Atualizado e Publicado em 31 de janeiro de 2008 às 21:00

Um carro voa. Vemos o fundo dele. Preste atenção na foto: uma roda escapou e acertou a cabeça de um bandeirinha que sinalizava a corrida. Ele morreu na hora. Estávamos em Toronto, no Canadá. O piloto do carro voador era o americano Jeff Krosnoff, de 31 anos de idade. Neste caso, de nada adiantou o santo antonio, a proteção que fica atrás do cockpit para evitar ferimentos na cabeça do piloto, em caso de capotamento.
Durante uma disputa de posições, o carro de Krosnoff subiu sobre a roda de outro e decolou. No vôo, Krosnoff bateu a cabeça na árvore ou no poste. O bandeirinha que morreu era um engenheiro, Gary Alvrin, de 44 anos, um voluntário treinado para sinalizar a corrida.
Eu e o cinegrafista Luiz Carlos Novaes trabalhávamos como repórteres nas transmissões ao vivo do SBT. Corremos para o lugar do acidente. Ficamos impressionados com o dano que o impacto causou no tronco da árvore.
O piloto americano recebeu atendimento médico. Mera formalidade. A corrida estava no fim. A morte de Krosnoff só foi anunciada depois que o mexicano Adrian Fernandez venceu, embora nos bastidores se dizia que o americano morreu na hora do acidente.
"Business is business" é um chavão mofado. Vale no automobilismo. Os patrocinadores pagam para que o telespectador veja o patrocínio nas placas e nos carros durante duas horas. Não há tragédia capaz de desfazer o negócio.

Foi assim nas 500 Milhas de Michigan, em 1997. Num acidente, a suspensão do carro de Adrian Fernandez quebrou. Ele bateu a 340 quilômetros por hora. Uma roda de vinte e cinco quilos pulou feito bola de borracha, ultrapassou a cerca de proteção e caiu sobre o público. Duas pessoas morreram na hora.
Depois da corrida, tomados pelo impulso jornalístico, eu e Novaes tentamos chegar à arquibancada, para obter informações e gravar imagens. Fomos detidos por um fiscal da Indy, que tomou as nossas credenciais. Só depois de muito bate-boca fomos liberados. Nada pudemos gravar.
É assim mesmo, no automobilismo. A possibilidade de ver algum acidente espetacular atrai milhares de espectadores e telespectadores. Quando a morte acontece, principalmente nas arquibancadas, os organizadores querem logo mudar de assunto. Há muito dinheiro em jogo. Para eles, principalmente, o show deve continuar.
Publicado originalmente em 2006