Atualizado e Publicado em 01 de fevereiro de 2008 às 16:59

Nos trechos mais rasos do rio, o barco encalhava e tínhamos que descer para vencer os bancos de areia. Foi uma das viagens mais difíceis de minha carreira. Um temporal pegou a expedição quando subíamos o rio Moa. Foi uma redescoberta. Viajamos por um território que consta dos mapas como pedaço do Brasil, mas que nos pareceu terra de ninguém. Estado do Acre, fronteira com o Peru. É a única região "fria" da Amazônia, perto da Serra do Divisor. No inverno, a temperatura cai. Chega a dez graus.
Índios, posseiros, colonos e traficantes disputam os rios e as trilhas da selva com o Exército brasileiro. Os traficantes descem os rios ou picadas trazendo a cocaína. Voltam com o dinheiro. Nossa expedição acompanhava autoridades acreanas que pretendiam reconhecer a cidadania de brasileiros que, legalmente, não existem.

Para muitos, tirar uma certidão de nascimento, mesmo que aos 60 anos de idade, é o primeiro passo para receber aposentadoria. Subimos os rios e as montanhas acompanhados por soldados do Exército. A única mulher do grupo era a produtora Vanda Viveiros de Castro. Comemos bananas e biscoitos quase todo o tempo. Havia comida, sim, mas um episódio deixou toda a expedição em apuros.
Os frangos congelados trazidos no barco do Exército não resistiram ao calor, mesmo protegidos dentro de caixas de isopor cheias de gelo. Só descobrimos isso de madrugada. Acho que tenho estômago de avestruz. Resisti, mas a maior parte da turma passou a noite entre a rede e banheiros improvisados no meio do mato.

Durante tempestades tropicais, árvores desabam sobre os rios, fechando os caminhos. Foi preciso remover os obstáculos para seguir viagem. O Parque Nacional da Serra do Divisor tem esse belo nome, mas na época de nossa visita tinha UM funcionário.
Os soldados que nos acompanhavam tinham ordens expressas para não avançar além de um determinado trecho do rio Moa, que leva à fronteira com o Peru. Os militares temiam provocar um incidente que nos deixasse no meio de um tiroteio entre o Exército e traficantes peruanos.
Testemunhas dizem que a região foi frequentada até pelos guerrilheiros peruanos do Sendero Luminoso, um grupo armado agora praticamente extinto. Sem a escolta do Exército, subimos o Moa até chegar às corredeiras mais bonitas do parque.

Foi uma viagem fascinante. Encontramos lugares lindos durante a viagem. Eu tive que me equilibrar na canoa da foto acima para "navegar" pelo rio manso, quase sem correnteza, onde as vitórias-régias estavam brotando.

O cinegrafista José de Arimatéia subiu numa árvore para filmar a região. Imagino que a câmera, que pesa cerca de quinze quilos, estava pesando uns cinquenta naquela hora. Tínhamos acabado de escalar o morro mais alto do parque, sob um calor de 40 graus.

Para nós, a descoberta mais interessante da viagem foi este bicho simpático. É a Phyllomedusa bicolor, uma rã que produz veneno para se livrar de predadores. Curiosamente, a rã não salta. Vive pendurada em árvores. É carnívora, se alimenta de pequenos insetos.
Moradores locais recolhem o veneno da rã raspando suavemente a pele do bicho. Depois de cristalizado, o veneno é aplicado sobre cortes superficiais feitos na pele. É uma "vacina" que provoca alucinações e, em alguns casos, diarréia e vômitos.
É costume nesta região do Acre: a "vacina do sapo" teria o poder de limpar o corpo e abrir a mente. Nos Estados Unidos, várias empresas farmacêuticas sintetizaram o veneno do sapo e pretendem produzir drogas vasodilatadoras. O objetivo dos laboratórios é conseguir um remédio para reverter os danos causados pelos derrames. É provável que um dia o Brasil importe, pagando caro, drogas feitas a partir do conhecimento popular. Na Amazônia, é sabedoria transmitida de pais para filhos.
Publicado originalmente em 2005