Atualizado em 01 de fevereiro de 2008 às 13:42 | Publicado em 01 de fevereiro de 2008 às 12:49
WASHINGTON - Hillary Clinton e Barack Obama debateram por quase três horas ontem à noite. Falaram sobre política externa. Falaram sobre a guerra no Iraque. Obama demonstrou perspicácia quando confirmou que defende a concessão de carteiras de motorista para imigrantes ilegais e sugeriu que eles não sejam usados como bodes expiatórios para os problemas econômicos dos Estados Unidos. Para os republicanos, é como se a presença dos ilegais fosse causa da crise econômica. Ninguém condena a especulação financeira desenfreada, nem os traficantes do papelório sem relação com riqueza real, hoje em dia tão poderosos que colocam a faca no pescoço do Banco Central americano quando correm risco de tomar prejuízo.
Seria muito pedir a Obama a condenação da lógica segundo a qual nossa própria existência só se justifica se tivermos valor de mercado. Mas ele me surpreendeu quando falou dos 4 milhões de refugiados do Iraque e assumiu claramente que lidar com eles é responsabilidade dos Estados Unidos. É algo que estava faltando na campanha eleitoral americana: falar da tragédia de homens, mulheres e crianças do Iraque, 120 mil civis mortos segundo o levantamento mais recente da Organização Mundial de Saúde.
Os americanos, mesmo aqueles que se opõem à guerra, só lamentam a trágica perda de 4 mil soldados, que representam 0,0016 da população americana. Quase nunca se referem à devastação imposta a um país de 27 milhões de habitantes, dos quais 15% estão vivendo como refugiados na Síria e na Jordânia. Um país que, por baixo, perdeu 0,5% da população de forma violenta desde que os Estados Unidos decidiram "implantar uma democracia". É barbárie equivalente à do torturador Saddam Hussein.

Fui levado a pensar na dimensão da tragédia quando vi a foto do lugar em que uma mulher suicida se detonou, em Bagdá, matando dezenas de pessoas. É a feira de animais vivos que tanto nos impressionou quando eu e o repórter cinematográfico Sherman Costa passamos duas semanas na Jordânia e no Iraque, pouco antes da invasão, em 2003. Um feirão que é mistura da 25 de março em São Paulo com aqueles mercados ao ar livre do Nordeste brasileiro. Vem gente de longe para comprar, vender e trocar animais. Tem música e bancas de comida. E a mercadortia é farta: porcos, cabras, pássaros, cobras e até escorpiões. Escorpiões vivos, que teriam poder não só afrodisíaco, mas também de garantir boa sorte. Seria irônico, não fosse absolutamente trágico.
Os Bushs não são apenas criminosos de guerra, são criminosos comuns. Quando penso nisso lamento o fato de não acreditar em Deus, assim teria a esperança da justiça. Nada, nada vai acontecer a eles, eu sei. Mas não abaixo a guarda. "Diz amor, que horas são Diz amor, que horas são No reino dos sem razão Que horas são em Buenos Aires Que horas são em Washington Diz amor, que horas são No reino dos sem razão George W. Bush Não me venha com teus Pedidos de falso amor E primavera Assassino de consciências E de alternativas Não poderá deter A primavera De manhã, manhã Voltará a primavera Para os meninos e meninas do mundo Algum dia, algum dia Voltará a primavera E o império, eu juro, eu te juro amor O império cairá"