Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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CLANDESTINO EM HAVANA

Atualizado e Publicado em 25 de março de 2008 às 00:59

Estávamos caminhando por uma avenida de Havana quando o casal se apresentou. Deu para suspeitar que estavam querendo ganhar algum dinheiro. Em troca, pensei, poderiam nos mostrar o que um guia oficial jamais mostraria. E lá fomos nós.

Se tive uma péssima impressão ao desembarcar pela primeira vez em Moscou, quando ainda existia a União Soviética, em Cuba aconteceu exatamente o contrário. A decrepitude dos prédios chama a atenção, mas eu não esperava encontrar o clima relaxado. Comunismo caribenho é outra coisa.
 

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Durante o passeio vimos uma escola pública. Nossos guias defenderam o sistema de saúde e educação, mas reclamaram abertamente do governo: gostariam de sair de Cuba para fazer turismo, talvez viajar para alguma ilha da vizinhança, no Caribe. Muitos outros cubanos nos disseram o mesmo, citando como possíveis destinos a Jamaica, o México, o Brasil e a Espanha.

Curiosamente, ninguém falou em ir para os Estados Unidos - tendo em vista as circunstâncias políticas, não sei se alguém se arriscaria a tanto. Todos foram muito simpáticos conosco, especialmente ao saber que éramos do Brasil.

A Senhora do Destino está bombando em Cuba - passa três vezes por semana, intercalada com uma produção local. Um país comunista ligado numa novela capitalista. Será que o Fidel assiste?

Eu deveria ter visto a novela. Quase fiquei sem assunto com os cubanos. Eles queriam saber como terminava a trama, mas eu não sabia.

Fomos ao sambódromo de Cuba. Um lugar ao ar livre onde é celebrada a cultura afro-cubana. O guia nos contou que, logo depois da Revolução, a celebração das raízes africanas não era aceita pelo governo de Fidel Castro. Seriam ecos da revolução do Haiti, onde os negros se rebelaram e cortaram a cabeça dos colonizadores brancos? É possível. Esse episódio histórico, desconhecido fora da região, é muito conhecido no Caribe.

Saímos andando sem rumo por La Habana velha. Por causa do grande número de turistas - principalmente espanhóis, italianos e franceses, mas também russos, britânicos e americanos - a demanda pela reforma de automóveis antigos é grande. Tem turista endinheirado que aluga táxi para passear pela cidade.

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Imaginem que o carro acima é dos anos 50 e ainda anda. Tem mais idade que a Revolução Cubana. Dizem que foi essa uma das únicas vantagens do embargo comercial americano: formar em Cuba os melhores mecânicos do mundo.

Passamos algumas horas com os guias. Eles nos levaram para ver uma pequena favela, de três ou quatro casebres, bem no centro da cidade.  Nada comparável à Rocinha. Fomos ouvir salsa em um bar vazio, visitamos a primeira fábrica de charutos - que hoje é uma espécie de cortiço -, fomos à casa de um cubano comprar charutos. Ele explicou que tinha direito a uma cota por trabalhar na fábrica, mas desconfio que se virava no mercado paralelo.

E então chegou a hora de acertar a conta. Os cubanos recebem todo mês uma cesta básica: arroz, feijão, sal, óleo, farinha e outros produtos. Complementam a alimentação comprando nas feiras ou em mercados especiais. A pedido do casal, encarei uma fila básica: como pagamento pelos serviços prestados, eles pediram um quilo de leite em pó.

Publicado originalmente em 13 de março de 2007


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Rodolfo Cabral (18/04/2008 - 09:23)
Azenha e amigos comentaristas. Estou programando ir à Cuba com minha companheira no final o ano, conhecer o país e participar dos festejos dos 50 anos da revolução. Moro em Recife, e estou tendo dificuldades em conseguir informações sobre a viagem. Passagens, melhor rota, custos na ilha, essas coisas. Se pudessem me manda um email com algumas dessas informações eu agradeceria bastante. Saudações

barbosa filho (03/04/2008 - 22:33)
Acabo de voltar de Cuba, onde passei 18 dias num grupo de turistas holandeses. Por ser o único que falava espanhol (e por ser repórter de nascença), pude conversar com pessoas de todo espectro na ilha toda, não só em Havana e Varadero. Não senti nenhuma censura, ouvi muitas críticas pelos problemas que a ilha vive, mas não ouvi ninguém dizer que prefereria o capitalismo. Querem aperfeiçoar o sistema, nunca mudar de lado. E sabem que o maior culpado pela pobreza e falta de coisas é do bloqueio imposto pelos EUA. Nenhuma empresa americana pode negociar com Cuba e as estrangeiras que o fizerem não podem negociar com os EUA! Mesmo assim, não vi nenhuma crianá barrigudinha de vermes ou descalça. O que vejo aqui pertinho de minha casa, na oitava (ou nona) esconomia do mundo capitalista...

Felipe Cavalcanti (28/03/2008 - 14:35)
Azenha, estive em Cuba depois de você, em Dezembro/2007. Nao era difícil encontrar críticos do sistema (cujo maior reclamo era justamente a oportunidade de poder visitar outros países), mas de nenhum deles (repito, NENHUM) ouvi críticas à Saúde e à Educação cubanas, a exemplo do teu casal de guias. Coincidência?

Dulce Leão (25/03/2008 - 15:03)
:)) Azenha, dançou salsa? Conseguiu resistir? Eu nããão!!!



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