Atualizado e Publicado em 17 de março de 2008 às 23:45

Eu tinha escassos 11 anos em 1970. Tempos bicudos. Eu ia à escola já pensando em quanto a volta seria aflitiva. Vindo das aulas, dobrava a esquina de casa para checar se alguma Rural Willys estava estacionada diante da rua Conselheiro Antônio Prado, 1-38, em Bauru.
Quando estava, havia um homem armado montando guarda na porta. Eu entrava em casa e encontrava policiais mal encarados revirando a biblioteca de meu pai, comunista, à procura de livros subversivos. Líamos em casa o Estadão.
Eu me lembro bem de não entender nada quando via versos de Camões publicados no jornal. Fazendo jus à confiança depositada nele pelo Partido Comunista, meu pai - imigrante português - era um homem calado sobre suas atividades políticas. Talvez quisesse poupar a família de preocupações e represálias.

Era torcedor do Vasco da Gama, da Portuguesa de Desportos, do Bauru Atlético Clube (ex-Luzitana) - clube em que Pelé começou a jogar futebol. Na várzea, o futebol amador da cidade, meu pai torcia pelo Internacional.
Talvez seja por isso que aquela explosão de alegria de 1970 ficou gravada tão fortemente em minha memória. Meu pai, que tinha todos os motivos para torcer contra a seleção da ditadura, não resistiu. Naquele período, é óbvio que a vitória do Brasil sobre a Tchecoslováquia (é assim que estava escrito no álbum da Copa de 70) pode ter diminuído o orgulho comunista de meu pai.
Era um período em que ele certamente vibraria se a União Soviética ou a Polônia fossem campeãs. O seo José resistiu até aquela partida final, contra a Itália.
Manteve a discrição. Enquanto eu, a vizinhança, os moradores de Bauru - e provavelmente de todo o Brasil - aguardávamos com ansiedade o apito final, meu pai fazia que não era com ele.
Porém, a bola foi enfiada para Pelé, que rolou para Carlos Alberto. Que bomba! E eu não sabia mais para onde olhar, porque o seo Azenha se levantou da cadeira e gritou, a plenos pulmões: GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOllllllllleeee, com seu inconfundível sotaque de português. Foi um grito de alegria E libertação para todos nós.
Sim, tínhamos de conviver com a presença física dos ditadores dentro de nossa própria casa, mas negaríamos a eles o poder de dominar todas as nossas paixões. Foi gol do Brasil, não da ditadura. Gol de Carlos Alberto, não de Médici. Saímos de casa para gritar, soltar confete e serpentina e fomos todos - os meninos, pelo menos - recompensados com o direito de ficar acordados até mais tarde.
Foi uma belíssima vitória aquela que nos deu o tricampeonato. E eu me lembro o jeito que meu pai encontrou para justificar sua adesão à festa: "Não é que eu goste da seleção, gosto de saber que em alguma coisa o Brasil pode ensinar os europeus. Se eles aprenderem com a gente, a Copa vai ser cada vez mais bonita."
O que vimos no futebol, desde então? A Laranja Mecânica holandesa, o Brasil de 82, a Argentina de Maradona... nada equivalente àquele time de 1970. Aquele título que ganhamos nos pênaltis, nos Estados Unidos, com a sofrível seleção do Parreira, nem considero. Ganhar daquela Itália nos pênaltis foi de amargar - um time retranqueiro, sem criatividade, avarento.
Aquele futebol de 1970 deixou marcada na memória coletiva mundial um dos momentos mágicos do esporte:
"A conclusão da jogada é um clássico: Pelé rola mansinho na entrada da área para Carlos Alberto, que acerta uma cacetada rasteira. Mas essa obra-prima coletiva começa na defesa, com um olé de Clodoaldo, que passa para Rivelino, que lança Jairzinho na esquerda. Este encontra Pelé, que encontra Carlos Alberto, que encontra a rede. Quatro a um, Brasil tricampeão"
Os italianos ficaram arrasados e eu os compreendo: perder de forma humilhante na partida mais bonita da História de todas as copas é algo muito marcante.
Publicado originalmente em 12 de março de 2007
Belo, belo.Lembrei disso aqui:"Natal, 7 de junho de 1978. Mãe, Aí, na hora que a coisa tava indo, tava indo%u2026 chega a Copa do Mundo e leva tudo pra lá. É sempre assim: não conseguimos fazer duas coisas ao mesmo tempo. Não sabemos assobiar e fazer xixi ao mesmo tempo, não conseguimos chutar bola e fazer democracia ao mesmo tempo. Mas sabe o que me dá mais raiva? Vez por outra vêm me perguntar se eu vou torcer pelo Brasil! Só porque a gente tá na oposição, eles acham que tamos contra a seleção também? Sim, porque entre os méritos do último governo sempre acrescentavam: o governo do Tri! Só pra gente ficar com ódio do Tri. E a gente era besta, a gente era bobão, não sabia das coisas e acabou achando que o Tri fosse gol do governo. Gol deles uma pinóia! Dessa vez ninguém vai me fazer ficar contra a seleção pensando que eu tô contra o Ato Institucional número 5, não. A seleção é do povo, assim como a greve é do trabalhador! A bênção do seu filho, Henfil"