Atualizado em 26 de janeiro de 2008 às 01:16 | Publicado em 26 de janeiro de 2008 às 01:08

O carro capotou várias vezes e ficou despedaçado. Dentro dele estava Greg Moore, de 24 anos de idade. Fui repórter de automobilismo durante seis anos. Vi acidentes trágicos. Foi pela tevê que soube da morte do canadense Greg, nas 500 Milhas de Fontana, na Califórnia, no dia 31 de outubro de 1999.
Ele foi levado de helicóptero para o hospital, com graves ferimentos na cabeça. Difícil acreditar que já não estivesse morto. Meses antes eu havia deixado de acompanhar as corridas. Foi um choque pessoal ver a morte de alguém com quem convivi tanto tempo, talvez a mesma sensação que os brasileiros tiveram ao assistir a morte de Ayrton Senna, em Ímola.
Aliás, em várias entrevistas que fiz com Greg Moore ele disse que seu ídolo de infância tinha sido Ayrton Senna. Quando conheci Greg, ele era um garoto divertido, que causava controvérsia nas pistas. Colegas achavam que era muito abusado. O canadense se destacou desde que ingressou na IndyLights, a categoria de iniciantes.
Foi um sucesso instantâneo. Demonstrava ousadia. Campeão da categoria, foi contratado para enfrentar os veteranos. Não se intimidou. Logo estava disputando as curvas de igual para igual. Fora da pista, gostava de molecagens. Com os brasileiros Christian Fittipaldi e Tony Kanaan, formou um trio impagável. Era diversão garantida quando nos encontrávamos. Na hora do trabalho, Moore entrava em outro mundo.

Era um dos pilotos mais aplicados. E vencedor. Na foto acima, vibra com a vitória em Miami, meses antes de morrer. No feitio do brasileiro Gil de Ferran, Greg gostava de passar horas com os engenheiros e mecânicos discutindo detalhes do acerto do carro. Na sexta-feira que precedeu a corrida de Fontana, Greg sofreu um acidente fora da pista. Como os demais pilotos, ele usava uma motonete para se deslocar no circuito. Foi atropelado por uma caminhonete. Além de fraturar um dedo, levou 15 pontos na mão direita.
Moore não pôde participar dos treinos de classificação. Com a mão envolta num saco de gelo, só assistiu, na véspera do acidente. No dia da corrida, insistiu. Dizia que estava pronto para disputar as 500 milhas da Califórnia - 800 quilômetros em uma super-oval.
Oitocentos quilômetros com um dedo quebrado? Moore foi examinado pelos médicos da categoria, o dr. Steve Olvey e o ortopedista Terry Trammell. Trammell foi o médico que reconstruiu o pé de Nelson Piquet, depois do acidente que o brasileiro sofreu nos treinos para as 500 Milhas de Indianápolis. Liberar Moore para correr teria sido a decisão acertada?
Até hoje ninguém sabe exatamente o que causou o acidente. O carro de Moore derrapou na saída da curva dois. Foi na décima volta da corrida. A super-oval de Fontana é uma das pistas mais perigosas do mundo.

Quando o carro deslizou, Greg estava a mais de 250 quilômetros por hora. Capotou seguidamente e ainda se chocou com uma cerca de metal. Apesar da morte de Moore, a prova seguiu até o final. O mexicano Adrian Fernandez venceu. Ele estava atrás de Greg na hora do acidente.
Adrian acredita que algum carro reduziu a velocidade diante do canadense. Moore teria sido obrigado a mudar bruscamente de trajetória. Por isso teria perdido o controle do carro. Depois da corrida, o dr. Olvey, de quem me tornei muito amigo, disse que "não houve relação entre a mão fraturada e o acidente".
A equipe de Greg havia modificado a direção do carro para facilitar a pilotagem. Numa oval, o piloto faz mais força nas curvas, sempre para a esquerda. Ou seja, a mão direita é a mais exigida.

Fico imaginando quanto deve ter sido dolorido para o pai de Greg Moore, Ric, ver o filho morrendo na pista. Acima, ele abastece Greg com um saco de gelo, para aplicar na mão machucada. A mãe do piloto, Donna, assistia à corrida pela TV, em casa. Disse a um jornal canadense: "Assim que aconteceu eu soube que ele provavelmente não sobreviveria. Foi meu maior medo se tornando real." Nas 500 Milhas de Fontana, Greg Moore largou na última posição, porque não havia participado dos treinos de classificação.
Quando sofreu o acidente, já estava em décimo quinto. Se pudesse usar a mão direita normalmente, Greg teria sido capaz de evitar o descontrole total do carro? Ou foi vítima de sua própria ousadia? É complicado especular sobre o que aconteceu dentro daquele cockpit. Só Greg Moore teria as respostas. Mas nós o perdemos precocemente.

Publicado originalmente em 2006