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O patrão que me ama

10 de maio de 2017 às 16h08

por Marco Aurélio Mello

Havia um sujeito que trabalhava numa grande empresa de comunicação.

Grande não, enorme.

Enorme não, a maior da América Latina e uma das maiores do planeta.

Um conglomerado de mídia.

Era o orgulho dos amigos e da família.

“Este sim se deu bem na vida”, bradavam.

Andava de peito estufado, não raro, uniformizado.

No almoço de domingo, quando o pacato funcionário estava de folga, todos paravam para ouvir suas platitudes.

Como platitude não é um termo usado corriqueiramente, e tem muita gente jovem que se queixa “que os velhos escrevem difícil, que não dá para entender”, vale a pena a gente explicar.

Platitude é aquele discurso óbvio sobre determinado tema, enfadonho, sem nenhuma informação adicional.

O platinado, se assim podemos chamá-lo, com seu esforço pessoal deixou a linha que divide o “ninguém”, o Zé Mané, do “alguém”.

Sim, ele era alguém.

Tinha adquirido um apartamento pequeno financiado em 30 anos, andava em carro popular novo financiado em 60 meses (mas com todos os opcionais de fábrica, é bom ressaltar) e tinha benefícios dignos de dar inveja a qualquer assalariado nos dias de hoje: carteira assinada, férias, décimo-terceiro, auxilio alimentação, plano de saúde e até seguro de vida.

Em 2012 levou toda a família para passear de navio pela costa brasileira, numa viagem de sete dias “com todas as refeições inclusas”.

Mas desde 2013 ele estava ressabiado.

Isolado, de poucas palavras, parecia mesmo deprimido.

A família, os amigos, todos apelavam para o bom senso: “olha para você rapaz, veja tudo o que você tem, o que conseguiu…”

Mas nada, nada o consolava.

No íntimo, bem no íntimo, ele sofria por causa de uma ordem que fora obrigado a cumprir.

Ele e os colegas estavam escondendo informações do público.

Justo ele, que sempre se alegrou de fazer parte de um fluxo intermitente de produção de conteúdo “onde quem escolhia o que ver e em quem acreditar era o público.”

O que ele começava a perceber é que seu silêncio contribuía para destruir o futuro de seus pares, de sua família, dos filhos e, logo, dele próprio.

Isto mudou completamente sua visão de mundo, sua forma de agir.

A camaradagem e o bom humor foram dando lugar à irritação.

Ele estava ficando doente.

Não só ele, um grupo grande de colegas partilhavam da mesma desilusão.

Foi quando numa reunião os chefes apresentaram ao conselho administrativo três saídas para a crise identificada pelo RH: 1. dar um prêmio de reconhecimento e incentivo; 2. identificar, humilhar e ameaçar os descontentes; 3. punir sumariamente os infiéis com demissões.

Um dos conselheiros perguntou: — o que fica mais barato?

— O plano número dois, respondeu um dos chefes. Mas só enquanto não gerar licença médica, porque se começar a gerar encarece.

— Então demite logo essa turma de uma vez!

E, até hoje, lá no bairro, todo mundo acha que o errado foi ele, o platinado.

E ainda tem gente que acha que o patrão te ama…

Haja amor.

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Não é tão difícil como a gente imagina.

 

3 Comentários escrever comentário »

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Bacellar

22/05/2017 - 15h15

qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência…Rsrsrs

Responder

C N Morais

16/05/2017 - 10h03

Essa tem nome, endereço e motivo…

Responder

Lukas

14/05/2017 - 08h04

Tira esse rancor do coração.

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