Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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A morte de perto Utilidades

VIAGEM ÀS CEGAS NO RIO SOLIMÕES

Atualizado e Publicado em 01 de fevereiro de 2008 às 18:15

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Navegamos pelo rio Amazonas, a caminho de Manaus. Notem a formação de nuvens à esquerda. No verão, todo dia despenca um temporal na região. Nunca imaginei que ia enfrentar uma tempestade durante a noite, num dos rios mais perigosos da Amazônia, o Solimões. Estávamos em Mamirauá, a primeira reserva de desenvolvimento sustentável do Brasil. Fica perto de Tefé, quase na fronteira do Brasil com a Colômbia.

[Um leitor me corrige, Tefé fica bem longe da fronteira com a Colômbia, mais de 500 quilômetros]

Havíamos alugado um barco grande para chegar até lá, o Picão. Mas o acesso a alguns lugares só pôde ser feito de voadeira, como são chamadas as pequenas lanchas. Soubemos de um bom personagem para a nossa reportagem.

Além de falar de Mamirauá, queríamos contar um pouco da vida dos ribeirinhos. Um deles teria sido comido por piranhas. Os detalhes eram escassos e teríamos que procurar pela filha da vítima para confirmar o que até então era um boato. Subimos o rio Solimões. Foram cerca de três horas de viagem até a vila onde morava a testemunha. Com a ajuda de barqueiros, localizamos a mulher. Ela confirmou o que havia acontecido. O pai, antigo pescador, estava aposentado mas não conseguia se manter distante do rio.

Ainda que os filhos insistissem, dizendo que ele não tinha mais idade para isso, o pescador aproveitou a ausência da família para sair sozinho. Teria encostado o barco na margem e começado a pescar, numa área infestada por piranhas. Daí em diante, ninguém sabe direito o que aconteceu. Pode ter sido um ataque do coração. Um simples mal estar. Ou um escorregão. O fato é que ele caiu na água. Dias depois, a filha encontrou o corpo do pai comido pelas piranhas.

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Há imensos cardumes de piranhas em alguns rios da Amazônia. Segundo estudiosos, elas só se alvoroçam em torno de sangue corrente. Na queda, o homem pode ter sofrido algum ferimento. Ou mergulhou na água morto e ficou dias boiando até ser devorado pelos peixes.

Os ribeirinhos são cautelosos. Não entram na água quando têm ferimentos no corpo. E também têm medo de ficar muito tempo mergulhados. Aquela pele branca que se forma na extremidade dos dedos, quando ficamos horas dentro d'água, também atrai os peixes carnívoros. Impressionados com a história, nem notamos que havia caído a tarde.

Decidimos voltar navegando na escuridão. Na Amazônia, barqueiros experientes conhecem cada curva de rio. Uma lanterna é o suficiente para que eles se guiem na escuridão. Mas não contávamos com a tempestade no Solimões.

É um rio que os cientistas definem como novo, ainda em formação. A água desce arrastando os barrancos e, com eles, árvores. Para complicar a situação, ficamos sem gasolina. Tivemos que ser rebocados por outra voadeira, tão pequena quanto a nossa. Quando a chuva apertou, era impossível enxergar um metro adiante.

Os barqueiros riam, se divertindo com o nosso pavor. Acredito que eles também ficaram nervosos. O Solimões é um rio bravo. A tempestade inundava os nossos barcos. Passamos à tarefa de tentar esvaziá-los usando garrafas plásticas cortadas pela metade.

O barco que nos rebocava desviava de troncos que apareciam de repente, flutuando no Solimões. Um descuido e todos acabaríamos mergulhados no rio. Ainda que de colete salva-vidas, seria uma luta e tanto para chegar à margem. Confesso que fiquei apavorado. Sugeri ao diretor Alexandre Alencar que tentássemos atracar na margem, à espera do fim da tempestade.

Nem sei se na hora ele conseguiu ouvir. O mais importante, naquele momento, era evitar que a água enchesse nosso barco e provocasse o naufrágio. Mais tarde, vencido o desafio, os barqueiros nos disseram que parar teria sido pior.

A força do rio poderia ter derrubado uma árvore sobre nós. No fim da viagem, a tempestade apertou, criando ondas que ameaçavam separar nossos barcos. Cobri a cabeça com uma capa plástica e fiquei esperando pelo pior, que não veio. Duas curvas adiante, vencemos as nuvens da chuva e a lua iluminou nosso caminho.

Chegamos ensopados ao nosso destino. O barco Picão, visto abaixo navegando no Solimões, era usado por nós como hotel. A cozinheira, preocupada com a demora, tratou de acalmar o nosso estômago. No cardápio, caldeirada de piranha.

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Publicado originalmente em 2005


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