Atualizado em 02 de fevereiro de 2008 às 17:41 | Publicado em 02 de fevereiro de 2008 às 17:40

Estávamos hospedados pertinho da praça Fidos, em Bagdá, aquela em que a estátua de Saddam Hussein foi derrubada. O hotel era um pulgueiro, o preferido de ativistas pela paz que chegavam de todo o mundo. Logo tínhamos nossa turma, pelo menos para tomar o café da manhã.
A diferença de horário (era madrugada em Bagdá quando o Jornal Nacional entrava no ar) nos fazia trabalhar noite adentro. De volta ao hotel, eu e o cinegrafista Sherman Costa nos reuníamos para falar sobre as gravações do dia, checar o equipamento e programar o roteiro do dia seguinte. Levamos uma grande quantidade de equipamento e dinheiro vivo.
Eram quase vinte mil dólares. Tomávamos as precauções de praxe. Dormíamos cada um com um pacote de dólares escondido sob o travesseiro. Colocávamos uma cadeira contra a maçaneta da porta para reforçar a segurança. E um copo contra o vidro do banheiro. Se algum bandido tentasse entrar por ali, seríamos alertados pelo barulho do copo estilhaçado.
Eu e o Sherman batíamos papo de olho na tevê, que repetia aquelas reuniões intermináveis de Saddam Hussein com os comandantes militares iraquianos. Os três canais mostravam repetidamente discursos do ditador. Ou clipes em que cantores se revezavam para elogios musicais a Saddam.
Dormíamos talvez duas, três horas por noite. Era preciso acordar cedo para cumprir o roteiro de reportagens. Éramos acompanhados por um guia oficial e pelo motorista que contratamos, Sattar. Tínhamos sido alertados seguidamente para ter cuidado com o que era dito nas chamadas telefônicas para Nova York.
O telefone da Globo capaz de fazer ligações via satélite ficou retido pelo governo. Só podia ser usado na sede do Ministério da (Des) Informação. Os iraquianos temiam que nós, vindos de Nova York, fizessemos parte de alguma conspiração pró-americana.
Quem sabe um plano secreto para tosar o bigode de Saddam? Foi assim que Kofi, nosso amigo enjaulado, tornou-se companheiro de noitadas. Como eu não falo iraquiano e nem o porteiro da noite falava inglês, a conversa era toda com o bicho. Ele gostava de brincar de esconde-esconde, desde que nos intervalos fosse recompensado com um punhado de amendoins.
No dia da despedida perguntei ao dono do hotel a razão do nome do macaco, Kofi. Partidário ferrenho de Saddam Hussein e furioso com a ONU, que promovia sanções econômicas contra o Iraque, o proprietário da espelunca disse que o macaco tinha sido batizado em homenagem ao secretário-geral da ONU. Kofi, de Kofi Annan.
Publicado originalmente em 2005