Atualizado em 23 de janeiro de 2008 às 20:26 | Publicado em 23 de janeiro de 2008 às 20:21

LANCHAS DA GUARDA COSTEIRA PATRULHAM O RIO GRANDE, NA FRONTEIRA DOS ESTADOS UNIDOS COM O MÉXICO
Pisei pela primeira vez nos Estados Unidos em 1976, como bolsista. Em Maryland, onde vivi, os estrangeiros eram vistos como um "exotismo". Passei, ao todo, 18 anos no país, entre indas e vindas.
Nunca vi os imigrantes brasileiros tão apavorados. Nunca vi expressões tão claras de xenofobia por parte dos americanos quanto agora. Depois dos atentados de 11 de setembro, a desconfiança em relação aos árabes em geral e muçulmanos em particular aumentou muito. Agora, esse sentimento se espalhou em direção a todos os imigrantes, acusados genericamente de não respeitar as leis locais e de "pesar" nos serviços públicos sem pagar impostos.
Dezenas de cidades e condados - a divisão administrativa dos estados - deram autorização à polícia para checar se um imigrante está no país legal ou ilegalmente, desde que tenha "probable cause". Ou seja, em tese a polícia não pode parar qualquer um, americano ou não. Se alguém cometer um crime ou contravenção ou se for parado no trânsito por excesso de velocidade ou por avançar o sinal, a polícia de alguns estados e condados pode perguntar se a pessoa está legalmente no país e, se não estiver, chamar o Immigration and Naturalization Service, o INS, encarregado de combater a imigração ilegal.
Alguns estados americanos negam a carteira de motorista aos ilegais - não é o caso de Nova York, ainda. Isso dificulta a vida dos imigrantes "não documentados", que é como eles são chamados pelas entidades de defesa dos ilegais. O condado vizinho de casa, Prince Williams County, no estado da Virgínia, acaba de aprovar medidas que facilitam a deportação.
Muitos ilegais, que trabalham na construção civil, em restaurantes e fazem serviços que em geral os americanos desprezam, estão apavorados. Existe uma migração interna deles para estados onde as leis são mais amenas. Outros simplesmente voltam para seus países de origem.
Uma imigrante brasileira me contou o caso de um ex-namorado, que trabalhava no estado de Montana. Foi parado pela polícia. Todos os hispânicos que estavam a bordo da van que ele dirigia foram presos para deportação. O brasileiro tinha uma acusação contra ele na região de Washington, por envolvimento sexual com uma menor de idade. Vai ser julgado. Pode pegar 10 anos de cadeia antes de ser deportado.
Muitos americanos se preocupam com as notícias de que hispânicos e negros, somados, vão representar a maioria dos moradores do país em 2015. Há um recrudescimento tanto do racismo quanto da xenofobia. Episódios de discriminação racial ressurgiram. Entrevistei uma imigrante brasileira que vive ilegalmente nos Estados Unidos há cerca de dois anos. A seguir, a transcrição da conversa:
Viomundo: Os imigrantes brasileiros têm medo?
Brasileira: Você pode ser parado na rua a qualquer momento, podem pedir o seu documento, e daí?
Viomundo: Como é que você entrou aqui?
Brasileira: Sou ilegal, entrei pelo México. Paguei 25 mil reais. Eu era gerente de uma lavanderia self-service, eu tinha uma casa boa, um Corsa 2003, mas o que me trouxe foi o motivo pessoal, a separação. Sou de Criciúma, em Santa Catarina, fui primeiro para a Alemanha e depois vim para os Estados Unidos.
Viomundo: Na Alemanha, como era a situação?
Brasileira: Eu trabalhava tomando conta de criança. Era ilegal. Eu fui para uma cidade muito pequena, não falava alemão, não tinha ninguém que falava português, me sentia sozinha. Fiquei oito meses, voltei para Criciuma, fiquei um ano e decidi vir para os Estados Unidos.
Viomundo: Qual é o seu maior medo aqui?
Brasileira: Eu não tenho medo de nada. Tenho carteira de motorista de Maryland, dirijo e trabalho fazendo faxina, em média duas casas por dia. Tenho amigas que morrem de medo de serem paradas no trânsito. Pior foi passar pelo México e ficar 22 dias esperando para entrar aqui.
Viomundo: Como foi a travessia?
Brasileira: O coiote [intermediário mexicano] jogou uma bóia e gritou "esse é o seu passaporte", em espanhol. O rio Grande tinha uns 150 metros de largura. Sentei na bóia e um rapaz me ajudou a atravessar. A correnteza era forte, não dava pé. Se a pessoa tiver medo de água morre afogada. A pior parte foi tirar toda a roupa diante dos coiotes, depois de atravessar o rio. A travessia foi por Laredo. Viemos em 10 pessoas do meu bairro. Uma ficou no aeroporto da Cidade do México, não conseguiu entrar, foi deportada. Os outros nove conseguiram chegar.
Viomundo: Qual era a idade dos que vieram com você?
Brasileira: Na minha turma tinha uma menina de dez anos, que veio com a mãe. O pai estava aqui há cinco anos e os irmãos dela também. Todos entraram pelo México. No mês passado encontraram o corpo de um brasileiro que morreu afogado. Tinha sido enterrado como indigente. A família dele conseguiu achar o corpo depois de dois anos de busca.
Viomundo: Qual é a rota mais perigosa?
Brasileira: Pelo deserto. Tem perigo de ser estuprada, de morrer de sede, de ser picada por cobra, de levar um tiro.
Tem fazendeiro que atira nos imigrantes quando eles estão fazendo a travessia. Se você for picado por uma cobra, os coiotes não ficam te carregando. Eles têm mais 15 ou 20 pessoas para levar. Eles mesmo matam quem fica para trás, se estiver atrapalhando.
Viomundo: Quanto você ganha aqui?
Brasileira: Dois mil e quinhentos dólares por mês. No Brasil meu salário era de quinhentos reais. Eu trabalhava numa lavanderia.
Viomundo: Qual é o maior risco?
Brasileira: É para quem deve algo à Justiça. Se você está dirigindo bêbado, é parado pela polícia e marcam uma audiência num tribunal. Se não comparecer, quando eles te encontrarem te prendem para deportação. Faz quinze dias uma brasileira que estudava comigo avançou um sinal. A polícia parou, viu que ela tinha entrado pela fronteira do México, tinha sido liberada para comparecer a um tribunal mas não foi. Ou seja, o nome dela estava no computador. Foi presa e deportada.
Viomundo: Você manda dinheiro para o Brasil?
Brasileira: Mando, para minha mãe. E às vezes ajudo meus irmãos, são seis.
Viomundo: Você pretende ficar?
Brasileira: Vou ficar até quando der. Não tenho medo de me pegarem. O maior risco de ser pego é dirigindo. Eu tenho conta em banco, tenho carteira, pago impostos. Não tenho cartão de crédito por que não quero. Tenho um Altima 98 e estou pensando em trocar de carro. Esse final de ano muita gente da minha região vai embora. Está faltando emprego. A carpintaria está parada.
Viomundo: O dinheiro dá?
Brasileira: Eu trabalho quatro semanas. Uma é para pagar as contas. As outras três são "lucro". Tem gente que compra casa no Brasil, compra carro. Tem muita gente desanimada porque o dólar tá baixo e falta trabalho. Se a imigração quisesse mesmo pegar todo mundo, pegava. Eles estão tentando tirar quem causa problema.
Publicado originalmente em 29 de outubro de 2007