Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha

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PAUL NEWMAN, UM GENTLEMAN

Atualizado em 27 de setembro de 2008 às 16:00 | Publicado em 10 de janeiro de 2008 às 01:00

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Paul Newman era dono de escuderia. E se comportava como mais um de nós, no chamado circo da Fórmula Indy. Um dos pilotos da equipe Newman-Haas era o brasileiro Christian Fittipaldi.

Paul tinha um carinho muito especial pelo Christian. Coisa de pai para filho. O ator sempre foi muito reservado, mas a Indy parecia uma grande família. Ali ele não era o grande ator de Hollywood. Era o apaixonado por automobilismo. Gostava de se misturar aos pilotos, aos mecânicos. Parecia se sentir à vontade, sem ser incomodado como celebridade.

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Cronômetro na mão, vibrava como qualquer outro dono de equipe. Conseguir uma entrevista com ele, na época, era difícil. Até hoje ele se nega a participar do que em Hollywood é chamado de "junket". É o dia que os marqueteiros reservam para a imprensa entrevistar atores e atrizes, na véspera do lançamento de um filme.

Os jornalistas convidados recebem passagem e hotel de graça para ir até onde está o elenco. Formam fila. Cada um tem de cinco a quinze minutos, no máximo, para as entrevistas. É irritante para diretores, atores e atrizes, que respondem sempre às mesmas perguntas.


E é humilhante para repórteres, sem tempo para ter uma boa conversa. Por isso foi um privilégio conviver com Paul Newman. Tínhamos uma espécie de acerto não escrito. Eu não perguntava sobre cinema, mas podia entrevistá-lo sobre qualquer assunto relacionado a automobilismo. Por perto do Christian, Newman quebrava o gelo, virava menino e batia papo de botequim.

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Paul Newman não estava ali de curioso. Pilotou em corridas profissionais e disputou as 24 Horas de Le Mans. Já setentão, escapou ileso de um acidente. Ele nasceu em Cleveland, Ohio, em janeiro de 1925. Na região há muitos apaixonados por automobilismo, provavelmente porque foi nela que se desenvolveu a indústria americana de automóveis. Ohio, Michigan, Wisconsin e Indiana: lá surgiram as primeiras pistas ovais para competição.

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Depois da fama, Paul Newman passou a dedicar boa parte de seu tempo a projetos sociais. Fundou uma empresa que produz molhos para salada e macarrão com receitas que o próprio ator criou. Os produtos levam o nome dele - Newman's Own - e a maior parte do lucro é aplicada em ações sociais. É um gentleman típico da Nova Inglaterra.

Eu não sei o motivo, mas a convivência que tive com Newman me faz lembrar do colega Paulo Francis. Morando em Nova York, eu o conheci em 1986. Já era um jornalista famoso, conhecido pelas críticas ácidas e pelas provocações que publicava na "Folha de S. Paulo". Fui apresentado a ele por um amigo comum.

Um almoço aqui, um jantar ali, uma peça na Broadway - e eu comecei a perceber a grande distância que existia entre o personagem e a pessoa. Não havia nada de raivoso nele, nada que remotamente lembrasse o tom áspero das críticas que publicava. Era uma pessoa doce. Na tevê, nem sempre era entendido pelos telespectadores, porque escolhia assuntos complexos para comentar em um ou dois minutos.

Na época, Chico Anysio fazia um personagem imitando o Francis, que batizou de Paulo Brasilis. Certa vez, na estação rodoviária de Bauru, eu assistia ao "Jornal da Globo". Entrou o comentário do Francis. Quando saiu do ar, um caboclo simples sentado ao meu lado comentou: "Esse Chico Anysio tem cada uma!"

Francis amava os gatos, os livros e o cinema. Ele era politicamente incorreto há vinte anos, quando ainda não era moda. Vizinho do prédio das Nações Unidas, descrevia a ONU como um tremendo cabide de empregos - o que hoje é um consenso. Francis recomendava aos amigos o Spark's Stakehouse, a churrascaria preferida dos mafiosos. Foi diante dela, em 1985, que fiz uma de minhas primeiras reportagens como correspondente.

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O assassinato do chefão da Máfia, Paul Castellano. Para o Francis, não poderia haver melhor elogio a um lugar do que a escolha dos mafiosos. "Essa italianada come bem", dizia. Francis faz falta como referência para os novos jornalistas. Era um gentleman, feito o Paul Newman. Os dois ficaram como símbolos de autenticidade num mundo povoado por gente que não fala o que pensa ou que fala muito sem dizer nada.

Publicado originalmente em 2006


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Marcia (29/09/2008 - 05:40)
Mas não é que apareceu uma sósia, sem assento,como eu?
Eu sou de Salvador, a outra é paraguaia...kkkkkkk.
Azenha, falando sério, sou suspeita porque ele e o Redford foram meus ícones na adolescência. Tinha posteres até na cabeceira da cama.
Que o P. N. seja cobertopelas bençãos do Senhor.
Abraço, Azenha, e obrigada pelo espaço.

