Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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ÓCULOS

Atualizado e Publicado em 29 de março de 2008 às 07:53

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Nunca fui desprezado por uma garota do Leblon, como cantavam os Paralamas. Nunca namorei uma delas. Mas cheguei perto – ela era do bairro vizinho, São Conrado, e nunca se importou com meus óculos. Nem eu. Entrei agora numa fase que é comum a muitos de nós, os quatro-olhos. Tiro os óculos ao chegar em casa e, quando preciso deles de novo, lá vou eu apalpar os móveis em busca de minhas gafas.

É assim que se fala óculos em espanhol. Glasses - vidros, em inglês. Quando perco o celular em casa, é só discar o número na linha fixa para encontrá-lo.
Gostaria de poder fazer o mesmo com meus óculos. Por precaução, tenho dois pares além daquele que vive equilibrado entre meu nariz e minhas orelhas.

Guardo também os óculos antigos, com lentes que um dia serviram a olhos mais jovens e aguçados. Através deles, vi coisas belas e trágicas. Muita gente já me perguntou qual foi a reportagem mais bonita que fiz. Sempre respondi de sopetão, puxando pelo primeiro caco da memória. Mas agora, que estou aqui sozinho, diante do computador – e sem óculos – páro para refletir e descubro: nunca transformei em reportagem as cenas mais belas que vi.

Eu estava lá quando minhas duas filhas nasceram, ambas de parto natural. E me lembro bem das veias que irrigavam a placenta. Que surpreendente a beleza daquela embalagem de onde sairam Ana Luisa e Manuela, cada qual em seu tempo. A médica americana, do hospital novaiorquino, segurou com a pinça o cordão umbilical e eu mesmo, com meus óculos e um tesourão, cortei o troço e entreguei as meninas ao mundo.

Mas eu estou aqui para falar de óculos, não de partos. Atribuo a eles o maior sucesso de minha carreira de repórter. Aos óculos, sim; não os meus, os de Alexander Yakovlev. Ele foi um poderoso líder da extinta União Soviética. Braço direito de Mikhail Gorbatchev. A dupla bolou e colocou em prática a abertura política e a reforma econômica que levaram ao fim do comunismo soviético, ainda que não era bem isso o que pretendiam. Foi nos tempos da Rede Manchete que tive a sorte de encontrá-los em Moscou, num dos pátios do Kremlin – ainda hoje a sede do poder russo.

Aos berros - e resistindo aos safanões dos seguranças – nossa equipe arrancou a primeira entrevista improvisada de um líder soviético. Uma notícia tão inusitada que correu o mundo. Nada teria acontecido não fosse a ajuda de Yakovlev.

Ex-embaixador no Canadá, fluente em inglês, ele serviu de tradutor improvisado para que Gorbatchev entendesse minhas perguntas - e eu, as respostas dele. Até hoje conservo a fita completa, que registra a rebeldia dos óculos de Yakovlev. No início da entrevista e no meio de uma multidão, os óculos do embaixador caíram no chão.

Todos nos abaixamos, ao mesmo tempo, para apanhá-los, num movimento que quase me levou a bater cabeça com Mikhail Gorbatchev. E pensar que eu poderia ter nocauteado, com uma cabeçada involuntária, um dos dois homens então capazes de detonar o mundo numa guerra nuclear. Há dúvidas se o outro todo-poderoso da época, o presidente americano Ronald Reagan, tinha mesmo um cérebro – ou se só emprestava dos outros.

Mas eu estou aqui para falar de óculos, não de cérebros. Os de Yakovlev, encontramos sãos e salvos, depois de alguns segundos de busca. Pelo bem da Humanidade não haviam sido pisoteados. Restaurada a ordem, pudemos enfim avançar na entrevista.

Nunca imaginei que iria causar tal rebuliço: as redes americanas ABC e CNN nos procuraram para pedir cópias, a tv estatal russa exibiu a entrevista na íntegra e até a TV Globo pôs no ar um trecho, no Jornal Nacional, reconhecendo o êxito da emissora concorrente.

