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EM DEFESA DA LIBERDADE NA INTERNET

Atualizado em 18 de julho de 2008 às 11:56 | Publicado em 18 de julho de 2008 às 00:07

por André Lemos, Sérgio Amadeu da Silveira e João Carlos Rebello Caribé

EM DEFESA DA LIBERDADE E DO PROGRESSO DO CONHECIMENTO NA INTERNET BRASILEIRA

A Internet ampliou de forma inédita a comunicação humana, permitindo um avanço planetário na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele escrito, imagético ou sonoro. Construída colaborativamente, a rede é uma das maiores expressões da diversidade cultural e da criatividade social do século XX. Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação, como impera ainda na era das mídias de massa. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada, pela liberdade de criação de novos formatos midiáticos, de novos programas, de novas tecnologias, de novas redes sociais. A liberdade é a base da criação do conhecimento. E ela está na base do desenvolvimento e da sobrevivência da Internet.

A Internet é uma rede de redes, sempre em construção e coletiva. Ela é o palco de uma nova cultura humanista que coloca, pela primeira vez, a humanidade perante ela mesma ao oferecer oportunidades reais de comunicação entre os povos. E não falamos do futuro. Estamos falando do presente. Uma realidade com desigualdades regionais, mas planetária em seu crescimento.

O uso dos computadores e das redes são hoje incontornáveis, oferecendo oportunidades de trabalho, de educação e de lazer a milhares de brasileiros. Vejam o impacto das redes sociais, dos software livres, do e-mail, da Web, dos fóruns de discussão, dos telefones celulares cada vez mais integrados à Internet. O que vemos na rede é, efetivamente, troca, colaboração, sociabilidade, produção de informação, ebulição cultural. A Internet requalificou as práticas colaborativas, reunificou as artes e as ciências, superando uma divisão erguida no mundo mecânico da era industrial. A Internet representa, ainda que sempre em potência, a mais nova expressão da liberdade humana.

E nós brasileiros sabemos muito bem disso. A Internet oferece uma oportunidade ímpar a países periféricos e emergentes na nova sociedade da informação. Mesmo com todas as desigualdades sociais, nós, brasileiros, somo usuários criativos e expressivos na rede. Basta ver os números (IBOPE/NetRatikng): somos mais de 22 milhões de usuários, em crescimento a cada mês; somos os usuários que mais ficam on-line no mundo: mais de 22h em média por mês. E notem que as categorias que mais crescem são, justamente, "Educação e Carreira", ou seja, acesso à sites educacionais e profissionais. Devemos assim, estimular o uso e a democratização da Internet no Brasil. Necessitamos fazer crescer a rede, e não travá-la. Precisamos dar acesso a todos os brasileiros e estimulá-los a produzir conhecimento, cultura, e com isso poder melhorar suas condições de existência.

Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral. O Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo quer bloquear o uso de redes P2P, quer liquidar com o avanço das redes de conexão abertas (Wi-Fi) e quer exigir que todos os provedores de acesso à Internet se tornem delatores de seus usuários, colocando cada um como provável criminoso. É o reino da suspeita, do medo e da quebra da neutralidade da rede. Caso o projeto Substitutivo do Senador Azeredo seja aprovado, milhares de internautas serão transformados, de um dia para outro, em criminosos. Dezenas de atividades criativas serão consideradas criminosas pelo artigo 285-B do projeto em questão. Esse projeto é uma séria ameaça à diversidade da rede, às possibilidades recombinantes, além de instaurar o medo e a vigilância.

Se, como diz o projeto de lei, é crime "obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida", não podemos mais fazer nada na rede. O simples ato de acessar um site já seria um crime por "cópia sem pedir autorização" na memória "viva" (RAM) temporária do computador. Deveríamos considerar todos os browsers ilegais por criarem caches de páginas sem pedir autorização, e sem mesmo avisar aos mais comum dos usuários que eles estão copiando. Citar um trecho de uma matéria de um jornal ou outra publicação on-line em um blog, também seria crime. O projeto, se aprovado, colocaria a prática do "blogging" na ilegalidade, bem como as máquinas de busca, já que elas copiam trechos de sites e blogs sem pedir autorização de ninguém!

Se formos aplicar uma lei como essa as universidades, teríamos que considerar a ciência como uma atividade criminosa já que ela progride ao "transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado", "sem pedir a autorização dos autores" (citamos, mas não pedimos autorização aos autores para citá-los). Se levarmos o projeto de lei a sério, devemos nos perguntar como poderíamos pensar, criar e difundir conhecimento sem sermos criminosos.