Luiz Paulo - Vitória (28/09/2008 - 22:07)
Marco Leite, concordo plenamente contigo. O Paul Newman que conhecemos dos filmes já nos dava "aquela" inveja, mas no texto do Azenha ficamos com a sensação de que se o conhecessemos fora das telas correriamos o risco de nos "suicidar"... quanto aos mau humorados que criticaram a parte em que o Azenha fala do Paulo Francis um recado: Pelo amor de Deus, a vida não é feita somente de murros na mesa, o que foi falado foi de um estilo, de uma pessoa que viveu acreditando no que falava e que era gentil na vida privada, qual o problema disso? A quem pediu cuidado ao Azenha, sem procuração eu digo, Cuidado vocês pois ninguém quer seguir as idéias e trilhar o caminho de pessoas amargas que vêem problemas em tudo... tenho dito!

Marco Antônio Leite (28/09/2008 - 17:28)
Ele foi à flor no jardim do coração das mulheres. Ele foi o olhar dos invejosos por serem feios e de pouco talento. Ele foi à água que correu no rego das meninas da época? Ele foi o batom nos lábios das mulheres boemias. Ele com aqueles olhos azuis mantinha as moçoilas enfeitiçadas.

Marcia (28/09/2008 - 10:36)
Parabéns Azenha, você conseguiu uma foto em que está melhor que o Paul Newman, rs, rs.... Valeu o texto, mas o Newman merecia um texto só dele, isso de meter o bobão do Paulo Francis no meio foi uma lástima. Concordo com o Eduardo, não é oportuno elogiar o Francis quando hoje a mídia golpista faz uso desse estilo só para desinformar. Veja que nos comentários já tem gente citando o sujeito mais esgoto neste estilo em comparação ao Francis.... Inoportuno.

Amyra El Khalili (27/09/2008 - 22:31)
Sim....e Paul Newman, um homem lindo em todos os sentidos! Mais lindo ainda por respeitar a família e considerar as minorias. São atributos de homens pela Paz!

Horacio M. Pires (27/09/2008 - 21:08)
Como ator, perda irreparavel. Como pessoa, pelo 'rastro' que deixa, perda irreparavel. Para quem o aguardava na luz, amigo inseparável.

ROBERTO SÓ (27/09/2008 - 19:22)
Azenha, vc ficou muito bem na foto, tá mais bonito que Paul Newman e não apelou para o photoshop, o que o tempo faz com agente!

wilson cunha junior (27/09/2008 - 19:13)
Tenho um livro do Paulo Francis, "O afeto que se encerra". Quando eu gosto de um livro costumo emprestá-lo para amigos próximos. Neste caso os amigos recusaram e estranharam eu recomendar um livro de uma pessoa cujas opiniões eu repudiava. Isso foi há muito tempo. Recentemente fiz a mesma coisa com "Chatô" e quando esperava o mesmo comportamento aconteceu que eles gostaram tanto do livro que até hoje não voltou pra mim. Já a morte do Paul Newman empobrece ainda mais os EUA que já perdeu este mês o escritor David Foster Wallace.

Leider Lincoln (27/09/2008 - 18:04)
Não se faz justiiça ao comparar Paulo Francis a Olavo de Carvalho, ao contrário. Muito menos é-se justo a memória de Paul Newmaan, um bom homem, um bom desportista, um bom estadunidense e um baita ator, uma combinação ímpar demais para ser poluída com o nome do Olavo...

Gustavo Eduardo Paim Pamplona (27/09/2008 - 17:03)
http://www.imdb.com/name/nm0000056/ - Como eu sou cinéfilo... chequem o "profile" dele no Internet Movie DataBase. Detalhe, era um dos atores que eu gostava... e eu estava sabendo da condição dele já faz muito tempo.

Marco Antônio Leite (27/09/2008 - 16:41)
Ele se igualou a todos os seres humanos que por aqui passam como um carro de formula Indy, ou seja, esta na horizontal. Posição onde ninguém é diferente na condição social, intelectual, altura, gordura, bonito, feio entre outros dotes que em vida possivelmente difere cada um de nós.

Pegasus (27/09/2008 - 15:57)
É estranho, mas quando alguem que temos apresso se vai, na verdade é um pouco de nós, vi muitos filmes com Newman e isso provocou sentimentos diversos, existem pessoas que fazem parte de nossa historia mesmo que nao queiramos, principalmente pessoas que nos fizeram sentir.
Isso vem demonstrar o poder inexoravel do tempo que vai levando aqueles que nos marcaram e fazendo ele(o tempo) se aproxima de nós tambem e lembrar-no de nossa mortalidade.
Vai com Deus Newman e obrigado pelo que nos fez sentir.

