaram. Causas? As mesmas: equipamento, controlador... Os aviões voam mais agora - 16 horas por dia - e tem o problema da malha seqüencial de pousos e decolagens. Segundo, as companhias aéreas tem menos margem de lucro. Terceiro: os controladores reivindicam. Quarto: Tem menos equipamento e os que tem são obsoletos. Estou falando dos Estados Unidos. Na Europa tem uma conversa muito parecida. O ingrediente da crise, não na mesma dosagem, é global. A questão aérea está desarrumada no mundo todo e a razão é o novo equilíbrio das companhias aéreas e a maneira como elas superfaturam os aviões e o aumento do número de passageiros por causa das baixas tarifas.
Viomundo: É um problema global?
Dupas: Muitas vezes a nossa imprensa esquece. Como é que ele repercutiu aqui? Aqui você tinha um pouco mais de equipamento obsoleto, a crise da Varig, o açodamento da TAM e da Gol para ocupar mercado, o manda-brasa na ocupação das aeronaves, poucas aeronaves de reserva. Tudo o que é tupiniquim é pior do que lá fora. O que tem de novo? O governo Lula retirou da mala um componente que é forte nele para certas coisas, o componente do padrão de negociação sindical. O Lula é mestre: barganha, berra e negocia, berra e negocia. Ele teoricamente está habilitado melhor do que ninguém para fazer barganhas desse tipo com uma ressalva, não no estamento militar. E aí bateu na questão da hierarquia. E aí gente se agitou, caras da reserva, trazem de volta coisa de Goulart e Lula se deu conta dessa história e partiu para fazer a ponte para poder, de alguma forma, exercitar o melhor do comportamento maquiavélico, da ética governante. O governante é obrigado a manter a governabilidade a qualquer preço e o resto ele sacrifica assim como o Fernando Henrique mandou embora o Mendonça de Barros... Depois vai dizer para os controladores que mandou negociar porque não podia parar os aeroportos. Isso é privilégio dos governantes, ser maquiavélico dentro da ética maquiavélica. Tem rastilhos no meio do caminho que tornam a situação muito delicada.
Viomundo: A crise vai longe?
Dupas: Eu acho que pedaços da oposição até gostariam que essa crise tivesse outras proporções, esses mesmos pedaços da oposição gostariam para desgastar o governo Lula mas sabem que não dá para mexer nesse vespeiro porque é perigoso e pega em todo mundo.
Viomundo: Que história é essa de Chile e Venezuela?
Dupas: Existe uma certa inveja, porque o Chávez tá comprando equipamento novo, o Chile está com a Marinha mais moderna que a brasileira. O Chile gasta o dobro do percentual de PIB em relação ao Brasil em equipamentos militares desde aquela história de acomodar o Pinochet e isso continuou. Há um certo ciúme. "Daqui a pouco o Chávez tem aviões que podem sobrevoar o nosso espaço aéreo, com autonomia... e nós não temos", dizem. É uma ciumeira latino-americana.
Viomundo: Tem mesmo essa ameaça do Chávez?
Dupas: A relação do governo Lula com o Chávez e o Evo Morales são duas relações complicadas mas que estão sendo tratadas com inteligência. O Lula já percebeu que agüentar o Chávez não é mole, mas aproveitou-se com inteligência sabendo que só uma explosão da CAN (Comunidade Andina de Nações) poderia permitir uma integração sul-americana. A CAN tinha um tratado prontinho para ser assinado com os Estados Unidos dentro de seis meses e explodiu por causa das maluquices do Chávez, que resolveu confrontar e olhou para o Mercosul. O Lula percebeu que era uma chance pra gente ajudar a olhar a América do Sul como um todo e não um pedaço do bloco andino acordando com os Estados Unidos. Depois teve a eleição no Equador, que ajudou. Com isso, embora uma grande utopia, o preço para ainda olhar a América do Sul como espaço regional integrado é o preço de ter que agüentar o Chávez. Com tudo o que o Lula fez, os Estados Unidos continuam olhando o Lula como o algodão entre cristais.
Viomundo: E o Morales?
Dupas: O Evo Morales está condenado para sempre a ficar com um olho no Chávez e outro no Lula para tirar vantagem dos dois lados. O que o Lula fez? Mandou a Petrobrás morder e passou a mão na cabeça do Evo Morales. O resultado final não foi mau. A negociação do preço do gás está tendo resultados razoáveis, o Brasil tem muitos interesses econômicos na Bolívia. Eu acho que nesse aspecto o Lula vai bem.
Viomundo: Então o Lula é mais criticado pelas virtudes do que pelos defeitos?
Dupas: Ele acabou se transformando num governante que teve uma política externa razoavelmente adeqüada às circunstâncias e que dentro fez um pacto com as elites que se resolveu mais ou menos bem. Eu prefiro que a oposição tenha idéias. Tenha projetos. Tenha propostas. Isso é o que está faltando, porque seria inclusive uma forma de colocar o governo Lula contra a parede em questões importantes da questão monetária, da taxa de juros e aí aparentemente não há muito fôlego. Sobra essa coisa de CPI, de apagão, de militar, de futrica. Eu preferiria que a oposição tivesse mais propostas alternativas, que faltam para provocar o governo Lula nas coisas em que ele está sendo muito fraco, por exemplo, a falta de um modelo de desenvolvimento para o Brasil... faltam propostas e fica a oposição restrita ao estilo Nelson Rodrigues.
Publicado originalmente em 3 de abril de 2007
Quanta Besteira 2... Que situação estável é essa que falaram aí embaixo, o Lula pegou o dólar a R$ 4 e ele está a R$ 1,6 e continuamos a bater recordes de exportações, o barril do petróleo está estratosférico, o EUA quebrado, vocês queriam mais instabilidade? ora viúvas do FHC nçao chores sobre o leite derramado. Ele é o cara!!!