Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha

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O RAIO DE BAURU

Atualizado e Publicado em 28 de fevereiro de 2008 às 14:33

Segundo o governo Fernando Henrique, aconteceu mais ou menos assim: um raio caiu numa estação retransmissora de energia de Bauru, no interior de São Paulo. A sobrecarga apagou o sistema elétrico que fornece energia às maiores cidades brasileiras. Aconteceu em março de 1999. Foi o maior apagão desde a metade dos anos 80. Na época, eu era repórter especial da TV Globo, no Rio de Janeiro.

Como nasci em Bauru, fiquei especialmente interessado pelo assunto. A mídia reproduziu a versão oficial. Na redação da TV Globo, passei a investigar. Fui conversar com o professor Luís Pinguelli Rosa, da Universidade Federal do Rio, que tinha escrito um artigo dizendo que um raio não tinha sido a causa do blecaute. Ele argumentava que o sistema elétrico brasileiro estava no limite, o que depois ficou amplamente comprovado.

Descobrimos que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, em São José dos Campos, tinha um especialista em raios. Um de meus chefes na época, Luís Erlanger, bancou a investigação. O técnico reafirmou o que havia dito Pinguelli: não havia indícios de que um raio em Bauru tinha sido a causa do apagão.

O próximo passo era visitar Bauru. Tive o privilégio de ficar hospedado na casa de meus pais, enquanto investigava a história. Fui até o Instituto de Pesquisas Meteorológicas da UNESP, reconhecido em todo o Brasil como um centro de excelência científica. O especialista entrevistado não confirmou a versão do governo: "Pode ter caído um raio, mas não foi em Bauru".

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Para dizer isso ele se apoiou no mapa das tempestades registradas no dia 11 de março de 1999, às 10 e 15 da noite, hora do início do blecaute. Houve tempestades elétricas, sim, mas longe de Bauru (as pequenas manchas em roxo). Por que era importante definir se o blecaute tinha ou não sido causado por um raio?

Porque, neste caso, as empresas distribuidoras poderiam alegar "causa fortuita". Não teriam que indenizar os consumidores que perderam aparelhos eletrodomésticos. Fui visitar a subestação da Companhia Energética de São Paulo, a CESP, em Bauru, onde - segundo a versão do governo - o raio teria caído. Não havia sinal de danos.

Quem matou a charada e enterrou de vez a versão do governo foi meu irmão, José Carlos Azenha, que também é jornalista. Ele tinha fontes dentro do Sindicato dos Eletricitários de Bauru. Através delas chegou a um funcionário que estava na subestação, na noite do blecaute. O funcionário concordou em dar entrevista, desde que não mostrasse o rosto e tivesse a voz distorcida. Tinha medo de ser reconhecido e demitido.

Contou o que viu, na noite do apagão. Disse que estava na subestação trabalhando e não viu ou ouviu raio algum. Confirmou o que o professor Pinguelli havia dito no Rio: o sistema trabalhava no limite, faltavam até peças de reposição. A reportagem sobre o raio de Bauru foi ao ar no Jornal Nacional. Logo autoridades do governo mudaram de versão. Um raio teria caído, sim, mas longe de Bauru.

As empresas concessionárias, anunciou o governo, teriam de arcar com o prejuízo dos consumidores.

Publicado originalmente em 2005


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Francisco Pereira Neto (22/03/2008 - 17:59)
Isso quer dizer: mentira, safadeza de um governo incompetente. Agora, cadê as indenizações? No segundo apagão, eu tinha um exame (colonoscopia)agendado para as 13:00 horas nesse fatídico dia, no HC da Faculdade de Medicina da UNESP de Botucatu. Tive que esperar até restabelecer a energia. Não me lembro quanto tempo demorou. Quando voltou, o médico iniciou os procedimentos para o exame. Tomei anestesia e apaguei. Só sei dizer que durante o transcurso do exame comecei a sentir dor, mas não sabia há quanto tempo eu estava alí. Reclamei para o médico que estava sentindo dores e ele cautelosamente me informou que o exame estava terminando. Como eu estava sentindo muito, de repente apaguei. Quando recobrei os meus sentidos, a enfermeira que me assistia e era minha conhecida, disse-me que durante o procedimento caiu a energia novamente e fiquei alí anestesiado por cerca de 01 hora, quando o médico reiniciou o exame, e durante essa segunda etapa comecei a sentir as dores. Ele tentou completar o procedimento sem ter a necessidade de reforçar a anestesia porque não era conveniente fazê-la pelos possíveis riscos. Mas depois ele me informou do ocorrido. Alguém poderá perguntar: o HC não tem gerador de energia? Tem. Só que ele estava direcionado para os setores do HC prioritários como centro cirúgico, UTI's etc. O médico me explicou que tentou terminar o exame com a anestesia inicial porque a quantidade usada estava dentro do limite que eu deveria tomar, por isso a cautela em refoçar a anestesia depois da segunda queda da energia. Espero que não tenha acontecido nada com ninguém nesse país em consequência da maguinífica gestão do senhor FHC.

Altino Correia - Presidente Prudente / SP (06/03/2008 - 20:18)
Azenha: É verdade que no dia em que se noticiou esse apagão, em Bauru não havia nuvem alguma em toda a área? Se havia "céu de Brigadeiro", como se explica a incidência de um raio que deixou todo mundo na escuridão? Como você é de lá, e como bom jornalista nada melhor que o seu testemunho! Aliás, você pode ser considerado "testemunha ocular da história" de Bauru. Abraços! Altino Correia.

milton (02/03/2008 - 02:26)
Essa história é boa. Eu morava a pouco mais de 1 quilômetro da subestação. Não houve raio algum, nem choveu em Bauru.

FAbio (29/02/2008 - 16:31)
Era aluno da Unesp neste ano em Bauru, e lembro-me bem, nao houve chuva nem raios. Mas sobrou incompetência e mentiras

Mateuz (28/02/2008 - 21:04)
Sensacional Azenha, esse trabalho invesygativo da imprensa tem que ser exaltado sempre mas independente do governo.



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