Atualizado em 21 de janeiro de 2008 às 14:47 | Publicado em 20 de janeiro de 2008 às 14:07





Eu, o cinegrafista Domingos Mascarenhas, o assistente Hélio Alvarez e o editor-produtor Paulo Bolívar entramos sem dificuldade - e fascinados - no centro do poder soviético, protegido por muralhas vermelhas. Batíamos papo, descontraídos, enquanto Domingos filmava as cúpulas douradas das belas catedrais. De repente, agitação. Seria possível?
No meio da multidão de assessores e seguranças, uma careca brilhava. Era mesmo o Gorbatchev, em pessoa? Corremos em direção à comitiva. Os seguranças da KGB distribuíram safanões. Um deles me acertou um soco no estômago. Recuperei a respiração e consegui gritar duas ou três vezes, em inglês: "Mr. Gorbatchev, para o Brasil..."
Ele deve ter notado o nosso desespero. Parou, um assessor fez sinal com a mão e o cordão de seguranças se abriu. Levei um susto: estava de microfone em punho diante do líder que prometia mudar o mundo.

Quando diz a primeira pergunta, em inglês, Mikhail Gorbatchev pediu a um dos assessores mais influentes dele, o ex-embaixador soviético no Canadá, Alexander Yakovlev, que fizesse o papel de tradutor. Yakovlev foi um dos arquitetos das reformas implementadas por Gorbatchev. Naquele dia, quebrou nosso galho traduzindo do russo para o inglês e vice-versa.
Mikhail Gorbatchev falou do fascínio que tinha pela América Latina e disse que acompanhava com atenção as notícias do Brasil. Afirmou ter discutido com Ronald Reagan a questão da dívida externa, que asfixiava os países pobres e em desenvolvimento. E fez sua primeira saudação direta aos brasileiros.
Para colegas de outros países, a entrevista chamou atenção por causa da cena inusitada. Era mais uma prova de que Gorbatchev era um líder diferente das múmias anteriores, como Yuri Andropov e Leonid Brezhnev. Imaginem só: dar uma entrevista sem ensaiar para um repórter desconhecido.
No dia em que entrevistamos Gorby, como o líder soviético foi batizado pela imprensa americana, mal tivemos tempo de celebrar. Corremos para o quarto do hotel para confirmar a tradução, editar e cuidar da tarefa complicadíssima de fazer as imagens chegarem ao Brasil. Paulo "Santo" Bolívar, nosso editor, deu conta disso. Com a ajuda de amigos que havia cultivado na rede americana CNN, Bolívar usou a rota Moscou-Atlanta-Rio de Janeiro.

O Jornal da Manchete pôs a entrevista no ar, na íntegra, horas depois. Ainda em Moscou, jornalistas bateram à porta de nosso quarto de hotel para pedir cópias da gravação: CNN, ABC e CBS. As emissoras americanas queriam usar as imagens para mostrar que Gorbatchev era um líder que não tinha medo da mídia.
A TV estatal soviética reproduziu a entrevista na íntegra no "Vremya", que era o Jornal Nacional deles. No dia seguinte, o "Pravda" noticiou a entrevista. Curiosamente, Boni, o todo-poderoso superintendente da Globo, mandou um telegrama de congratulações ao dono da Rede Manchete, Adolpho Bloch.

"Adolpho: Parabéns pelas mídias do futebol e pela entrevista de Gorbachev. Isso é televisão, não guerra boba e inútil. Dignifica quem faz e não prejudica o trabalho alheio. Por isso, demos o crédito no JN (Jornal Nacional). Abraços, Boni".
O Jornal Nacional, usando as imagens que havíamos gravado, deu a notícia. Um amigo, que comprou o livro sobre os 35 Anos do Jornal Nacional, brincou comigo: se houvesse um capítulo dedicado aos furos que o JN levou, a entrevista com Gorbatchev seria destaque.
Só quando voltamos a Nova York tivemos idéia da repercussão do furo de reportagem. Adolpho Bloch, conhecido pela generosidade de coração e pela mão fechada, premiou nossa equipe com dez mil dólares - apesar da crise financeira que já afetava a agora extinta Rede Manchete.
Publicado originalmente em 2005 e reeditado em 20 de janeiro de 2008
Realmente, um furo mundial. O repórter nada tem a ver com as consequências do furo, mas sim com ser capaz, alerta, para fazê-lo. A sorte ajuda, é claro. Entrevistei o Werner von Braun no Inpe, com exclusividade, por sorte. Mas também porque esperei mais de 24 horas, sem dormir, até chegar o momento certo. É asim que funciona. Parabéns Azenha, não só por essa.