Atualizado em 24 de dezembro de 2007 às 14:43 | Publicado em 19 de dezembro de 2005 às 19:39

Pantera caminha pelas ruas de Ellenville, uma pequena cidade nas montanhas do estado de Nova York. Um lugar gelado no inverno. Notem o acúmulo de neve no arbusto, diante da casa. A cidade é destino turístico no inverno. Quando estive lá, os serviços eram prestados principalmente por imigrantes brasileiros. É a história mais curiosa da imigração que conheço.
Nos anos 80, havia uma liga de futebol muito competitiva na região. Os times eram formados por imigrantes: mexicanos, brasileiros, colombianos e várias outras nacionalidades. Os primeiros brasileiros vieram de Governador Valadares, em Minas Gerais. Trabalhavam na cozinha, na limpeza ou como garçons e garçonetes nos hotéis.
A diversão deles, no verão, era o futebol. Queriam o título do campeonato da região a qualquer custo. Passaram a convidar amigos, ex-jogadores, para vir do Brasil. Os atletas traziam parentes, que chamavam amigos e logo formou-se uma comunidade brasileira. O time dos brasileiros, batizado com o nome de um hotel local - o Fallsville Futebol Clube - finalmente foi campeão.

Eu estou gravando com a neve quase cobrindo os meus joelhos. Nunca senti tanto frio no pé quanto nesse dia. O campo de futebol ficava congelado durante oito meses do ano. É óbvio que os brasileiros sofriam muito com isso. Depois do trabalho, se trancavam em casa, assistindo fitas gravadas da tevê brasileira, que alugavam em Nova York ou recebiam de amigos pelo correio.

Passamos dois dias em Ellenville. Nevou muito. Usei um casaco próprio para esquiar. Um forno. Foi uma das primeiras vezes em que eu realmente precisei usar o chapéu de pele que havia comprado em Moscou, para proteger as orelhas.

Em Ellenville, depois de uma nevasca, o trabalho de limpar as ruas era feito por veículos como o da foto acima. A cidade é pequena, um ou dois deles davam conta do recado.
Um baiano muito engraçado, morador da cidade, topou dar entrevista no meio de uma montanha de neve. Apesar de ter chegado a Ellenville sem falar inglês, ele estava casado e tinha um filho com uma americana. Não se importava com o apelido dado por outros brasileiros: Zé Macaco. A preocupação dele era com o frio: "Neve não é coisa para baiano, não", nos disse em entrevista.
Fomos visitar o dormitório de um dos hotéis, ocupado for funcionários brasileiros. Eles dormiam apertados, em condições sanitárias duvidosas. Vale a pena tanto sofrimento? Um dos imigrantes afirmou que tinha um consolo: estava perto de juntar 500 mil dólares. Ficamos em dúvida se ele estava falando a verdade.

Pantera é uns dos brasileiros que se deram mal com a neve. Depois, Pantera se deu bem. Ele estava numa esquina de Ellenville quando foi atropelado por um caminhão limpa-neve. O motorista não conseguiu distringüir onde ficava a calçada e levou o Pantera junto com a montanha de neve. O imigrante sofreu fraturas no braço e na perna. Teve pinos implantados no corpo.
Depois, foi à Justiça reclamar uma indenização. Venceu o caso. Quando o entrevistamos, já não precisava mais trabalhar. Na ação, ganhou 146 mil dólares, na época o equivalente a cerca de 400 mil reais.
Publicado originalmente em 2005
Feliz natal pra você também, Azenha!