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O choro de Alexandre

07 de agosto de 2017 às 16h13

por Marco Aurélio Mello

Imagina uma cena corriqueira, dessas em que uma pessoa pede a ajuda de outra. A situação serviu de ponto de partida para uma reflexão delicada, tocante. Entrei em contato com o autor, o Alexandre, um psicólogo. Ele autorizou a publicação. O relato que se segue é de encher o coração de esperança.

“Uma senhora me parou hoje, na fila do supermercado. Trajava roupas quentes, mas o olhar portava a frieza dura dos sofrimentos em série. Tinha pele negra – a característica que transforma tudo, neste país, quase sempre para pior. Suas mãos eram dadas a uma criança chorosa de quatro anos, com uma tristeza nas retinas que me entortaram as vísceras. Ela me pediu para acrescentar à minha compra um litro de leite, um quilo de açúcar, meio quilo de café e três pães de sal.

Uma pergunta como esta é o que me remete imediatamente à belíssima expressão cunhada por Eliane Brum para falar de privilégios de toda sorte numa sociedade estratificadamente excludente como a nossa: uma existência violenta. A senhora me fez um pedido com um tom entre a humilhação e a vergonha, e eu me senti imediatamente existindo violentamente. Eu, homem branco, cisgênero, heterossexual, classe média, superior completo, profissional liberal, e tantas outras palavras que, em seu conjunto, me afastam da existência violentada daquela senhora. Eu, a existência violenta. Ela, a existência violentada. Entre nós, um mundo que decreta, já no nascimento, que nós sempre seremos diferentes. Eu, do lado de quem pode pagar um carrinho cheio de supermercado. Ela, do lado de quem tem que guardar a humilhação e a vergonha atrás da palavra que precisa pedir a um estranho que lhe pague leite, pão, café e açúcar.

Os microssegundos que teimavam em passar, entre a pergunta dela e o meu “sim, claro!”, foram suficientes para sentir tudo isso. Talvez meu espanto e minha tristeza precisassem de mais tempo, mas a fome é a dona da urgência. Eu a convidei para tomar um lanche comigo. Quem respondeu foi o neto, “eu quero”, antes dela ter condição de dizer qualquer “não precisa, meu filho, você já está me ajudando demais”. Não é uma relação de ajuda, senhora. Esta é uma cena de lamento histórico, de chaga nacional, de tragédia humana. Não cabe a palavra ajuda. Cabe apenas o inominável.

Ela aceitou meu convite, e fomos à lanchonete a poucos passos do caixa. Eu empurrei meu constrangimento naquele carrinho abarrotado de carnes, frutas de todas as cores e saúde a ser promovida para minha família. Ela trazia alguma novidade nos olhos que eu imaginava ser a mistura entre o alívio temporário e a certeza de que a vida voltaria a envergar-lhe a paz à medida em que a fome ganhasse o protagonismo da cena novamente.

Sentamos. Ela me contou que tinha sido mãe de dois filhos, ambos assassinados pela polícia ou pelo tráfico. “Nem sei qual deles matou meus filhos, um depois o outro”. Enquanto eu tratava de chorar algum oxigênio para minha alma travada por testemunhar a cicatriz do genocídio da população negra, o neto pedia três pães de queijo. Comeu-os numa rapidez que me mortificou. Mas isto não era nada diante da minha existência violenta. Eu sentia que precisava escutar aquela história, muito mais do que ela precisava falar.

Durante vinte minutos estivemos ali, eu sendo abraçado por aquela senhora em luto profundo, mas tendo que abster-se de sofrer em silêncio e solidão e tendo que ir a um caixa de supermercado, à pé, levando o neto faminto ao seu lado. A fome é mister nestas horas, é hiper exigente e faz do luto um luxo. A vergonha e a humilhação não valem nada para uma mulher preta, pobre e mãe de dois números que não contam para ninguém, além de serem estatísticas sombrias de quem na verdade somos como nação.

No final da conversa, eu pedi um abraço. Eu estava trêmulo, triste, sem lugar. “Não fique assim, o senhor já me deu demais”. E, com esta frase, faz de mim uma pergunta boquiaberta, um lamento que não cessa. Não é ajuda. Eu não sou uma entidade bondosa por ofertar-lhe aquele espaço. Somos uma nação que funciona como pai abandonador, negligente e abusivo, que escolhe alguns de seus filhos para chamar de seus, e aniquila a existência de outros. E nós, os filhos preferidos, preferimos também não ver que não vemos a exclusão, para não corrermos o risco de questionar aquilo que acreditamos que é nosso mérito, mas que é privilégio forjado através de uma violência que nos constitui. Ao sermos filhos da violência, somos parte de um tecido injusto que, de quando em vez, vai se aproximar de nossa paz privilegiada para lembrar-nos sobre a amnésia que construímos para nos defendermos do horror que está ao lado, dentro e fora de nossas verdades perfeitas.”

Alexandre Coimbra Amaral é psicólogo, palestrante e coordenador de Grupos Terapêuticos e Cursos Livres no Instituto Rodaviva. Alguém que é capaz de compreender nosso lugar, ao fazer algo absolutamente simples: colocar-se no lugar do outro.

16 - ago 0

Eis aqui um comunista

Ele não come criancinhas.

10 - ago 2

Sim, é textão

Mas ajuda a pensar.

08 - ago 10

Nossa guerra cotidiana é mais sobre covardia

E menos sobre coragem.

 

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