Leonardo Medeiros (27/09/2008 - 15:16)
Assim como Paulo Francis, Olavo de Carvalho é gente boa, bom de papo, gozador, mas...

Fernando (27/09/2008 - 11:52)
Faleceu Paul Newman. Descanse em paz.

Fernando (14/08/2008 - 16:52)
OK. Bom, torço para que ele tenha momentos felizes ao lado da família então. Pelo seu depoimento parece ser um homem bastante digno. Que o melhor aconteça para ele e sua família.

Luiz Carlos Azenha (14/08/2008 - 13:19)
Fernando, foi mais ou menos isso. Os médicos deram a ele mais algumas semanas de vida. E o Newman decidiu passá-los com a família, segundo notícias divulgadas aqui. Mas como o Newman sempre foi muito discreto não há confirmação.

Fernando (14/08/2008 - 13:11)
Azenha, fale um pouco sobre o estado de saúde do Paul. Ele fugiu do hospital tipo o Darcy Ribeiro?

Paulo Lustosa Demmani (14/08/2008 - 13:00)
Azenha, não tive oportunidade de conhecer Paulo Francis quem imagino que tivesse as qualidades humanas que vocâ aponta. Na virada dos 80 para os 90 vivi nos EUA e lia diariamente o NYT, o WSJ e, semanalmente, a Newsweek e a Time. Saciava minha fome de informação com assinaturas desses periódicos. Me incomodava no Francis o fato de, mais de uma vez, ter escrito na FSP comentários e análises contundentes, arrogantes as vezes, sobre temas que a própria mídia americana tratava com muito mais cuidado. Não eram apenas tomadas de posição (o que ele tinha o direito de fazer), mas escrevia como se tivesse fontes melhores do que os articulistas da mídia dos EUA, o que, convenhamos, é pouco provável. Sentia no texto dele a típica arrogância de quem vivia nos EUA e pensava "posso escrever qualquer coisa, aquela cambada de índios são ignorantes mesmo". Hoje, com a Internet, isso seria impossível. Não esqueço também as circunstâncias da morte dele. Acostumado a ofender (bem menos que o Mainardi) diz-se que ficou abalado com o fato da Petrobras ter-lhe metido um processo na justiça de NY. Havia o risco de que enfrentasse consequências sérias. À época, comentários pouco divulgados (não se deve falar mal dos mortos), lembravam que a valentia do texto abrasivo e da língua ferina funcionava contra os índios de Pindorama. Quando viu que teria de prestar contas nos EUA resolveu sair de cena... Enfim, não gosto do personagem embora reconheça, a contragosto, que tinha talento e inteligência.

Godoy (14/08/2008 - 12:55)
Como é bom ler textos como este Azenha. Texo de coração. Dá até pra perceber o gosto pelo trabalho daquele fez. É disso que precisamos, sentir a verdade dos pensamentos dos outros.

Meu agradecimento a você por mais esse trabalho, que mais uma vez, me deixa muito contente em ter conhecido o seu site e sua história.

Luiz Carlos Azenha (14/08/2008 - 12:28)
Eduardo, estou velho para me preocupar com isso. abs

Ruy Barbosa Maciel (14/08/2008 - 11:28)
Em relação ao Newman,fica mais claro o que dizes sobre ele, quando para prestar uma homenagem à atriz Jessica, já no final da vida dela, participou no filme aqui chamado de As Pontes de Madson, acho que é este o título. Quanto ao Francis tenho minhas dúvidas. Adorava ilações quanto à reputação alheia, morreu de problemas cardíacos, agravado pelo fato de que seria arruinado financeiramente, já que perderia uma ação de reparação de danos na justiça de Nova York, movida por um diretor da Petrobras. Eu não me lembro mais o nome mas, sei que ele dizia aos amigos: "Ele quer me arruinar financeiramente."
Ruy Barbosa Maciel-Governador Valadares MG.

Eduardo Guimarães (14/08/2008 - 10:03)
Cuidado, Azenha. Citar alguém como Paulo Francis, o modelo mal copiado pelos esgotos da mídia brasileira, é considerado crime num momento do país no qual qualquer concessão a alguém de um dos lados do espectro ideológico levanta a ira do outro lado, mesmo que esse lado tenha sido apoiado por você milhares de vezes.

casa (14/08/2008 - 10:02)
Falando em comportamento;
"Si quieres evitar una agresión sexual, no uses ropa provocativa"
La Archidiósesis de México publica en Internet unas recomendaciones en las que define la pornografía como "una prostitución sexual"EFE / ELPAÍS.com - México / Madrid - 13/08/2008
La Archidiócesis de México ha publicado en la Red una "ficha de valores" sobre el pudor en la que recomienda a las mujeres católicas que, para evitar agresiones sexuales, no usen "ropa provocativa" ni entren en "conversaciones o chistes picantes" con personas del otro sexo. En estos consejos "prácticos" se llega a asegurar que la pornografía es una "prostitución mental".



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