Como deixei de acreditar em coincidências, atribuo hoje àquele incidente prosaico – ou seja, aos óculos de Yakovlev – o furo de reportagem. Foi ali, quando todos nos agachamos – Yakovlev, eu, Gorbatchev – que nos igualamos. Éramos simples mortais, tentando resgatar um objeto que sabíamos fundamental.
Eu tinha perguntas a fazer, Gorbatchev tinha respostas a dar. O mais importante é que Yakovlev tinha resgatado os óculos, desconfio até que agradeceu esticando a conversa, em meu benefício.

Sem aquela armação robusta, que sustentava as grossas lentes de Yakovlev, quem sabe nem estivessemos mais aqui, pulverizados pela miopia temporária de um dos homens que tinham o dedo no gatilho nuclear.

Texto reproduzido pelo jornal Bom Dia Bauru no dia 27 de novembro de 2005


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Fred (10/07/2008 - 21:56)
Pô, libera essa entrevista no Youtube.

Altino Correia - Presidente Prudente / SP (06/07/2008 - 21:45)
Azenha: Seus óculos que motivaram aquela estória toda por ocasião da entrevista com Gorbachev não deveria ser simplesmente transferidos a uma pessoa necessitada, mas ao Museu Histórico Nacional como "peça rara". Afinal não é todo dia que surge uma oportunidade como esta para uma entrevista de repercussão mundial, como ocorreu em sua vida de repórter. Quem sabe o próprio Museu de Bauru não se candidate a receber seus óculos com toda pompa? Você faz jus a tudo isso, pois nasceu lá e se revelou como o grande repórter da TV!

ANTÔNIO ALBERTO (Pe. Alberto) MENDES FERREIRA. (19/05/2008 - 12:41)
MARINA SANTOS, PARABÉNS !!!-pelo comentário do dia 29/03 -. A SENHORA É MUITO PERSPICAZ E TEM UM SENSO CRÍTICO AGUÇADO. A VERDADE TEM QUE SER BEM'DITA ... EU TAMBÉM VI A CENA DA POSSE QUE A SENHORA RELATA. FOI EXATAMENTE DO "JEITINHO" QUE A SENHORA FALOU E PERCEBI TUDO O QUE FOI DESCRITO.

TONINHO CATARINA (13/05/2008 - 13:14)
Azenha: só de ler ou ouvir falar em óculos, me dá arrepios. Faz oito meses que trabalho numa Comunitária em SC e já comprei CINCO. A ótica ganhou mais em óculos comigo, que eu em salários na rádio.Mas o tema é JÓIA.Parabéns e continue assim: legal

Jairo Fernando (18/04/2008 - 11:18)
Texto muito agradável de ler. Claro, fui atraído pelo fato de também usar óculos, de alto grau, contra miopia. Você já contou sobre esta reportagem, em outro texto, muito legal também. Sou mais um a fazer coro ao Eduardo Guimarães.

José Eduardo R. de Camargo (03/04/2008 - 19:13)
Concordo com o Eduardo Guimarães. Você também é craque nas crônicas. Continue a invistir nesse gênero, hoje, infelizmente, cada vez mais raro. Um forte abraço!

Gustavo Pamplona (01/04/2008 - 16:48)
Azenha... Não quero ser chato mas porque você não doa seus óculos antigos. Existe muitas instituições de caridade que os aproveitam, eu mesmo faço isto. Eu uso óculos desde os seis anos de idade, nasci com astigmatismo herdado e lá pelos meus 12 anos comecei a ter miopia e assim como você tenho um reserva além de um escuro com grau.

Isabel (30/03/2008 - 02:13)
Concordo com o Eduardo. Jornalista já é de fato, poderia ser também escritor. Tem estilo próprio e agradável. Quanto aos óculos...nem morta! Vou fingindo que vejo...hehehe!

