Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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FURO NO JORNAL NACIONAL

Atualizado em 21 de janeiro de 2008 às 14:47 | Publicado em 20 de janeiro de 2008 às 14:07

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A revista "Veja" deu destaque, dias depois do acontecido. Eram os tempos da barba rala e do cabelo farto. A União Soviética ainda existia. Fomos fotografados numa avenida de Moscou.

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À esquerda aparece, de costas, o cinegrafista Domingos Mascarenhas. À direita, o guia e tradutor Sergei Dorenko, que em alguns anos se tornaria o jornalista mais influente da Rússia. Dias depois, eu ficaria diante do líder do Soviet Supremo, numa viela do Kremlin.
 
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As primeiras palavras que Mikhail Gorbatchev falou, em russo, foram: "Não entendo o que você diz."

Mas vamos começar do começo. Junho de 1988. A guerra fria vai acabar? O presidente americano Ronald Reagan visita o país que havia batizado de "Império do Mal".

O que centenas de repórteres de todo o mundo queriam, nossa equipe conseguiu. O então operador de VT Hélio Alvarez teve sangue frio para fazer as fotos enquanto gravava. Foi uma entrevista exclusiva com Gorbatchev, a primeira vez em que um líder soviético topou falar de improviso, no meio da rua, a um jornalista estrangeiro.

Resultado da estranha combinação que rege a vida dos jornalistas: o dia que começou péssimo terminou com um furo de reportagem. Um pouco de sorte, muito suor.
 
Na época, Gorbatchev surpreendia o mundo com sua ousadia política. Falava em "glasnost", ou transparência política; e em "perestroika", a reestruturação econômica.

Ninguém esperava que o processo fosse resultar na dissolução da União Soviética. Gorbatchev e o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, negociavam para tirar o dedo do gatilho nuclear. A equipe da Rede Manchete, baseada em Nova York, foi a Moscou para acompanhar o segundo encontro entre eles.

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Os símbolos do poder soviético estavam intactos, apesar da falência econômica do país. O logotipo acima, com os dois retratos de Lênin, era estampado na capa do Pravda, o jornal oficial do Partido Comunista. Gorbatchev ainda acumulava poder absoluto, apesar de propor abertura política.

No dia em que furamos a imprensa soviética, ocidental e oriental eu acordei mal humorado. Um sorteio, que nunca soubemos se de fato aconteceu, havia escolhido a equipe da Rede Globo para participar da entrevista oficial que encerraria o encontro de Reagan e Gorbatchev. Nela, apenas algumas perguntas foram feitas - por emissoras americanas, a tv estatal soviética e agências internacionais.

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Barrados da entrevista, fomos fazer uma reportagem sobre as catedrais do Kremlin, transformadas em museus. Ficamos zanzando, de olho nas lindas abóbadas douradas. Na época não havia missas nas igrejas. A religião ainda era "o ópio do povo".

Eu, o cinegrafista Domingos Mascarenhas, o assistente Hélio Alvarez e o editor-produtor Paulo Bolívar entramos sem dificuldade - e fascinados - no centro do poder soviético, protegido por muralhas vermelhas. Batíamos papo, descontraídos, enquanto Domingos filmava as cúpulas douradas das belas catedrais. De repente, agitação. Seria possível?

No meio da multidão de assessores e seguranças, uma careca brilhava. Era mesmo o Gorbatchev, em pessoa? Corremos em direção à comitiva. Os seguranças da KGB distribuíram safanões. Um deles me acertou um soco no estômago. Recuperei a respiração e consegui gritar duas ou três vezes, em inglês: "Mr. Gorbatchev, para o Brasil..."

Ele deve ter notado o nosso desespero. Parou, um assessor fez sinal com a mão e o cordão de seguranças se abriu. Levei um susto: estava de microfone em punho diante do líder que prometia mudar o mundo.

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Quando diz a primeira pergunta, em inglês, Mikhail Gorbatchev pediu a um dos assessores mais influentes dele, o ex-embaixador soviético no Canadá, Alexander Yakovlev, que fizesse o papel de tradutor. Yakovlev foi um dos arquitetos das reformas implementadas por Gorbatchev. Naquele dia, quebrou nosso galho traduzindo do russo para o inglês e vice-versa.

Mikhail Gorbatchev falou do fascínio que tinha pela América Latina e disse que acompanhava com atenção as notícias do Brasil. Afirmou ter discutido com Ronald Reagan a questão da dívida externa, que asfixiava os países pobres e em desenvolvimento. E fez sua primeira saudação direta aos brasileiros.

Para colegas de outros países, a entrevista chamou atenção por causa da cena inusitada. Era mais uma prova de que Gorbatchev era um líder diferente das múmias anteriores, como Yuri Andropov e Leonid Brezhnev. Imaginem só: dar uma entrevista sem ensaiar para um repórter desconhecido.
 

