Atualizado em 31 de janeiro de 2008 às 19:48 | Publicado em 31 de janeiro de 2008 às 19:46

Michael Andretti passa a mão no cabelo, como se ainda não acreditasse. Émerson Fittipaldi, ao lado dele, parece atônito. André Ribeiro, com a mão no queixo, observa. Estão diante de uma cena dramática.
No que sobrou do carro do americano Jeff Krosnoff, médicos e enfermeiros da Cart tentam ressuscitar o piloto. Foi no Grande Prêmio de Toronto, no Canadá, em 1996.

O rosto de Krosnoff parece deformado. Ele morreu na hora, ao bater a cabeça numa árvore. Foi o momento mais trágico que testemunhei durante os seis anos em que trabalhei como repórter de automobilismo. Depois da corrida, fiquei me perguntando: como é que os pilotos lidam com a morte de um colega?
Encontrei Émerson Fittipaldi saindo do centro médico. Estava pálido. Nunca tinha visto Émerson tão transtornado.

Gil de Ferran estava no carro que aparece dentro do círculo e viu tudo. Um ano depois, de volta a Toronto, perguntei a Gil sobre o acidente: "Aquela é uma memória que está muito viva na cabeça. A gente tem que fazer esforço para esquecer".
Muito se fala da frieza dos pilotos. Mas eles se comportam como gente comum. Quando jovens, empurram todos os limites. Vi Paul Tracy e Greg Moore fazendo manobras inacreditáveis nas pistas. Preciso consultar o guia da Cart para ter certeza. Se não me engano, em uma única temporada Tracy se acidentou em sete ou oito corridas. Moore morreu num acidente.
Depois de enfrentar situações-limite e de ver colegas mortos ou feridos nas pistas, os pilotos amolecem. Nenhum deles jamais vai admitir. Mas há um momento em que ficam iguaizinhos à gente: passam a ter medo. Quando isso acontece, o piloto arranja uma desculpa e anuncia a aposentadoria. Como diz um colega: quando somos jovens, temos ombros largos e a cabeça pequena. Com a idade, a cabeça cresce e os ombros encolhem.
Publicado originalmente em 2006