Dulce Leão (29/03/2008 - 13:36)
Azenha, estas duas garotinhas da foto, são a sua cara quando mais jovem. :)

Dulce Leão (29/03/2008 - 13:31)
Azenha...não dói não! 8) palavra de quem convive com êles desde garota...se optar pelos multifocais, até esquecerá de sua existência. Para as meninas o truque é: usá-los sem armação visível, variando os modelos, e CAPRICHAR NA MAQUIAGEM DE CLEÓPATRA ahahahah. Mas como você parece neófito, no assunto, vou dar-lhe uma dica preciosa para MANTER SUA VISÃO...embora muito difundida, MANTENHA-SE DISTANTE DE LENTES DE CONTATO. 1. FARÁ DE VOCÊ UM ESCRAVO, EM TERMOS DE ACEPSIA. 2. NÃO ACEITA PRORROGAÇÃO, SE NÃO LIMPAR NA HORA, INFECCIONA. 3. CONHEÇO PESSOAS QUE FICARAM CEGAS POR USO RELAPSO DE LENTE DE CONTATO, (já trabalhei com deficientes visuais). Sem contar que óculos tem seu charme...quem o vê sem êle vai se achar a mais íntima das criaturas ahahahahah. Mas se for FUNDO DE GARRAFA...do que Deus me preservou...só tem um jeito das "meninas do leblon" olharem pra você...diga:" EU SOU LUIS CARLOS AZENHA" , e elas cairão MATANDO!!!! AHAHAHAHHAHAHHAHAH...desculpe-me...não resistí a fazer a piada...se você os perder...comece a procurá-los como diz a música..."pelos criados mudos da vida, andando em troca de pão...todo artista tem que ir aonde o povo está...assim vai ser...assim será....quaquaquaqua!!!!Relaxe!!!! :))))

Eduardo Guimarães (29/03/2008 - 12:54)
Azenha, você é magnífico nas crônicas. Invista mais nisso. Adoro. Estão caindo em desuso (as crônicas). Estou terminando de ler as cem melhores crônicas do século 20. Machado de Assis, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues etc. Você nota que, chegando ao fim do século 20, elas vão perdendo aquela magia e se transformando em banalidades. Esse é o estilo de crônica que encanta. Contemporânea e como não se vê. Você é um dos melhores jornalistas que conheço, se não for o melhor. Um forte abraço.

maria santos (29/03/2008 - 12:54)
Em tempo, lindas crianças. Parabéns!

maria santos (29/03/2008 - 12:53)
Tudo que VC. escreve é muito bom, Sr. Azenha............. ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Falando em óculos....saiu uma reportagem, por ocasião da posse do Exmo. Presidente Lula, não me pergunte o nome da revista agora, acho que a guardei em algum lugar......então, dizia que ao trocar faixas o Sr. Lula derrubara o óculos do infame. Liguei para a tal, indignada com a mentira: "Quero que escrevam a verdade. Não foi o Sr. Lula que derrubou o óculos do infame; foi o próprio que, atabalhoadamente, ao tirar a faixa o derrubou...........O Presidente, num ato contínuo, pressuroso, humilde, abaixou-se para o colher do chão. Só que o tal [infame é sempre infame] custou muito para o receber de volta, causando grande desconforto ao Presidente que ficou com aquele trambolho na mão um tempão. Eu estava lá com os olhos que a terra há de comer, pregados, no grandioso evento, ví, ninguém me contou":::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Deram um muxoxo.::::::::::::::::::::::::::: Já era o começo do desdém da imprensa tupiniquim marrom para com o Presidente eleito pela maioria. A reportagem dava impressão de que o Sr. Lula estaria muito nervoso por se achar menor, mais desajeitado; era, justamente, ao contrário. Via-se na fisionomia do fanfarrão que se despedia um grande desgosto e nervosismo.

Conceição Oliveira (29/03/2008 - 10:49)
Azenha, quando leio textos assim, ou quando vejo coberturas como as do cansei na Paulista, agradeço o fato de vc ter deixado as redes de tv e ter se transformado em blogueiro. Assim, podemos compartilhar um olhar com lentes mais focadas naquilo que realmente interessa com pitadas de humor, fina ironia e boa crônica.



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