O conhecimento só se dá de forma coletiva e compartilhada. Todo conhecimento se produz coletivamente: estimulado pelos livros que lemos, pelas palestras que assistimos, pelas idéias que nos foram dadas por nossos professores e amigos... Como podemos criar algo que não tenha, de uma forma ou de outra, surgido ou sido transferido por algum "dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular"?

Defendemos a liberdade, a inteligência e a troca livre e responsável. Não defendemos o plágio, a cópia indevida ou o roubo de obras. Defendemos a necessidade de garantir a liberdade de troca, o crescimento da criatividade e a expansão do conhecimento no Brasil. Experiências com Software Livres e Creative Commons já demonstraram que isso é possível. Devemos estimular a colaboração e enriquecimento cultural, não o plágio, o roubo e a cópia improdutiva e estagnante. E a Internet é um importante instrumento nesse sentido. Mas esse projeto coloca tudo no mesmo saco. Uso criativo, com respeito ao outro, passa, na Internet, a ser considerado crime. Projetos como esses prestam um desserviço à sociedade e à cultura brasileiras, travam o desenvolvimento humano e colocam o país definitivamente para debaixo do tapete da história da sociedade da informação no século XXI.

Por estas razões nós, abaixo assinados, pesquisadores e professores universitários apelamos aos congressistas brasileiros que rejeitem o projeto Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo ao projeto de Lei da Câmara 89/2003, e Projetos de Lei do Senado n. 137/2000, e n. 76/2000, pois atenta contra a liberdade, a criatividade, a privacidade e a disseminação de conhecimento na Internet brasileira.

PARTICIPE DO ABAIXO-ASSINADO ELETRÔNICO


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Robson Ferreira (21/07/2008 - 17:59)
De gente mal intencionada e oportunista já está cheio o cenário político, sem contar o fato de algumas elas muitas vezes atuarem segundo os interesses de grandes empresas. Por isso qualquer "brexa" que se dá que restrinjam a liberdade dos cidadãos e conceda cada vez mais autonimia às empresas e seus interesses unicamente econômicos em nome dos princípios individualistas que regem a nossa sociedade tem que ser vetada!!!!!

Alex (18/07/2008 - 11:54)
Esse blog e toda a experiência que ele nos proporciona em nada seria afetado por essa lei, por exemplo. Salvo detalhes (a conectividade/inclusão digital que tanto me perturba).

Alex (18/07/2008 - 11:52)
Ao João Calil Jabur. Isso não é argumento! Que o "distinto" senador pague pelos seus crimes e que a discussão em torno da regulamentação da internet passe por cima disso.

Alex (18/07/2008 - 10:14)
Para fechar minha participação nesse tópico... acho sim que ainda cabe muita discussão sobre esse projeto de lei. Principalmente nos impactos da mesma sob nossa capacidade de conectividade (e com isso, na inclusão digital). Mas a essência da lei é boa. Ajustes são necessários.

Alex (18/07/2008 - 10:12)
"O simples ato de acessar um site já seria um crime por cópia sem pedir autorização na memória viva (RAM) temporária do computador." Isso é uma interpretação totalmente demente da lei. É uma tentativa descabida de gerar pânico. É um argumento típico daqueles que tanto criticamos.

Alex (18/07/2008 - 10:06)
"Se, como diz o projeto de lei, é crime obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida". Desculpa mas... isso já não é crime? Quem ROUBA informação sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida não é LADRÃO? Violação de direitos autorais virou "atividade criativa"?

Alex (18/07/2008 - 10:04)
"Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral" Isso é MENTIRA. É uma declaração carregada de má fé. Intenção do projeto passa longe disso. Pode até bloquear tais "práticas criativas", seja lá quais forem (muito curioso). Mas isso não significa que seja essa a intenção. A solução desses problemas passar por entender e assumir isso.

Alex (18/07/2008 - 10:00)
Queria uma boa definição para "atividades criativas". Pq sempre que se tenta regulamentar o uso da internet se apela para esse discurso melado? Até concordo que o projeto em questão tem falhas graves. Mas o contra-argumento é tão fantasioso e afastado da realidade, que o risco do projeto passar acaba sendo maior.

Fabiana Oliveira (18/07/2008 - 09:24)
Este blog é um exemplo de que a internet se tornou uma ferramenta essencial para a mobilização social, ao iniciar uma forma democrática de difusão de informações e opiniões. Agora, além de tudo, querem tirar isso da gente. Eu apóio esta luta

Joao Calil Jabur (18/07/2008 - 09:13)
Que moral tem o distinto senador para dizer que isto ou aquilo é crime? Ele por acaso já pagou pelo crime de uso de dinheiro do "mensalão" para financiar sua campanha ao governo de Minas Gerais.



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