No dia em que entrevistamos Gorby, como o líder soviético foi batizado pela imprensa americana, mal tivemos tempo de celebrar. Corremos para o quarto do hotel para confirmar a tradução, editar e cuidar da tarefa complicadíssima de fazer as imagens chegarem ao Brasil. Paulo "Santo" Bolívar, nosso editor, deu conta disso. Com a ajuda de amigos que havia cultivado na rede americana CNN, Bolívar usou a rota Moscou-Atlanta-Rio de Janeiro.

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O Jornal da Manchete pôs a entrevista no ar, na íntegra, horas depois. Ainda em Moscou, jornalistas bateram à porta de nosso quarto de hotel para pedir cópias da gravação: CNN, ABC e CBS. As emissoras americanas queriam usar as imagens para mostrar que Gorbatchev era um líder que não tinha medo da mídia.

A TV estatal soviética reproduziu a entrevista na íntegra no "Vremya", que era o Jornal Nacional deles. No dia seguinte, o "Pravda" noticiou a entrevista. Curiosamente, Boni, o todo-poderoso superintendente da Globo, mandou um telegrama de congratulações ao dono da Rede Manchete, Adolpho Bloch.

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 "Adolpho: Parabéns pelas mídias do futebol e pela entrevista de Gorbachev. Isso é televisão, não guerra boba e inútil. Dignifica quem faz e não prejudica o trabalho alheio. Por isso, demos o crédito no JN (Jornal Nacional). Abraços, Boni".

O Jornal Nacional, usando as imagens que havíamos gravado, deu a notícia. Um amigo, que comprou o livro sobre os 35 Anos do Jornal Nacional, brincou comigo: se houvesse um capítulo dedicado aos furos que o JN levou, a entrevista com Gorbatchev seria destaque.

Só quando voltamos a Nova York tivemos idéia da repercussão do furo de reportagem. Adolpho Bloch, conhecido pela generosidade de coração e pela mão fechada, premiou nossa equipe com dez mil dólares - apesar da crise financeira que já afetava a agora extinta Rede Manchete.

Publicado originalmente em 2005 e reeditado em 20 de janeiro de 2008


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Luis Prenda (15/05/2008 - 16:33)
A comunicação é importante e no século XXl a indeferen- cia na línguajem muito mais.

antonio barbosa filho (03/04/2008 - 23:09)
Realmente, um furo mundial. O repórter nada tem a ver com as consequências do furo, mas sim com ser capaz, alerta, para fazê-lo. A sorte ajuda, é claro. Entrevistei o Werner von Braun no Inpe, com exclusividade, por sorte. Mas também porque esperei mais de 24 horas, sem dormir, até chegar o momento certo. É asim que funciona. Parabéns Azenha, não só por essa.

O Chris Almeida - BH (31/03/2008 - 11:29)
Bota no Youtube. Se vc não for muito modesto. hehehe E o Gorby pelo que se vê hoje parece ter sido financeiramente incentivado para demolir o império, e olha que eu nem sou comunista, talvez nem ele...

fernando lourenco (13/02/2008 - 15:10)
A Mensagem do BONI foi simples e logica, mas finalizou como se espera, sendo la da PLIM,PLIM com o RANSO proprio deles, OBS. So para saber O ILUSTRE GORBACH. vive em MIAMI FL. USA muito tranquilo!!!

Paulo Silva (28/01/2008 - 05:07)
Olha só quem fala de não prejudicar o trabalho alheio!!!

Hugo Albuquerque (26/01/2008 - 20:28)
Que história fascinante! Só achei engraçado o Boni dizendo "por isso,demos o crédito no JN" como se não fosse obrigação dele.

Francine (25/01/2008 - 18:04)
Azenha, vc não tem a entrevista (vídeo)?

Fernando Mundim Veloso (25/01/2008 - 16:40)
Azenha, ainda bem que vc está na ativa e não apresentando o BBB!

Luiz Carlos Azenha (23/01/2008 - 16:59)
Castro Neves, Se eu achar o recorte aqui em casa eu transcrevo.

Castro Neves (23/01/2008 - 15:05)
Azenha,por favor disponibilize, na íntegra, o texto de jornal que noticia o furo (primeira figura)

JP Ferreira (22/01/2008 - 12:36)
Taí uma boa idéia para um livro (ou web site): Os furos no JN! Aliás, servidor eu tenho para hospedar...

Gilson Raslan (22/01/2008 - 01:06)
Azenha, você é mesmo um craque.

Paulo César (21/01/2008 - 10:02)
Sem comentários!!!!!!



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