Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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VICIADOS EM VELOCIDADE

Atualizado em 01 de fevereiro de 2008 às 00:28 | Publicado em 31 de janeiro de 2008 às 21:21

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Na foto, eu e o cinegrafista Luiz Carlos Novaes esperamos por notícias sobre o estado de saúde de Christian Fittipaldi. Ele havia se acidentado num treino para o Grande Prêmio do Brasil. Nada grave.

Tornei-me repórter de automobilismo por puro acaso. Estava em Nova York, no escritório da Rede Manchete, quando recebi a chamada de Nilton Travesso, então diretor da emissora.

A conversa foi mais ou menos assim: "Você vai transmitir corridas de automóvel. Estréia na Austrália, em duas semanas". Respondi que não sabia diferenciar uma porca de um parafuso. "Vai aprender fazendo", ele sugeriu.

Espero que a fita original daquela primeira transmissão tenha sido apagada. Devo ter falado muitas bobagens no ar, porque realmente não tinha idéia do que movia um carro de corrida.
Minha tarefa era ficar nos boxes, ouvindo a transmissão de Téo José e correndo atrás das equipes para saber quando seriam os pit stops.

Lembro-me que o comentarista daquela primeira corrida se referiu a Paul Tracy, piloto novato e agressivo, como um louco que baba. Se não me engano, foi a única transmissão dele. Diferentemente da Fórmula Um, onde equipes e pilotos vivem num clima de Corinthians e Palmeiras, na Indy o circo era uma grande família. Tinha até o padre Phil, que rezava missa ecumênica na manhã das corridas.

Logo fui tomando gosto pelo assunto. Acabei fascinado pelo esporte. Queria saber o que motivava aqueles malucos. Fiquei amigo de um dos médicos da categoria, o doutor Steve Olvey, da Universidade de Miami. Ele havia submetido a testes as grandes estrelas do automobilismo, de Mário Andretti a Ayrton Senna. O estudo dele concluiu que os pilotos têm um perfil físico e psicológico especial.

Fisicamente, raciocinam frações de segundo mais rápido do que outras pessoas. O perfil psicológico os enquadra na categoria de agressivos, não no sentido negativo da palavra. O doutor disse que muitos destes traços podem ser genéticos, o que talvez explique as dinastias do automobilismo: os Andretti, os Fittipaldi, os Villeneuve, os Unser e os Piquet.

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Até hoje muita gente me pergunta qual era o sentido de usar aquele macacão patético, esse que visto na foto acima, ao lado do carro de Gil de Ferran. Descontando o mau gosto de quem escolheu as cores, no SBT, era roupa obrigatória para quem trabalhava nos boxes.

Na Fórmula Indy (mais tarde rebatizada de Champ Car), os motores queimam metanol. Em caso de incêndio a gente sente o calor mas não consegue ver o fogo, uma vez que a chama do metanol é invisível.  

O macacão, portanto, era uma precaução obrigatória contra queimaduras. Quando comecei a participar das transmissões a Indy estava em expansão. O calendário não parava de crescer. Surgiram corridas fora dos Estados Unidos - no Japão e no Brasil, por exemplo. Viajávamos 180 dias por ano.

O convívio com os pilotos produziu um clima amistoso entre nós. Depois de acumular alguma experiência, já era possível avaliar os novatos - na época existia a Indy Lights, uma categoria de acesso.

Bastava assistir algumas provas para descobrir o talento daqueles que seriam campeões. Jacques Villeneuve, Hélio Castro Neves e o mineirinho Cristiano da Matta são alguns exemplos. Ultrapassar por fora, colado no muro, numa pista oval, era o teste máximo de ousadia.

Numa ocasião, antes da corrida principal, como mero espectador, eu vi Cristiano colar no muro, disputando posição, por mais de um volta. Foi a ultrapassagem mais emocionante que já testemunhei.

Passei a aceitar o automobilismo como esporte quando, vestido com o tal macacão, perdi dois quilos durante a transmissão de uma prova de 500 milhas - cerca de 800 quilômetros -, na pista oval de Michigan.

Se eu terminei a corrida exausto e desidratado, como é que aqueles pilotos resistiam à velocidade, às ultrapassagens milimétricas, à tensão de mais de três horas enfiados naquele cockpit? Atletas especiais, com certeza, de braço e de mente.

O ponto alto do ano eram as 500 Milhas de Indianápolis, na época um dos maiores eventos esportivos dos Estados Unidos. A foto do ganhador da prova saia na primeira página do New York Times, no dia seguinte. E o prêmio era de um milhão de dólares.

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Tomei gosto de vez quando pude dar uma volta no carro-madrinha, na pista de Indianápolis. A foto acima foi só pose. Andei de passageiro, mas ainda assim o coração quase saltou quando o piloto desceu aquela reta a 200 quilômetros por hora, tocou no freio, e fez a curva um colado ao muro.

