Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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PAUL NEWMAN, UM GENTLEMAN

Atualizado em 14 de agosto de 2008 às 03:29 | Publicado em 10 de janeiro de 2008 às 01:00

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Paul Newman era dono de escuderia. E se comportava como mais um de nós, no chamado circo da Fórmula Indy. Um dos pilotos da equipe Newman-Haas era o brasileiro Christian Fittipaldi.

Paul tinha um carinho muito especial pelo Christian. Coisa de pai para filho. O ator sempre foi muito reservado, mas a Indy parecia uma grande família. Ali ele não era o grande ator de Hollywood. Era o apaixonado por automobilismo. Gostava de se misturar aos pilotos, aos mecânicos. Parecia se sentir à vontade, sem ser incomodado como celebridade.

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Cronômetro na mão, vibrava como qualquer outro dono de equipe. Conseguir uma entrevista com ele, na época, era difícil. Até hoje ele se nega a participar do que em Hollywood é chamado de "junket". É o dia que os marqueteiros reservam para a imprensa entrevistar atores e atrizes, na véspera do lançamento de um filme.

Os jornalistas convidados recebem passagem e hotel de graça para ir até onde está o elenco. Formam fila. Cada um tem de cinco a quinze minutos, no máximo, para as entrevistas. É irritante para diretores, atores e atrizes, que respondem sempre às mesmas perguntas.


E é humilhante para repórteres, sem tempo para ter uma boa conversa. Por isso foi um privilégio conviver com Paul Newman. Tínhamos uma espécie de acerto não escrito. Eu não perguntava sobre cinema, mas podia entrevistá-lo sobre qualquer assunto relacionado a automobilismo. Por perto do Christian, Newman quebrava o gelo, virava menino e batia papo de botequim.

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Paul Newman não estava ali de curioso. Pilotou em corridas profissionais e disputou as 24 Horas de Le Mans. Já setentão, escapou ileso de um acidente. Ele nasceu em Cleveland, Ohio, em janeiro de 1925. Na região há muitos apaixonados por automobilismo, provavelmente porque foi nela que se desenvolveu a indústria americana de automóveis. Ohio, Michigan, Wisconsin e Indiana: lá surgiram as primeiras pistas ovais para competição.

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Depois da fama, Paul Newman passou a dedicar boa parte de seu tempo a projetos sociais. Fundou uma empresa que produz molhos para salada e macarrão com receitas que o próprio ator criou. Os produtos levam o nome dele - Newman's Own - e a maior parte do lucro é aplicada em ações sociais. É um gentleman típico da Nova Inglaterra.

Eu não sei o motivo, mas a convivência que tive com Newman me faz lembrar do colega Paulo Francis. Morando em Nova York, eu o conheci em 1986. Já era um jornalista famoso, conhecido pelas críticas ácidas e pelas provocações que publicava na "Folha de S. Paulo". Fui apresentado a ele por um amigo comum.

Um almoço aqui, um jantar ali, uma peça na Broadway - e eu comecei a perceber a grande distância que existia entre o personagem e a pessoa. Não havia nada de raivoso nele, nada que remotamente lembrasse o tom áspero das críticas que publicava. Era uma pessoa doce. Na tevê, nem sempre era entendido pelos telespectadores, porque escolhia assuntos complexos para comentar em um ou dois minutos.

Na época, Chico Anysio fazia um personagem imitando o Francis, que batizou de Paulo Brasilis. Certa vez, na estação rodoviária de Bauru, eu assistia ao "Jornal da Globo". Entrou o comentário do Francis. Quando saiu do ar, um caboclo simples sentado ao meu lado comentou: "Esse Chico Anysio tem cada uma!"

Francis amava os gatos, os livros e o cinema. Ele era politicamente incorreto há vinte anos, quando ainda não era moda. Vizinho do prédio das Nações Unidas, descrevia a ONU como um tremendo cabide de empregos - o que hoje é um consenso. Francis recomendava aos amigos o Spark's Stakehouse, a churrascaria preferida dos mafiosos. Foi diante dela, em 1985, que fiz uma de minhas primeiras reportagens como correspondente.

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O assassinato do chefão da Máfia, Paul Castellano. Para o Francis, não poderia haver melhor elogio a um lugar do que a escolha dos mafiosos. "Essa italianada come bem", dizia. Francis faz falta como referência para os novos jornalistas. Era um gentleman, feito o Paul Newman. Os dois ficaram como símbolos de autenticidade num mundo povoado por gente que não fala o que pensa ou que fala muito sem dizer nada.

