Atualizado em 22 de janeiro de 2008 às 17:49 | Publicado em 22 de janeiro de 2008 às 17:46

Ele carregava uma tonelada de amargura nas costas. E desabou diante da câmera, quando o encontramos numa cadeia do Arizona, perto da fronteira com o México. Altair Carlos de Lúcio estava enredado com a burocracia americana.
Tinha deixado mulher e quatro filhos em Governador Valadares, Minas Gerais, para tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Logo uma multidão de presos brasileiros se concentrou atrás dele, para fazer reclamações. Eles diziam que só na noite anterior tinham recebido agasalhos, por causa da visita de uma delegação parlamentar brasileira.

"A gente passa frio a noite toda, só com o uniforme de presidiário", eles protestaram. O senador Hélio Costa, de Minas Gerais, ex-colega da Globo, era um dos integrantes da missão. O desabafo de Altair ia muito além do desconforto físico. Ele tinha caído em uma espécie de região cinzenta da lei, por causa de uma confusão burocrática. Quando foi preso, as autoridades americanas confiscaram e depositaram em juízo o dinheiro que ele carregava.
Altair já estava na cadeia há 95 dias. Desistiu de qualquer ação na Justiça e pediu para ser deportado. No entanto, o dinheiro dele havia sumido. E enquanto os burocratas americanos não se entendiam Altair esperava uma solução. Não tinha dinheiro para pagar as ligações telefônicas para o Brasil e, portanto, já não falava mais com a família.

"Podem ficar com o meu dinheiro, mas me mandem de volta para o Brasil", implorava Altair. Ele estava preocupado porque a mulher dele tinha ficado sem dinheiro para comprar cadernos, canetas e livros para os filhos. Depois do desabafo, Altair ficou mais tranquilo. Recebeu a promessa de que seria colocado em um dos primeiros vôos que os parlamentares brasileiros conseguiram para repatriar os presos. Imaginem o drama que ele enfrentou.
Sem falar uma só palavra de inglês, era levado da cadeia para o tribunal e não conseguia entender direito o que estava se passando. Já tinha assinado os documentos que autorizavam a deportação, mas continuava nos Estados Unidos por causa de um detalhe burocrático. "Deixa o meu dinheiro de lado, eu quero é sair deste inferno", ele nos disse chorando. Sei que Altair voltou para o Brasil, mas a imagem do desespero dele ficou gravada na minha memória.
Publicado originalmente em 2005