A equipe com a qual eu trabalhava, primeiro na Manchete, depois no SBT, se divertia nas folgas disputando corridas de kart. O comentarista Dedê Gomez, ex-piloto, ganhava quase todas, mas o produtor Giba Fernandez e o narrador Téo José davam trabalho.

Eram todos bons de braço. Ultrapassar qualquer deles, o que consegui algumas vezes, era uma vitória. Colar na traseira, frear na hora certa, esperar um erro do adversário - tudo isso me fez apreciar e entender melhor o automobilismo.

Tínhamos também uma competição especial, uma vez por ano, contra outras equipes de jornalismo que acompanhavam o circo. Era para ver quem fazia, no papel de mecânico, a troca de pneus mais rápida. Já era tradição: a equipe da rede americana ABC ganhava todo ano.

Ex-pilotos, tinham intimidade com o equipamento - o macaco hidráulico, o manejo das rodas e do revólver usado para fixá-las. Numa ocasião, movidos pelo espírito anti-gringo do Téo José, decidimos competir pra valer. Treinamos no dia anterior, recebemos dicas dos pilotos e descansamos na véspera da competição.

Minha tarefa específica era trocar o pneu dianteiro esquerdo. Na hora agá, algum santo baixou em nossa equipe. Se não me engano, os americanos da rede ABC marcaram 15 segundos.

Tempo entre a parada no box, a colocação do macaco, a troca dos quatro pneus e o sinal para que Gil de Ferran arrancasse. Para espanto geral dos organizadores e dos próprios pilotos, marcamos 13 segundos. Comemoramos como se fosse gol de título.

Foi como se o Noroeste de Bauru ganhasse de virada a final de um campeonato contra o Santos. Até hoje guardo o prêmio, que poderia estar no braço de um dos repórteres da ABC: o relógio que aparece abaixo.

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Publicado originalmente em 2006


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Bruce (20/07/2008 - 16:42)
Desculpas, QUAL ERA MESMO O CARRO MADRINHA ? Deus meu...... algo errado por ae........ em tempo..... sou um MUSTANG guy....... se fosse um STANG........ teria ficado mais triste...... abraços.....

José Pedro (14/06/2008 - 15:00)
Nós fãs da CART fomos privilegiados em ter visto vc,o dedê e o téo formarem aquela grande equipe no SBT...vcs davam show nas transmissões...quando a CART saiu do SBT em 2000 parece que ficou um vazio pois as transmissões não eram tão boas...pena que esse tempo do SBT não volta mais...

Jackson Lincoln Lopes (01/06/2008 - 21:31)
Olá Azenha...eu tenho a fita de Surfer's Paradise 1993...até a de Fontana em 1998, sua despedida. Esse tempo, foi a coisa mais linda do mundo no automobilismo. Téo, Dede e vc, foram privilegiados por ver essa fase de corridas, e nós fãs também. Meu msn continua o mesmo velhão. ABraços

**Fernandinha** (14/05/2008 - 13:42)
Olá Azenha, acompanhei durante um bom tempo a formula Indy pelo SBT e era algo fantastico, um show de cobertura que vcs davam. Alem disso tinhamos pilotos experientes e que dividiam a nossa torcida. Era algo que não conseguimos ver na F-1. Saudade dos velhor tempos. Meus parabens pelo seu trabalho e que continue sendo esse profissional responsavel e talentoso que vc é. Parabens msm. Abraços.

Edson Omena (13/05/2008 - 13:52)
Azenha, vc e toda a equipe de transmitiam as corridas da fórmula indy, deveriam está na globo transmitindo a fórmula 1, o Galvão Bueno já deu o que tinha pra dar, está na hora de se aposentar e deixar o lugar para ser ocupado pelo Téo José, e claro c/ vc e o restante da equipe na retaguarda. Grande abraço.

Adilson Antunes (25/04/2008 - 08:11)
Meu Deus! Não vi nenhuma corrida com vc, o Téo e o Dedê. Mas pelos relatos que ouço deve ter sido muito bom! Parabéns Azenha por ter feito parte desta linda história de Indy! Abraços e cuide-se bem!rs

Marcelo Arruda (21/02/2008 - 15:16)
a época das tranmissóes da F1 feita spor você, Tei Jose e Dedê gomes são uma aula d eocmo fazer Jornalismod e qualidade... Obrigado!!!

Mateuz (01/02/2008 - 00:34)
Muito bom, legal saber desse lado fora das pistas. Azenha você não acompanha mais o esporte ? Nem pela TV ?

Luiz Carlos Azenha (01/02/2008 - 00:25)
Samuel, obrigado pela correção.

Samuel (01/02/2008 - 00:21)
Azenha, não que o time mereça ser corrigido, mas Corinthians esta escrito errado.



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