Publicado originalmente em 2006


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Fernando (14/08/2008 - 16:52)
OK. Bom, torço para que ele tenha momentos felizes ao lado da família então. Pelo seu depoimento parece ser um homem bastante digno. Que o melhor aconteça para ele e sua família.

Luiz Carlos Azenha (14/08/2008 - 13:19)
Fernando, foi mais ou menos isso. Os médicos deram a ele mais algumas semanas de vida. E o Newman decidiu passá-los com a família, segundo notícias divulgadas aqui. Mas como o Newman sempre foi muito discreto não há confirmação.

Fernando (14/08/2008 - 13:11)
Azenha, fale um pouco sobre o estado de saúde do Paul. Ele fugiu do hospital tipo o Darcy Ribeiro?

Paulo Lustosa Demmani (14/08/2008 - 13:00)
Azenha, não tive oportunidade de conhecer Paulo Francis quem imagino que tivesse as qualidades humanas que vocâ aponta. Na virada dos 80 para os 90 vivi nos EUA e lia diariamente o NYT, o WSJ e, semanalmente, a Newsweek e a Time. Saciava minha fome de informação com assinaturas desses periódicos. Me incomodava no Francis o fato de, mais de uma vez, ter escrito na FSP comentários e análises contundentes, arrogantes as vezes, sobre temas que a própria mídia americana tratava com muito mais cuidado. Não eram apenas tomadas de posição (o que ele tinha o direito de fazer), mas escrevia como se tivesse fontes melhores do que os articulistas da mídia dos EUA, o que, convenhamos, é pouco provável. Sentia no texto dele a típica arrogância de quem vivia nos EUA e pensava "posso escrever qualquer coisa, aquela cambada de índios são ignorantes mesmo". Hoje, com a Internet, isso seria impossível. Não esqueço também as circunstâncias da morte dele. Acostumado a ofender (bem menos que o Mainardi) diz-se que ficou abalado com o fato da Petrobras ter-lhe metido um processo na justiça de NY. Havia o risco de que enfrentasse consequências sérias. À época, comentários pouco divulgados (não se deve falar mal dos mortos), lembravam que a valentia do texto abrasivo e da língua ferina funcionava contra os índios de Pindorama. Quando viu que teria de prestar contas nos EUA resolveu sair de cena... Enfim, não gosto do personagem embora reconheça, a contragosto, que tinha talento e inteligência.

Godoy (14/08/2008 - 12:55)
Como é bom ler textos como este Azenha. Texo de coração. Dá até pra perceber o gosto pelo trabalho daquele fez. É disso que precisamos, sentir a verdade dos pensamentos dos outros. Meu agradecimento a você por mais esse trabalho, que mais uma vez, me deixa muito contente em ter conhecido o seu site e sua história.

Luiz Carlos Azenha (14/08/2008 - 12:28)
Eduardo, estou velho para me preocupar com isso. abs

Ruy Barbosa Maciel (14/08/2008 - 11:28)
Em relação ao Newman,fica mais claro o que dizes sobre ele, quando para prestar uma homenagem à atriz Jessica, já no final da vida dela, participou no filme aqui chamado de As Pontes de Madson, acho que é este o título. Quanto ao Francis tenho minhas dúvidas. Adorava ilações quanto à reputação alheia, morreu de problemas cardíacos, agravado pelo fato de que seria arruinado financeiramente, já que perderia uma ação de reparação de danos na justiça de Nova York, movida por um diretor da Petrobras. Eu não me lembro mais o nome mas, sei que ele dizia aos amigos: "Ele quer me arruinar financeiramente." Ruy Barbosa Maciel-Governador Valadares MG.

Eduardo Guimarães (14/08/2008 - 10:03)
Cuidado, Azenha. Citar alguém como Paulo Francis, o modelo mal copiado pelos esgotos da mídia brasileira, é considerado crime num momento do país no qual qualquer concessão a alguém de um dos lados do espectro ideológico levanta a ira do outro lado, mesmo que esse lado tenha sido apoiado por você milhares de vezes.

casa (14/08/2008 - 10:02)
Falando em comportamento; "Si quieres evitar una agresión sexual, no uses ropa provocativa" La Archidiósesis de México publica en Internet unas recomendaciones en las que define la pornografía como "una prostitución sexual"EFE / ELPAÍS.com - México / Madrid - 13/08/2008 La Archidiócesis de México ha publicado en la Red una "ficha de valores" sobre el pudor en la que recomienda a las mujeres católicas que, para evitar agresiones sexuales, no usen "ropa provocativa" ni entren en "conversaciones o chistes picantes" con personas del otro sexo. En estos consejos "prácticos" se llega a asegurar que la pornografía es una "prostitución mental".



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