Atualizado e Publicado em 02 de março de 2008 às 11:48

Somos todos bauruenses.
Amauri Soares, presidente da Globo Internacional.
Edson Celulari, que não requer apresentação.
E este que vos escreve.
O encontro foi na sede da TV Globo, em Nova York, quando Edson foi entregar capítulos de novelas e produções jornalísticas que foram incorporadas ao acervo do Museu de Rádio e Televisão da cidade.
Relembramos, então, os velhos tempos de Bauru.
Curiosamente, jogávamos no mesmo time de futebol.
Na várzea, como se dizia em Bauru.
O Amauri era goleiro.
Estatura mediana para a posição.
Mas era flexível.
Gostava de se adiantar.
Numa ocasião, deu dois passos para se afastar da trave.
Era um convite ao atacante adversário para bater por cobertura.
O centroavante percebeu a oportunidade e arriscou.
O Amauri saltou e com a ponta dos dedos botou a bola pra escanteio.
No intervalo, cobrei dele.
Achei que estava jogando muito adiantado.
Ele me disse que fazia por querer.
Era uma forma de frustrar e, portanto, desmoralizar o adversário.
Eu jogava na intermediária.
Minha forma física nunca foi das melhores.
Fazia o possível para dar combate, armar jogadas.
Era um mau jogador, mas esforçado.
O técnico era um velho amigo, que frequentava minha casa aos sábados.
Churrasco e cerveja garantiam a escalação como titular no dia seguinte.
Em campo, eu era lento, mas não era bobo.
Tinha uma jogada certeira.
Estudava o goleiro adversário durante a partida.
Descobria em que pé ele se apoiava.
Quando recebia a bola na meia-lua do ataque, de costas para o gol, girava e batia.
Pegava o goleiro no contrapé.
Era gol.
Assim, fui vice-artilheiro do campeonato.

O gigante de cimento armado da Vila Pacífico, como era chamado o estádio do EC Noroeste, de Bauru. A foto foi feita pelo amigo Pedro Romualdo.
Quanto a Edson Celulari, sempre teve jeito de astro.
Era o jogador mais alinhado ao entrar em campo.
Uniforme impecável.
Camisa para dentro do calção.
Cabelo engomado com glostora, a marca de gel que fazia sucesso na época.
Vou começar contando os podres: ele não tinha o timing que demonstra agora nas novelas.
Vez ou outra eu enfiava a bola entre os zagueiros para o Edson correr, mas ele chegava atrasado.
O Amauri, no gol, tinha um ponto forte.
Conseguia lançar a bola, com as mãos, praticamente até o meio-de-campo.
Mas o Edson era ruim de domínio.
Quase sempre se atrapalhava e perdia a bola para o zagueiro.
Em compensação, nunca vi alguém subir na área para cabecear como ele.
Na foto abaixo, uma demonstração de como Edson (de camiseta vermelha) voava.

Mesmo jogando contra o Rubens, zagueiro de dois metros e quinze - fazia ponta num circo, como "o gigante de Bauru" - o Edson fez gol.
Subia, espanava e corria para abraçar os companheiros.
Se não me engano, a média dele era de 2,5 gols por partida.
Nunca entendi essa história de dois gols e meio.
Meio gol?
Coisa de estatística.
Como Edson fez golaços, a média dele deveria ser arredondada para três.
O Amauri gostava de bater escanteio.
Era feito esse goleiro do São Paulo FC, que bate falta e pênalti.
Corria para o ataque, batia o tiro de canto (ou córner, como diziam os locutores bauruenses) e recuava em velocidade.
Num jogo decisivo, me apavorei quando vi o Amauri descendo para bater um escanteio.
Achei que era um ato irresponsável.
Mas ele era uma espécie de Romário de Bauru.
Marrento.
Veio, ajeitou a bola e tomou distância.
Bateu com o lado de fora do pé, a bola subiu com efeito, os zagueiros bateram cabeça.
O Edson saiu do chão feito um foguete. Subiu tanto que acertou a trave e a bola juntos.
A trave desabou, mas a bola entrou. Um a zero. Foi o gol do título.
Na foto abaixo, o troféu que ganhamos.
O braço que aparece à direita é de nosso goleador.
Amauri aparece com o rosto parcialmente coberto.

VOCES ACABARAM DE LER UMA OBRA DE FICÇÃO. EMBORA DE FATO SEJAMOS OS TRÊS BAURUENSES, NUNCA JOGAMOS BOLA JUNTOS E NOS ENCONTRAMOS PELA PRIMEIRA VEZ EM NOVA YORK.
Publicado originalmente em 2005