Atualizado em 26 de janeiro de 2008 às 00:51 | Publicado em 26 de janeiro de 2008 às 00:49

Foi em 28 de maio de 1995, em Indianápolis, Estados Unidos. Um acidente envolvendo seis carros na primeira volta das 500 Milhas da Fórmula Indy fez o carro de Stan Fox voar. Notem na foto as pernas do piloto. Fox ficou cinco dias em estado de coma. O trauma cerebral foi tamanho que ele se esqueceu do acidente. "Comecei do zero, como um menino de 4 anos de idade. Tive que aprender tudo de novo", declarou.
Para nós, meros mortais, é muito difícil imaginar o que se passa na cabeça de um piloto quando ele disputa uma posição a 400 quilômetros por hora.
Será que em velocidade tão alta ele responde apenas a seus reflexos ou tem tempo para raciocinar sobre o que vai fazer na próxima fração de segundo? É uma pergunta que sempre me intrigou. Por isso fui procurar o dr. Steve Olvey, neurocirurgião da Universidade de Miami e diretor de serviços médicos da Cart, a organizadora da Fórmula Indy.

Em 15 de setembro de 2001, em Lausitzring, na Alemanha, houve tragédia na corrida da Champ Car (novo nome da Fórmula Indy). O carro azul, de Alex Tagliani, destruiu o de Alessandro Zanardi. O piloto italiano perdeu as duas pernas. Durante o vôo para o hospital, no helicóptero, Zanardi foi ressuscitado três vezes. Sobreviveu e, com duas próteses, voltou ao cockpit em provas de stock car.
Quando eu pesquisava a fisiologia dos pilotos, imaginei que o dr. Olvey poderia me dar respostas baseado nos testes feitos com pilotos durante as corridas. O monitoramento dos batimentos cardíacos, por exemplo, demonstrou que o coração dispara depois da largada.
Pode bater 180 vezes por minuto nos momentos mais emocionantes - mais que o dobro do normal. O dr. Olvey me explicou que isso é causado pela injeção de adrenalina na corrente sanguínea. A adrenalina é um hormônio que anestesia o corpo - se estamos ansiosos ou com sensação de medo.
Você já bebeu algumas cervejas e em seguida tomou um grande susto? Quando isso acontece a gente fica esperto - como se o álcool de repente evaporasse. É o efeito da adrenalina. O mesmo acontece depois de um acidente. A adrenalina funciona como anestésico, faz a gente esquecer da dor.
O cérebro humano está preparado para arquivar traumas. Segundo o dr. Olvey, dependendo da gravidade do acidente o piloto pode sofrer uma amnésia benigna. É como se o corpo cuidasse de apagar as memórias mais traumáticas.

Em 11 de setembro de 2005, na pista de Chicago, Illinois, o carro do australiano Ryan Briscoe partiu em três e voou, durante as 300 Milhas da Indy Racing League. O piloto teve duas fraturas, saiu do carro consciente e voltou a competir.
Nos pilotos, segundo o dr. Olvey, a contínua injeção de adrenalina causa uma sensação de êxtase. É como se os neurônios estivessem ligados na corrente elétrica. "Eu me sinto num estágio mental superior", testemunhou Émerson Fittipaldi. "Um orgasmo mental permanente", brincou.

Em maio de 1984, em Indianápolis, o carro do piloto Patrick Bedard voou durante as 500 Milhas. Notem, ao fundo, como um torcedor se joga ao chão. Apesar da destruição, Patrick não sofreu ferimentos graves.
Segundo Gil de Ferran, durante uma corrida o piloto fica tão ligado quanto um usuário de drogas. Só que é uma droga produzida pelo próprio corpo. "Na pista, nossa percepção da realidade é maior, nossa capacidade de reagir também. Eu consigo me lembrar de cada detalhe do que se passou em uma corrida", afirma Gil. Ele se lembra de um episódio que aconteceu no Grande Prêmio da Austrália. Gil fez uma curva e deu de cara com o carro de Gualter Salles parado na pista.
"A reação de um motorista seria a de colocar a mão na cabeça. Não havia margem de manobra. Pensei muito rápido, caso contrário não estaria aqui hoje", disse Gil. Não significa que todos os pilotos reajam igualmente ao derrame de adrenalina. "Não gosto de largar por perto do Paul Tracy ou do Alessandro Zanardi, que são muito emocionais", afirmou Gil de Ferran. "Prefiro o Al Unser Jr. ou o Bobby Rahal por perto, são frios como eu", completou.
Publicado originalmente em 2006